Tiago Queiroz/Estadão - 1/7/2020
Movimento no centro de São Paulo: vacina contra a covid vai permitir que a economia se restabeleça. Tiago Queiroz/Estadão - 1/7/2020

Análise: Uma economia à espera de vacinas

A vacina contra a covid-19 protegerá a vida das pessoas e permitirá que a oferta da economia se restabeleça; mas também precisamos de uma vacina contra a incerteza

Fernando Honorato*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 13h11

Os dados da economia brasileira confirmam uma forte recuperação, ainda que heterogênea. Enquanto a indústria se recupera aceleradamente - favorecida pela demanda de bens -, o setor de serviços - demandante de interação social - cresce abaixo do PIB. Essa configuração ficou nítida no terceiro trimestre, com a indústria praticamente retornando ao nível pré-pandemia e o setor de serviços ainda 5,0% abaixo.

É fato que a recuperação até agora foi marcada por dois fenômenos: a reabertura da economia após a primeira onda e os estímulos econômicos sem precedentes. As contas públicas não suportarão novas rodadas de estímulos, por isso, a recuperação do PIB, daqui em diante, depende essencialmente do retorno à normalidade.

Nesse aspecto, os dados de emprego têm surpreendido positivamente, os estoques estão no menor nível em duas décadas e a utilização da capacidade industrial superou a média histórica. Assim, não só é esperado que a indústria siga acelerando sua produção, como faça novas contratações e amplie os investimentos, que se recuperaram parcialmente no trimestre passado.

O Brasil reúne plenas condições para ingressar em uma retomada cíclica a partir de 2021: a demanda externa e os preços das commodities irão nos ajudar; a pandemia não produziu uma crise de crédito; muitas famílias e empresas foram capazes de poupar; os juros nunca foram tão baixos e o mercado de capitais tem apoiado a recuperação. Mas o emprego e os investimentos não irão se recuperar sem confiança no futuro.

Por isso, as vacinas são fundamentais, sim, no plural. A vacina contra a covid-19 protegerá a vida das pessoas e permitirá que a oferta da economia se restabeleça, respondendo a essa demanda por recomposição de estoques e geração de empregos. Mas também precisamos de uma vacina contra a incerteza. Para aproveitar plenamente as oportunidades dessa retomada cíclica e transformá-la em estrutural, o País precisa assegurar um regime fiscal sólido e avançar na agenda da produtividade, males que nos acompanham há décadas.

*Economista-chefe do Bradesco

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PIB tem alta recorde de 7,7%, mas fica abaixo do esperado e não recupera perdas da pandemia

Com o resultado, que vem depois de duas quedas trimestrais seguidas, a economia do País está no mesmo patamar de 2017, com perda acumulada de 5% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano passado

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 09h02
Atualizado 03 de dezembro de 2020 | 22h39

RIO - Uma maior reabertura das atividades em meio à pandemia e o impulso dado pelo auxílio emergencial fizeram a economia registrar no terceiro trimestre o maior crescimento em duas décadas. O Produto Interno Bruto (PIB, o valor de tudo o que é produzido na economia) saltou 7,7% ante o segundo trimestre, informou nesta quinta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Essa é a maior variação da série histórica, iniciada em 1996, mas ficou abaixo do esperado por analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que previam avanço de 8,80%. Com esse resultado, a economia do País está no mesmo patamar de 2017, com uma perda acumulada de 5% de janeiro a setembro, em relação ao mesmo período de 2019.

Embora seja mais forte do que o esperado no início da crise, a retomada ainda é insuficiente para recuperar as perdas do primeiro semestre. Tanto que o PIB registrou queda de 3,9% na comparação com igual período de 2019. A retração do PIB em 2020 deverá ficar em 4,50%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados do IBGE. Ainda que menor do que as primeiras projeções, feitas quando a covid-19 se abateu sobre a economia, se confirmada, será a maior queda anual da história - a mais intensa até hoje foi registrada em 1990 (-4,35%), na série histórica iniciada em 1901.

