Wether Santana, Epitácio Pessoa e Marcelo Chello/Estadão
PIB cresceu 7,7% no 3º trimestre na comparação com o 2º tri deste ano Wether Santana, Epitácio Pessoa e Marcelo Chello/Estadão

Análise: Sustentabilidade da recuperação da economia depende de reformas fiscais

Dúvida agora é em relação aos possíveis efeitos da alteração das políticas de transferência de renda sobre a demanda e as finanças públicas

José Ronaldo de C. Souza Jr*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 12h51

A revisão da série do PIB - em função da atualização de pesos de acordo com as contas anuais de 2018 e devido à incorporação de pesquisas estruturais anuais de 2019 e de revisões em pesquisas setoriais primárias - torna difícil a comparação dos dados do terceiro trimestre de 2020 divulgados pelo IBGE com as previsões feitas anteriormente. 

A base de comparação e os pesos se alteraram. Porém os dados deixam claro que a recuperação da economia no período subsequente à forte queda do segundo trimestre foi mais forte do que se imaginava inicialmente.

As políticas públicas de manutenção de renda certamente tiveram importante papel nessa recuperação, que foi puxada pela demanda de bens. O setor de serviços, por questões relacionadas aos riscos de disseminação da covid-19, ainda se encontra muito abaixo do período pré-crise. 

A dúvida agora é justamente em relação aos possíveis efeitos da alteração das políticas de transferência de renda, na virada para o ano de 2021, sobre a demanda e as finanças públicas.

Claramente, não é factível manter, no ano que vem, o patamar deste ano de despesas com medidas de transferência de renda. A alteração da atual dinâmica de crescimento da dívida pública depende da contenção de despesas nos próximos anos, combinada com o crescimento da arrecadação, que viria da recuperação sustentável da atividade econômica. Não é possível ignorar a relevância desse tema devido aos seus impactos sobre o nível de riscos, investimentos e mesmo sobre as contratações formais no mercado de trabalho.

Um caminho que pode ser promissor para essa transição é o de reavaliar as despesas públicas de forma a melhorar a alocação de recursos, aumentando o foco conjunto de políticas voltadas à redução da pobreza e da desigualdade. Assim, seria possível aumentar a eficiência das despesas do governo e dar-se-ia um passo importante na direção da consolidação fiscal de longo prazo.

*Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Guedes admite que PIB veio abaixo do esperado, mas diz que economia está 'realmente voltando'

Para o Ministro da Economia, o desempenho ainda sinaliza uma retomada forte da atividade após o pior momento da pandemia de covid-19

Eduardo Rodrigues, Fabrício de Castro e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 11h03

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu nesta quinta-feira, 3, que o crescimento de 7,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre ante o trimestre anterior ficou um pouco abaixo do que o governo esperava, mas afirmou que o desempenho ainda sinaliza uma retomada forte da atividade após o pior momento da pandemia de covid-19

 

"É a economia voltando, está voltando em 'V' como sempre dissemos. Houve revisões de trimestres anteriores, e por isso o resultado veio um pouco abaixo do esperado, mas o fato é que a economia está voltando em 'V', realmente está voltando", afirmou, ao chegar à sede da pasta.

O resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) veio abaixo das estimativas de analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, de avanço de 8,80%. O Ministério da Economia projetava expansão de 8,3% no terceiro trimestre em relação ao período anterior.

Embora seja mais forte do que o esperado no início da crise, a retomada ainda é insuficiente para recuperar as perdas do primeiro semestre. Tanto que o PIB registrou queda de 3,9% na comparação com igual período de 2019. A retração do PIB em 2020 deverá ficar em 4,50%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados do IBGE. Ainda que menor do que as primeiras projeções, feitas quando a covid-19 se abateu sobre a economia, se confirmada, será a maior queda anual da história - a mais intensa até hoje foi registrada em 1990 (-4,35%), na série histórica iniciada em 1901. 

'Escudo social' deve ser desarmado, diz Economia

No mesmo dia de divulgação do PIB que mostra o impacto do auxílio emergencial para a retomada da economia, em nota técnica enviada à imprensa, o Ministério da Economia afirmou que “o escudo de políticas sociais criado para amenizar o sofrimento econômico e social causados pela pandemia deve ser desarmado, dando espaço para a agenda de reformas estruturais e consolidação fiscal – único meio para que a recuperação se mantenha pujante.”

O comentário reforça a postura da área econômica do governo nos últimos meses, que tem defendido o fim dos programas de auxílio no encerramento de dezembro, para evitar pressão maior sobre a área fiscal em 2021. A visão é de que, com a eventual extensão de alguns programas, o Brasil pode passar a mensagem errada aos investidores e elevar o risco fiscal.

