Gabriela Biló/Estadão
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Análise: Por que as queimadas na Amazônia preocupam os empresários brasileiros

Ameaça às empresas começou a ficar mais clara à medida que grupos estrangeiros passaram a condicionar investimentos no País e compras de produtos brasileiros a mudanças na política ambiental

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 11h27

No início desta semana, um grupo de presidentes de empresas muito importantes - como a fabricante de celulose Suzano, a gigante dos cosméticos Natura, a Marfrig, do setor de carnes,  e os maiores bancos privados do País, Itaú e Bradesco - enviou uma carta ao governo cobrando providências em relação à questão ambiental. Pediam basicamente o controle do desmatamento na Amazônia, cujos números oficiais mostram que vem avançando.

Foi um movimento, de certa forma, inusitado. É raro que tantos executivos importantes, de ramos tão diferentes da economia, se unam em torno de algum tema. E, se esse tema é a preservação ambiental, algo em geral mais associado a ONGs, a estranheza fica ainda maior. Mas a união tem uma explicação muito simples. No século XXI, a forma de produção mudou. A cabeça do consumidor é outra. Questões ambientais são cada vez mais levadas em conta na hora da decisão de compra e de investimentos. Em suma, promover a produção sustentável, sem agredir o meio ambiente, é sinônimo de lucro. E é essa, no fim das contas, a função das empresas – dar lucro aos acionistas.

A imagem de vilão do desmatamento perseguiu o Brasil por muitos anos. O avanço do agronegócio no Centro-Oeste, atingindo as “franjas” da Amazônia, chegou a ameaçar o desenvolvimento desse setor, totalmente dependente dos compradores internacionais para crescer. Foi preciso um trabalho de anos para mudar essa imagem. 

Em 2006, por exemplo, foi criada a “moratória da soja”, um pacto pelo qual as empresas do setor se comprometiam a não comercializar soja produzida em áreas desmatadas dentro da Amazônia legal. O esforço fez efeito. Com o passar dos anos, o Brasil se firmou como um dos mais importantes fornecedores globais  de produtos agrícolas.

Mas a desconfiança e a pressão dos investidores internacionais voltaram a crescer a partir do ano passado. O aumento de 30% nas queimadas na Amazônia provocou uma onda de protestos globais. Em agosto, países como a França e a Irlanda ameaçaram até barrar a aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia se o governo brasileiro não desse uma resposta à altura.

Mas essa resposta não veio. O presidente Jair Bolsonaro sempre teve uma visão diferente para a questão ambiental. Antes mesmo de tomar posse, sua ideia era juntar os ministérios do meio ambiente e da agricultura em uma pasta só, capitaneada por gente ligada à área agrícola. Pressionado, voltou atrás e manteve as duas pastas separadas.

Mas, em todas as suas declarações posteriores, sempre deixou claro que essa coisa de proteção à Amazônia era assunto de esquerdistas ou  de governos estrangeiros tentando impedir que o Brasil tirasse proveito das riquezas da região. No caso das queimadas,  chegou a acusar, sem provas, ONGs de terem promovido o aumento, por motivações politicas. 

Nesse cenário, a ameaça às empresas começou a ficar mais clara à medida que grupos estrangeiros passaram a condicionar investimentos no País e compras de produtos brasileiros a mudanças na política ambiental.  Em dezembro, um grupo de 87 companhias europeias escreveu uma carta para o governo brasileiro pedindo a interrupção do desmatamento na Amazônia para a produção de soja. Diziam que poderiam parar de comprar produtos brasileiros se isso não ocorresse. E entre as empresas que assinaram a carta estavam algumas das maiores redes de supermercados do continente, como Tesco, Aldi, Asda e Carrefour. 

Este ano, novas ameaças surgiram. No mês passado, fundos de investimentos globais, responsáveis pela gestão de ativos avaliados em US$ 4,6 trilhões, ameaçaram simplesmente parar de investir no Brasil se o governo não mudasse o rumo de sua política ambiental

“Considerando o aumento das taxas de desmatamento no Brasil, estamos preocupados com o fato de as empresas expostas a desmatamento potencial em suas operações e cadeias de suprimentos no Brasil enfrentarem uma dificuldade crescente de acessar os mercados internacionais. Também é provável que os títulos soberanos brasileiros sejam considerados de alto risco se o desmatamento continuar”, escreveram os fundos, em uma carta enviada ao governo brasileiro.

Não são ameaças vazias. Tanto as empresas que compram produtos brasileiros quanto os fundos que investem aqui precisam seguir normas rígidas em seus países no que concerne à questão ambiental. Um supermercado que venda produtos oriundos de áreas desmatadas ilegalmente pode sofrer punições severas. O mesmo se aplica aos gestores de recursos. E, sem esses recursos externos, a economia brasileira pode entrar em sérias dificuldades, o que atingiria não só as empresas do agronegócio, mas os grupos de todos os setores.

É por isso que tantas companhias importantes de setores tão díspares se uniram para pressionar o governo. "No momento em que a sociedade se percebe frágil, a gente deve olhar para outros perigos. As consequências ambientais podem até vir de uma maneira mais lenta do que as da saúde, como a covid-19, mas são mais duradouras e difíceis de reverter", disse no mês passado o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher.

Na carta enviada no início da semana ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão, grupos empresariais e entidades mostram grande preocupação com o que o avanço do desmatamento pode trazer de perdas. Eles pediram “atenção e preocupação com o impacto nos negócios da atual percepção negativa da imagem do Brasil no exterior em relação às questões socioambientais na Amazônia”. “Essa percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o País”, dizia a carta.

Hoje, esse grupo se reúne com Mourão em videoconferência – apenas um dia após o vice-presidente ter se reunido com investidores internacionais -, e vai apontar quais são suas preocupações.  O caminho, para eles, é um só: a retomada do crescimento econômico brasileiro precisa passar pela questão da sustentabilidade. É o que o mundo exige hoje, como já mostraram todas as manifestações feitas mundo afora. A dúvida é se o governo terá capacidade para fazer uma mudança de rumos suficiente para convencer os donos do dinheiro mundo afora que o Brasil se tornou um país ambientalmente responsável.

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