Em parte, a forte alta do terceiro trimestre se explica por um efeito estatístico. O salto se segue ao recuo de 1,5% no primeiro trimestre ante o quarto trimestre de 2019 e ao tombo, também recorde, de 9,6% no segundo trimestre.

De abril a junho, a retração foi tão pior do que em outras crises porque a economia foi “desligada” no início da pandemia, diz Eduardo Zilbermann, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, numa referência às regras de restrição ao contato entre as pessoas.

Como explica Zilbermann, o PIB é uma medida de fluxo, de quanto se gera de valor continuamente ao longo do tempo. Em outras crises - causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, etc. -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos. Assim, lojas vendem menos, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda caindo e reduzem a produção, mas seguem produzindo. E o fluxo se reduz na comparação com períodos anteriores.

Só que o “desligamento” na pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero, uma enorme queda na comparação com os fluxos de períodos anteriores. Mesmo que a parada para valer tenha ocorrido em abril, o fundo do poço, a reabertura gradual a partir de maio foi insuficiente para salvar o PIB do segundo trimestre, formado pelo fluxo contínuo em cada um dos meses.

Isso impulsionou o PIB industrial, que cresceu 14,8% sobre o segundo trimestre, com destaque para a indústria de transformação. Esse segmento, que inclui a fabricação de alimentos, saltou 23,7% sobre o segundo trimestre e registrou ligeira queda, de 0,2%, ante o terceiro trimestre de 2019. Para Silvia, apenas a mudança na demanda das famílias explica a atividade da indústria de transformação ficar em nível tão próximo ao do ano passado.

A retomada desigual também foi vista no PIB de serviços, que saltou 6,3% ante o segundo trimestre. O comércio, que inclui o atacado, avançou 15,9%, enquanto os “outros serviços” cresceram 7,8%. Essa atividade, que inclui hotéis, bares e restaurantes, despencou 14,4% ante o terceiro trimestre de 2019, indicando que, sem um controle da covid-19, a demanda por esses serviços está longe de voltar ao normal.

No terceiro trimestre, bastou a economia passar todo o período “religada” para o fluxo de valor gerado ficar muito acima do registrado no PIB do segundo trimestre, explica Zilbermann. Mesmo assim, esse fluxo foi inferior ao registrado nos trimestres de 2019, antes da pandemia. Por isso, a alta recorde sobre o trimestre imediatamente anterior não significa o fim da crise.

O quadro só não foi pior por causa das medidas do governo federal para mitigar a crise, como o auxílio emergencial para trabalhadores informais e as complementações de renda dos trabalhadores formais que tiveram suas jornadas de trabalha suspensas ou reduzidas.

“A recuperação no Brasil foi melhor do que nos pares na América Latina. Atribuo isso às políticas fiscal e creditícia”, diz Zilbermann.

Economistas já vinham ressaltando que o auxílio emergencial - que começou em R$ 600 ao mês e passou a R$ 300 por mês desde setembro - impulsionaria a economia. Nos primeiros meses, a renda extra chegou a tirar milhões de brasileiros da extrema pobreza, mas uma reversão nesse movimento já a partir de setembro reforçou seu caráter temporário. O consumo das famílias cresceu 7,6% sobre o segundo trimestre, puxando a recuperação. 

Só que mesmo o avanço do consumo trouxe traços “heterogêneos” e “disfuncionais” da recuperação, segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Com as famílias ficando mais em casa, mesmo após a flexibilização das restrições em várias cidades, o consumo de bens, especialmente os essenciais, como alimentos, avançou mais.

Segundo Silvia, essas peculiaridades levam incerteza sobre a recuperação. Os níveis de atividade da indústria de transformação e do comércio podem não se manter com a normalização dos hábitos das famílias. Além disso, o consumo tende a perder impulso sem o auxílio emergencial, a partir de janeiro. A pesquisadora do Ibre/FGV vê a economia com crescimento nulo, ou até novas quedas, no primeiro semestre de 2021.