“O fraco crescimento do PIB nos últimos anos é uma consequência da baixa produtividade, fruto da má alocação de recursos na economia brasileira”, registrou o Ministério da Economia na nota. “Desta forma, o único caminho que poderá gerar a elevação do bem-estar dos brasileiros serão medidas que consolidem o lado fiscal de nossa economia e corrijam a má alocação de recursos, aumentem a produtividade e incentivem a expansão do setor privado.”

Ao avaliar a alta de 7,7% do PIB no terceiro trimestre, o ministério afirmou que “a forte recuperação da atividade, do emprego formal e do crédito neste semestre pavimentam o caminho para que a economia brasileira continue avançando no primeiro semestre de 2021 sem a necessidade de auxílios governamentais”. Para a pasta, “a retomada da atividade e do emprego, que ocorreu nos últimos meses, compensará a redução dos auxílios”.

O ministério pontuou ainda, na nota técnica, que “outro fator positivo será a melhora das condições financeiras que continuarão impulsionando a atividade, principalmente com a retomada da agenda de reformas”. Conforme o ministério, a elevação da taxa de poupança no terceiro trimestre de 2020 – para 17,3% do PIB, no maior valor para o período desde 2013 – “sinaliza que a trajetória de consumo será suavizada no começo de 2021 sem a necessidade de novos auxílios governamentais”. “Além disso, esses dados sinalizam que a economia brasileira vai ganhando tração para manter a retomada econômica em 2021”, acrescentou.

“Os indicadores coincidentes sugerem manutenção da tendência de crescimento do PIB para os últimos meses deste ano, confirmando a expectativa de crescimento elevado no segundo semestre de 2020”, registrou a Pasta. Para o ministério, a indústria e o comércio foram os “principais motores” para a atividade no terceiro trimestre. Já o setor de serviços deverá apresentar maior contribuição para a alta do PIB no quarto trimestre de 2021.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Análise: PIB tem alta recorde, mas não é para comemorar

Crescimento de 7,7% na atividade econômica no terceiro trimestre veio abaixo do previsto e não recupera perdas acumuladas no ano

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 10h22

Pode soar estranho dizer que um crescimento de 7,7% na atividade econômica em um trimestre decepcionou. Mas estamos em 2020, ano de coisas muito, muito estranhas. Portanto, mesmo com uma alta recorde do PIB no terceiro trimestre, o primeiro sentimento é de decepção. Isso porque é um crescimento que não consegue sequer recuperar o que foi perdido apenas no segundo trimestre, quando houve uma queda de 9,6%. A previsão do mercado, de acordo com o Projeções Broadcast, era de uma alta de 8,8%, número que também já seria inferior ao do recuo no segundo trimestre. 

Esse tem sido um ano disfuncional, com dados que apontam caminhos completamente opostos, o que  torna as projeções para os rumos da economia um exercício de futurologia bastante complicado. Alguns analistas estão otimistas e projetam uma recuperação forte da economia no ano que vem, com alta de até 4,5%. Para outros, o cenário é de uma economia, na prática, estagnada em 2021.

O que complica todas essas previsões é o alto grau de incerteza em diversas frentes que podem ter um impacto significativo na atividade econômica. O primeiro, e talvez o maior deles, ainda é a covid-19. A pandemia vai arrefecer ou teremos um quadro de continuidade - ou, pior, de avanço da doença? Haverá uma vacina disponível para o Brasil? Quando? São perguntas ainda completamente sem respostas. Qual será o impacto, em 2021, dessa onda que derrubou a economia brasileira este ano?

Existe um efeito expectativa nos mercados financeiros para o qual também não há uma resposta clara. As reformas estruturais da economia vão avançar no Congresso? Haverá um movimento no sentido de controlar a trajetória do endividamento público? O teto de gastos será respeitado? Veremos alguma manobra contábil para a criação do programa pensado para substituir o Bolsa Família?

Na parte mais prática, está claro que não será um ano fácil. Com toda a ajuda fornecida pelo governo este ano a empresas e pessoas físicas, foi evitada uma catástrofe maior. No início da pandemia, chegou-se a prever uma queda do PIB de cerca de 10%. Agora, as projeções estão em uma queda em torno de 4,5%. Mas essa ajuda vai acabar, e alguns sinais de que as coisas podem piorar já aparecem.

O pior deles talvez seja o desemprego. Mês após mês o IBGE mostra um aumento no número de desocupados. São pessoas que, num primeiro momento, por causa da pandemia, desistiram de procurar uma vaga, mas que, com o passar do tempo e a necessidade batendo à porta, não tiveram alternativa. O auxílio emergencial, que também conseguiu manter muita gente em casa, foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 e deve acabar totalmente neste mês. Desemprego alto se reflete diretamente na queda do consumo, e as empresas já se mostram muito preocupadas com isso.

