ANÁLISE: Protesto não tocou a alma da cidadania

Para o andamento das reformas, o inimigo a ser vencido encontra-se na própria base governista

*Murillo de Aragão, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2017 | 22h25

As manifestações desta sexta-feira pelo Brasil não lograram atingir seu objetivo, que era o de paralisar o País de forma ampla em protesto contras as reformas encaminhadas pelo governo. E não atingiram seus objetivos por vários motivos.

Primeiro, pela fraca adesão da população. O protesto não tocou a alma da cidadania, mais preocupada com a recuperação da economia e em dar apoio à Operação Lava Jato.

Em segundo lugar, a despeito da impopularidade das reformas, a realidade do desemprego fala mais alto. Muitos sabem que contratar no Brasil está caro e difícil. Com quase 14 milhões de desempregados, fica complicado defender um modelo que gera desemprego em vez de condições de empregabilidade.

O terceiro aspecto reside no fato de que o País já dá sinais de cansaço com a alta voltagem dos protestos e das manifestações. Talvez a população deseje chegar logo a 2018 para eleger um novo presidente e começar tudo de novo.

O quarto aspecto é o da sensação térmica da economia. Em que pese o desemprego alto, começamos a sair lentamente da pior recessão da história do País. Esse sentimento, ainda que difuso, impacta positivamente o ambiente e retira oxigênio das manifestações.

Qual a mensagem das manifestações para o Congresso? Paradoxalmente, elas são positivas. Não houve uma adesão maciça; não houve sequer impressão de greve geral. Os que se manifestaram contra são os mesmos de sempre. Enfim, nenhuma novidade.

Para o andamento das reformas, o inimigo a ser vencido encontra-se na própria base governista. Mas votos para aprovar a Reforma Trabalhista no Senado e a Reforma Previdenciária na Câmara existem. Com paciência e habilidade política, eles serão assegurados e elas poderão avançar.

Contudo, como ninguém pode garantir nada em política, não se pode descartar um cenário de derrota nas votações.

Até mesmo porque os temas são complexos, a desinformação e a contrainformação campeiam e a base política quer saber se o custo de votar as reformas será neutralizado de alguma forma.

A chave do sucesso – ou do insucesso – das reformas está na coordenação política e na melhora da comunicação

de seus propósitos e alcance para a população. Manifestações contra já faziam parte do planejamento.

*Mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília 

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