Por isso, a manutenção do auxílio emergencial no próximo ano, ou sua substituição por um programa mais abrangente do que o Bolsa Família, tem dividido o debate entre economistas. Para Silvia, a economia brasileira está “entre a cruz e a espada”. De um lado, sem os gastos com transferência de renda, o consumo perde impulso. De outro, sem um remanejamento das despesas, os novos gastos agravam o rombo nas contas públicas, elevam o endividamento público, dificultam a rolagem da dívida do governo, elevam juros, aumentam a cotação do dólar e poderão pressionar a inflação - o que acabaria por minar a recuperação do PIB.

No outro lado do debate, há economistas que veem a elevação da dívida pública e a ampliação do rombo nas contas do governo como menos preocupantes, já que vários países estão fazendo o mesmo e os juros estão baixos no mundo todo.

A indicação de Janet Yellen, ex-presidente do Fed (o banco central americano) como secretária do Tesouro do governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, sinalizou para mais gastos públicos para mitigar a crise em 2021. Nomes como o ex-secretário de Tesouro americano Larry Summers e o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Olivier Blanchard vêm defendendo mais despesas dos governos de países desenvolvidos para ajudar na recuperação da economia.

Para José Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), no início do próximo ano, a economia ainda não terá se recuperado da queda do primeiro semestre deste ano, o desemprego estará elevado e há chance de uma segunda onda de contágio da pandemia ganhar força. Nesse quadro, sem a prorrogação do estado de calamidade pública, em vigor até 31 de dezembro, o teto de gastos públicos voltará a valer. O governo será obrigado a fazer um forte corte nas despesas.

“Se retiramos o auxílio de maneira súbita, que é o cenário que se coloca hoje, vamos entrar em recessão em 2021 de novo”, diz Oreiro.

Apesar das divergências sobre política econômica, há consenso num ponto: a principal variável a determinar os rumos da retomada será mesmo a pandemia. Uma segunda onda que ganhe força, acelerando o crescimento do número de casos e de mortes poderá exigir novas medidas de restrição ao contato social, atingindo novamente a economia. O sucesso no controle da doença e a eventual vacinação em massa ao longo de 2021 levarão mais pessoas às ruas, ampliando o consumo e acelerando a recuperação. / COLABORARAM CÍCERO COTRIM e GREGORY PRUDENCIANO

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Alta recorde do PIB tira país da recessão? Não é bem assim

Atividade econômica teve crescimento recorde no terceiro trimestre, mas, para confirmar o fim do ciclo recessivo, é preciso verificar o tamanho da recuperação em relação à queda iniciada ainda no primeiro trimestre

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 09h25

RIO - Após dois trimestres de queda, o crescimento de 7,7% no Produto Interno Bruto (PIB, soma de todo o valor gerado na economia num período) do terceiro trimestre foi recorde na série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 1996. Com tamanha alta, a recessão iniciada no primeiro trimestre, por causa da pandemia de covid-19, ficou para trás? A resposta não é simples e pode ficar mesmo para 2021. 

Quando o IBGE informou que o PIB do segundo trimestre despencou 9,7% sobre os três primeiros meses do ano, também uma queda recorde, a economia brasileira entrou em “recessão técnica”, confirmando o ciclo recessivo. Antes mesmo de sabermos que o PIB teve dois trimestres seguidos de queda - o que basta para caracterizar a “recessão técnica” -, o Codace, comitê independente da Fundação Getulio Vargas (FGV) que se dedica a marcar os ciclos da economia, já havia registrado o início de uma recessão no primeiro trimestre.

Tradicionalmente, economistas dedicados a estudar os ciclos econômicos levam mais tempo para registrar o início das recessões. Outros dados da atividade econômica, como aqueles do mercado de trabalho, são levados em conta, para além da simples variação do PIB. O registro do Codace/FGV foi atípico. Os impactos da pandemia de covid-19 foram tão fortes e evidentes que deixaram logo claro que a economia entrou em recessão - nos Estados Unidos, o comitê análogo do NBER, um dos mais antigos e tradicionais institutos de pesquisa econômica independente, também foi mais rápido do que o usual para registrar o início da recessão por lá.

