ANÁLISE-Reservas internacionais caminham para 1a queda em 2 anos

As reservas internacionais brasileiras vão encerrar setembro com a primeira queda mensal em mais de dois anos, devido principalmente ao novo programa de estímulo do Federal Reserve (banco central norte-americano) e à desvalorização de algumas moedas que compõem a carteira.

JOSÉ DE CASTRO, REUTERS

30 de setembro de 2011 | 20h11

Até dia 29 deste mês, segundo o Banco Central (BC), o "colchão" brasileiro somava 349,986 bilhões de dólares, queda de 3,411 bilhões de dólares sobre agosto, quando ele estava em 353,397 bilhões de dólares. Se confirmada, será a primeira baixa desde abril de 2009, quando houve perda de 1,210 bilhão de dólares.

Em 2010, 80,2 por cento das reservas internacionais estavam alocados em títulos governamentais, mostrou o Relatório de Gestão das Reservas Internacionais do BC divulgado em agosto passado. Dentre esses papéis, estão as Treasuries norte-americanas.

Nas reservas estão ativos norte-americanos de prazo mais curto, que tiveram seu valor de face reduzido recentemente por conta da Operação Twist do Fed, que prevê uma realocação de Treasuries na carteira do banco central dos Estados Unidos favorável a papéis mais longos, o que acabou desvalorizando o preços dos títulos mais curto.

Assim, a consequência para as reservas brasileiras foi a perda de parte dos ativos.

Após 2008, ano da crise financeira internacional, o BC passou a reduzir o prazo médio anual dos investimentos gerais, e não apenas os norte-americanos, que compõem as reservas em busca por de maior liquidez. Naquele ano, o prazo médio anual era em 2,88 anos, caindo para 2,21 anos em 2009 e para 1,68 ano em 2010, segundo o relatório de gestão da autoridade monetária.

Na opinião do ex-diretor de Política Monetária do BC e atual economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu Freitas, o BC se precipitou ao aumentar o estoque de Treasuries de vencimento mais curtos.

"Se a questão é liquidez, todos os papéis do Tesouro norte-americano, sejam curtos, médios ou longos, são líquidos. O fato é que o BC deveria ter previsto, ou ao menos vislumbrado, que os papéis longos é que se valorizariam, já que o cenário externo ainda sofria com os efeitos da crise anterior", afirmou.

Segundo ele, a estratégia do BC de aumentar o estoque de dólares australiano e canadense nas reservas também deve ser vista com cuidado, uma vez que, em tempos de turbulência, ainda são considerados de risco na comparação com o dólar norte-americano.

DÓLARES CANADENSES E AUSTRALIANOS

Em 2010, com base no relatório de gestão das reservas, 14,1 por cento desses recursos estão aplicados em dólar canadense, euro, dólar australiano e libra esterlina, moedas que têm sofrido desvalorizações neste mês devido à onda de aversão a risco nos mercados financeiros, sobretudo pelos problemas de dívida na zona do euro.

Só em setembro, o dólar canadense já tombou 6,9 por cento, enquanto a moeda australiana despencou 9,7 por cento. Já o dólar norte-americano, ante uma cesta de divisas, tem ganhos de 5,4 por cento no período.

Para o BC, alocar mais recursos em dólares canadense e australiano, por exemplo, é importante por serem moedas de economias com "sólidos fundamentos fiscais", chegou a comentar o diretor de Política Monetária do BC, Aldo Mendes.

MÉDIO E LONGO PRAZOS

Para alguns especialistas, no entanto, a estratégia do BC é correta justamente porque mira os cenários a médio e longo prazos. Isso porque os ativos que estão ganhando peso nas reservas brasileiras tendem a valorizar nesses períodos.

"Você tem que olhar mais para a frente, considerar fundamentos... O reforço do estoque dessas moedas nas reservas faz sentido", afirmou o analista da XP Investimentos Rossano Oltramari, para quem a queda das reservas em setembro não representa uma tendência.

Para o economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho, a análise da gestão desses recursos pelo BC precisa ser feita considerando o médio e longo prazos, e não apenas fatores conjunturais.

"Em algum momento, depois que essa crise passar, essas moedas vão recuperar valor porque vão prevalecer os fundamentos. E é nisso que o BC está se ancorando", afirmou.

Segundo ele, qualquer alteração mais substancial na composição das reservas neste momento poderia provocar mais prejuízos, em vez de minimizar perdas.

Nos últimos anos, o BC adotou a política de fortalecer as reservas internacionais do país --por meio da compra de dólares-- como uma forma de blindagem às turbulências do mercado, sobretudo exterior. No final de 2002, por exemplo, elas estavam em apenas 37,823 bilhões de dólares.

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