André Lucas/Estadão
André Lucas/Estadão

Análise: Saída da Ford remete à ‘Crônica de Uma Morte Anunciada’

Movimento anunciado pela montadora faz parte de uma reestruturação global que vem sendo implementada desde 2018 e que remonta ao Fordismo

Tião Oliveira*, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 15h06

A decisão da Ford de encerrar a produção de veículos no Brasil pode ser apenas o início de uma transformação no perfil industrial do País. Em uma conta bem simples, se a atual estrutura de produção do setor de veículos for mantida (já descontada a saída da Ford), 32 fábricas e 57 mil trabalhadores devem passar 2021 inteiro sem produzir absolutamente nada. 

De acordo com dados da Anfavea, a associação que reúne as montadoras, há 65 fábricas de veículos e componentes, como transmissões e motores, em dez Estados brasileiros. Essa estrutura conta com pouco mais de 120 mil empregados diretos. Os números incluem as três plantas que serão fechadas e os 5 mil funcionários que a Ford deve demitir.

A capacidade instalada da indústria permite produzir 5 milhões de veículos por ano no Brasil. Mas o setor fechou 2020 com 65% de ociosidade. E, de acordo com projeções da Anfavea, em 2021 a produção será de 2,5 milhões de veículos. Com isso, a ociosidade ficará ao redor dos 50%.

A decisão da Ford foi comunicada menos de 30 dias após a Mercedes-Benz anunciar o fechamento da planta de automóveis em Itirapina, no interior do Estado de São Paulo. A fábrica de caminhões, em São Bernardo do Campo, continua firme e forte. 

Já o movimento anunciado na segunda-feira, 11, faz parte de uma reestruturação global que vem sendo implementada pela Ford desde 2018. E que remonta ao Fordismo, conceito criado pelo fundador da empresa, Henry Ford, em 1914. O Fordismo visa tornar um produto acessível ao maior número de pessoas por meio da redução dos custos de produção.

A meta é cortar mais de US$ 36 bilhões (uns R$ 200 bilhões, na conversão direta) em custos operacionais nos próximos anos. Isso inclui menos empregados na Europa, China, América do Sul e, em menor escala, na América do Norte.

A Ford pretende direcionar esses recursos para o desenvolvimento de carros elétricos e autônomos. A empresa também está deixando de oferecer modelos menores, como hatches e sedãs, para ampliar a oferta de SUVs, picapes e comerciais leves, como vans e furgões. Não há segredo. Esses veículos são mais rentáveis.

A guinada busca atender as mudanças pelas quais o setor automotivo vem passando. Até mesmo nos Estados Unidos, o mercado de veículos enfrenta turbulência após anos de crescimento constante.    

No Brasil, a Ford já havia fechado a histórica fábrica de São Bernardo do Campo (SP). Com isso, encerrou a produção do Fiesta no País. Também deixou de fazer o Focus na Argentina e o Fusion no México. Os dois modelos eram vendidos no Brasil.

Ou seja, a repercussão do anúncio da Ford é uma espécie de Crônica de Uma Morte Anunciada. O romance escrito por Gabriel García Márquez começa pelo ápice da história, no dia em que o personagem principal, Santiago Nasar, é assassinado.

A pergunta que precisa de resposta urgente é se e quais montadoras estão dispostas a manter a atual estrutura no Brasil.

*EDITOR DO JORNAL DO CARRO

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