Por outro lado, se foi fácil apontar quando a recessão da covid-19 começou, não basta que a economia volte a crescer para que um País saia do ciclo recessivo, explicou Paulo Picchetti, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV e um dos membros do Codace. É preciso verificar a magnitude da recuperação em relação à queda iniciada no atual ciclo recessivo e outros indicadores econômicos. Embora tenha sido recorde, o crescimento do PIB no terceiro trimestre foi insuficiente para apagar a queda do primeiro e do segundo trimestres.

Além disso, lembrou Pichetti, há incertezas em relação ao ritmo do crescimento econômico neste quarto trimestre e nos três primeiros meses de 2021. Os efeitos da “segunda onda” da pandemia, ou pelo menos da volta do crescimento de casos de covid-19, sobre a economia ainda não estão claros. Ao mesmo tempo, a redução do auxílio emergencial para trabalhadores informais - que passou de R$ 600 ao mês para R$ 300 ao mês desde setembro - e sua retirada a partir de janeiro de 2021 sugerem arrefecimento do consumo. O ano que vem poderá começar com uma retração do PIB, como já estimam alguns economistas.

Uma nova retração da economia no primeiro trimestre de 2021, após dois trimestres de avanço no segundo semestre deste ano, poderá ser classificada tanto como uma nova recessão quanto como uma continuidade da atual, disse Pichetti. O tamanho da recuperação neste segundo semestre e o espalhamento da retomada por todos os setores deverá ser levada em conta.

“Não sabemos se a recuperação do terceiro e do quarto trimestres leva pelo menos ao patamar do fim de 2019 nem qual será o recuo eventual no primeiro trimestre”, afirmou Pichetti, completando que não é fácil fazer qualquer afirmação sobre o fim da atual recessão sem saber qual será o desempenho da economia no primeiro trimestre de 2021. Esses dados deverão ser divulgados pelo IBGE no fim de abril ou início de maio. 

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Análise: PIB tem alta recorde, mas não é para comemorar

Crescimento de 7,7% na atividade econômica no terceiro trimestre veio abaixo do previsto e não recupera perdas acumuladas no ano

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 10h22

Pode soar estranho dizer que um crescimento de 7,7% na atividade econômica em um trimestre decepcionou. Mas estamos em 2020, ano de coisas muito, muito estranhas. Portanto, mesmo com uma alta recorde do PIB no terceiro trimestre, o primeiro sentimento é de decepção. Isso porque é um crescimento que não consegue sequer recuperar o que foi perdido apenas no segundo trimestre, quando houve uma queda de 9,6%. A previsão do mercado, de acordo com o Projeções Broadcast, era de uma alta de 8,8%, número que também já seria inferior ao do recuo no segundo trimestre. 

Esse tem sido um ano disfuncional, com dados que apontam caminhos completamente opostos, o que  torna as projeções para os rumos da economia um exercício de futurologia bastante complicado. Alguns analistas estão otimistas e projetam uma recuperação forte da economia no ano que vem, com alta de até 4,5%. Para outros, o cenário é de uma economia, na prática, estagnada em 2021.

O que complica todas essas previsões é o alto grau de incerteza em diversas frentes que podem ter um impacto significativo na atividade econômica. O primeiro, e talvez o maior deles, ainda é a covid-19. A pandemia vai arrefecer ou teremos um quadro de continuidade - ou, pior, de avanço da doença? Haverá uma vacina disponível para o Brasil? Quando? São perguntas ainda completamente sem respostas. Qual será o impacto, em 2021, dessa onda que derrubou a economia brasileira este ano?

Existe um efeito expectativa nos mercados financeiros para o qual também não há uma resposta clara. As reformas estruturais da economia vão avançar no Congresso? Haverá um movimento no sentido de controlar a trajetória do endividamento público? O teto de gastos será respeitado? Veremos alguma manobra contábil para a criação do programa pensado para substituir o Bolsa Família?

Na parte mais prática, está claro que não será um ano fácil. Com toda a ajuda fornecida pelo governo este ano a empresas e pessoas físicas, foi evitada uma catástrofe maior. No início da pandemia, chegou-se a prever uma queda do PIB de cerca de 10%. Agora, as projeções estão em uma queda em torno de 4,5%. Mas essa ajuda vai acabar, e alguns sinais de que as coisas podem piorar já aparecem.