Por isso tudo, o aumento do PIB no terceiro trimestre, mesmo sendo recorde, não é um dado exatamente a ser comemorado. Pode parecer esquisito, mas, lembre-se, estamos em 2020.

*Editor de Economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ritmo da recuperação econômica em 2021 deve ser ditado pela vacina contra a covid-19

Para analista, principal risco para a atividade econômica no ano que vem é o aumento dos casos da doença

Cícero Cotrim, Altamiro Silva Junior e Ernani Fagundes, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 11h24

O avanço da atividade econômica em todo o mundo no ano que vem está diretamente ligado à vacina contra a covid-19. Os países que conseguirem vacinar primeiro sua população largam na frente nessa disputa pela retomada do crescimento. Mas há uma expectativa de que isso ocorra o mais rápido possível, mesmo no Brasil, onde ainda não está claro qual vacina estará disponível e quando. 

“Acho que a lição que ficou do que estamos vendo na Europa é que o risco de um lockdown horizontal é menor e, ao mesmo tempo, as campanhas de vacinação no mundo estão andando rápido e no Brasil podem acontecer em março ou até antes”, diz Guilherme Loureiro, economista-chefe da Trafalgar Investimentos. Ele espera um crescimento de 4% a 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2021, com um programa de vacinação no primeiro trimestre do ano.  

Nesta quinta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o PIB teve crescimento recorde de 7,7% no terceiro trimestre, resultado que ficou abaixo do esperado pelo mercado financeiro e ainda é insuficiente para recuperar as perdas acumuladas no ano.

Em evento para o lançamento  da carteira do Índice de Sustentabilidade (ISE) para 2021, o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, também disse acreditar num ano melhor, com a chegada de uma vacina. “Este ano foi muito diferente, muito desafiador, mas estamos terminando com viés de alta, com a esperança de uma vacina", disse.

A verdade, porém, é que, embora a questão da vacinação esteja avançando em países como a Inglaterra - onde já foi marcada data para o início -, ainda está bem pouco claro quando isso se dará aqui no Brasil. As vacinas com as quais o País tem acordo de compra não estão prontas. Com as que estão mais próximas de serem liberadas para a população no mundo, o governo não tem acordo. Essa indefinição pode ser um entrave ao crescimento. 

Preocupação com aumento dos casos da covid-19

Para Patrícia Krause, economista-chefe da Coface, o principal risco no radar para a atividade econômica brasileira é exatamente um recrudescimento do número de casos de covid que justifique o endurecimento das medidas de distanciamento social. Até agora, ações como as tomadas pelo governo do Estado de São Paulo não são suficientes para criar um tombo na atividade, segundo a economista, mas acendem uma luz amarela.

"Por ora eu acho que o auxílio emergencial não vai ser estendido e nós temos uma melhora da arrecadação pelo lado fiscal, mas existe um risco, principalmente olhando para o primeiro trimestre de 2021", diz a economista. No seu cenário-base, com manutenção do teto dos gastos e fim do benefício emergencial, ela vê um crescimento de 2,8% do PIB no ano que vem. 

De acordo com Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs para a América Latina, "a atividade econômica atingiu o piso em abril e, desde então, tem se recuperado em ritmo sólido". A expectativa é que a retomada prossiga nos próximos meses, ajudada por uma série de fatores, entre eles, os estímulos monetários e fiscais, as condições financeiras externas e internas mais favoráveis, a recuperação internacional dos preços das commodities e a retomada do crescimento da economia mundial.

Pelo lado dos riscos, ele destaca que o quadro da pandemia de coronavírus no Brasil ainda é complexo, o mercado de trabalho está deteriorado e medidas emergenciais pelo lado fiscal deverão ser retiradas. Com isso, a atividade vai seguir se recuperando, mas em ritmo menos forte que o observado até agora. O fator que pode ajudar o PIB a ter uma nova aceleração, segundo o economista, é exatamente  a vacinação da população.

Na análise dos economistas do Citi para Brasil, Leonardo Porto e Paulo Lopes, a  covid-19 é a grande incógnita para a recuperação da economia. No curto prazo, há  uma  crescente evidência de uma segunda onda de coronavírus no País, que deve diminuir o fôlego de crescimento de forma significativa no quatro trimestre e no começo de 2021. Mas, pelo lado positivo, a chegada da vacina para o coronavírus, provavelmente no segundo trimestre do ano que vem, pode abrir espaço para a reaceleração da atividade.

 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.