O pior deles talvez seja o desemprego. Mês após mês o IBGE mostra um aumento no número de desocupados. São pessoas que, num primeiro momento, por causa da pandemia, desistiram de procurar uma vaga, mas que, com o passar do tempo e a necessidade batendo à porta, não tiveram alternativa. O auxílio emergencial, que também conseguiu manter muita gente em casa, foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 e deve acabar totalmente neste mês. Desemprego alto se reflete diretamente na queda do consumo, e as empresas já se mostram muito preocupadas com isso.

Por isso tudo, o aumento do PIB no terceiro trimestre, mesmo sendo recorde, não é um dado exatamente a ser comemorado. Pode parecer esquisito, mas, lembre-se, estamos em 2020.

*Editor de Economia

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'Recorde do PIB não significa o fim dos problemas', diz economista

Para Silvia Matos, do Ibre/FGV, o desempenho fraco da economia no fim de 2020 deve levar a uma estagnação no começo do ano que vem

Entrevista com

Silvia Matos, economista do Ibre/FGV

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 12h17

O processo gradual de reabertura da economia no terceiro trimestre e os efeitos no consumo do auxílio emergencial dado aos brasileiros mais afetados pela crise da covid-19 fizeram o Produto Interno Bruto (PIB) subir 7,7% no período, em comparação com o segundo trimestre.

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), no entanto, a alta recorde não significa o fim dos problemas causados pela pandemia e o desempenho fraco da economia no fim do ano deve levar a uma estagnação no começo do ano que vem. "A gente sabia que alguns setores estariam bem atrás, e muito estão bem distantes do patamar do terceiro trimestre do ano passado."   

A seguir, trechos da entrevista.

O recorde do PIB no terceiro trimestre vem de uma base fraca, apesar de ser recorde. É um desempenho bom ou ruim?

Olhando só para o resultado do terceiro trimestre, acho que em termos de composição, veio até um pouco melhor do que eu imaginava - mas isso não quer dizer que eu esteja otimista. A gente sabia que alguns setores estariam bem atrás, e muito estão bem distantes do patamar do terceiro trimestre do ano passado, mas caso eu não estivesse olhando para o desempenho fraco do quarto trimestre, os dados do terceiro trimestre até poderiam me empolgar. 

Ou seja, o presente e o futuro da economia ainda assustam? 

O recorde do PIB não significa o fim dos problemas. O quarto trimestre tem sido desafiador e devemos ter um começo do ano que vem ainda muito difícil. A gente está prevendo um crescimento de 1,3% no quarto trimestre deste ano e 4,7% de queda do PIB para este ano. E só no segundo semestre do ano que vem o País deve conseguir acelerar o crescimento. 

O desempenho do setor de serviços ainda preocupa?

Está difícil olhar com segurança para os dados de serviços, temos poucas informações. A visão que eu tinha era a de que esses segmentos, que pesam muito no PIB, deveriam frustrar as expectativas. Mas como a gente teve uma revisão um pouco menor do terceiro trimestre de 2019, o que veio agora pode até ser lido como uma notícia boa (o setor cresceu 6,3% em relação ao segundo trimestre). Os resultados mostram um pouco mais a normalização da economia, ainda que muito distante do ideal.

Chegou-se a falar de uma recuperação rápida, mas o quarto trimestre está sendo difícil. Houve otimismo demais?

É preciso ter cuidado ao se vender expectativas, a frustração é muito ruim, ainda mais em um contexto como este, não só de incertezas domésticas, mas mundiais também. O mercado sobe quando vem a vacina, mas tem um purgatório antes do paraíso. É preciso ter uma agenda mais clara para atravessar esse nevoeiro e os riscos hoje são mais negativos do que positivos, tem mais pressão por gastos por parte do governo, que podem ser ruins na dinâmica de inflação e juros. 

Mas a frustração é que havia um otimismo exagerado com o terceiro trimestre e que tudo passaria rapidamente. Pandemia é uma coisa demorada. A gente vai começar 2021 mal e podemos nos sair bem, caso o País se mantenha no trilho fiscal. Só que ainda não sabemos o que vai sair desse debate intenso entre as demandas da sociedade e a falta de espaço no Orçamento. Mesmo que o governo consiga uma redução com as despesas, não vai poder dar nenhum auxílio aos mais pobres similar ao que se teve em 2020.

As incertezas sobre a vacinação, por parte do governo, podem postergar a recuperação da economia no ano que vem? 

Sim, o que resolve o problema não é a vacina, mas a vacinação. A Europa vai mostrar logo a importância do planejamento - mesmo sendo países menores e de menor população. Eles devem se recuperar rapidamente no ano que vem e isso vai mostrar que quanto mais cedo houver a vacinação, melhor. Algumas vacinas são mais caras e difíceis de transportar do que outras, mas os governos que estão mais organizados devem conseguir fazer isso mais facilmente. É um desafio logístico muito grande e o Brasil não saber quando vai começar a vacinar é preocupante. Não sabemos se essa nova onda vai demorar a passar e precisamos ver se ela será controlada.

Isso pode aumentar a insegurança?

Algo que me preocupa é se o setor privado começa a vacinar antes do setor público. Isso daria uma sensação muito ruim. A gente não saber se vai conseguir fazer uma vacinação em massa também não é uma coisa fácil. Por isso, planejamento e liderança são tão importantes, mas falta um horizonte e uma segurança para a população, tanto do ponto de vista da saúde quanto da economia. Vamos pensar no fim do auxílio emergencial, previsto para dezembro: como o País vai enfrentar essa questão no ano que vem? A gente tem o Bolsa Família, um programa bem desenhado, outro de incentivo aos negócios, mas nada desenhado para a informalidade. É muito decepcionante: a pandemia expôs muitas desigualdades do mercado de trabalho, que sempre estiveram ali, mas não eram notadas.

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Produção e venda de alimentos, eletro e móveis impulsionam PIB da indústria e do comércio

Enquanto a atividade econômica avançou 7,7% no terceiro trimestre, a indústria de transformação cresceu 23,7% e o comércio, 15,9%

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 12h41

RIO - A produção e venda de alimentos, eletrodomésticos e artigos de mobiliário impulsionou o desempenho da indústria de transformação e do comércio no terceiro trimestre, segundo Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"Nesse trimestre houve um crescimento muito grande da indústria, que recuperou o patamar do primeiro trimestre, e do comércio também", disse. "Foram beneficiados pela indústria de alimentos e bebidas e pelos supermercados. Bens duráveis, eletrodomésticos e móveis influenciaram na produção e no comércio também", acrescentou.

Rebeca lembra que a indústria foi praticamente paralisada pela pandemia no segundo trimestre, enquanto o comércio não chegou a perder tanto. Como as famílias continuaram a consumir, o IBGE percebeu uma redução nos estoques, o que ajuda a explicar essa reação mais forte da indústria de transformação no terceiro trimestre.

"Realmente houve uma queima de estoques, já que a indústria não estava produzindo. Há efeito de várias coisas, há recomposição de estoques, demanda, há questão de comportamento do consumidor que a gente não sabe se vai ser provisória. Muito desse comportamento para frente vai depender de vacina", disse.

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 7,7% no terceiro trimestre ante o segundo trimestre deste ano. No mesmo período, sob a ótica da oferta, a indústria de transformação avançou 23,7%, e o comércio, 15,9%. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias subiu 7,6%.

Para Rebeca Palis, o pagamento do auxílio emergencial foi bastante importante para o consumo no terceiro trimestre, assim como o aumento nas concessões de crédito para pessoas físicas.

“Obviamente o destaque negativo é o distanciamento social, que continua, apesar de não haver mais restrição (de funcionamento de estabelecimentos)”, disse. “Por outro lado, houve prorrogação de programas de apoio do governo às empresas e às famílias. Além disso, tem um crescimento importante no crédito", disse.

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