André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Renda extra

Fabrizio Gueratto: 8 maneiras de ganhar até R$ 4 mil por mês

ANÁLISES: Parte do mercado vê decisão do BC como sinal de alta do juro no ano que vem

Fato de votos dos participantes do Copom não terem sido unânimes pode indicar para alta do juro nos próximos encontros

O Estado de S. Paulo

25 de novembro de 2015 | 21h19

SÃO PAULO - O mercado já esperava a manutenção da taxa Selic em 14,25% ao ano, mas viu com surpresa o fato de a decisão não ter sido unânime, já que dois participantes da reunião votaram pela alta de 0,5 ponto porcentual. O fato foi visto como um indicativo de que o Banco Central pode subir o juro em suas próximas reuniões. O próximo encontro só ocorrerá em 2016, nos dias 19 e 20 de janeiro. Outra avaliação é de que o BC está de mãos atadas à espera de uma política fiscal mais eficiente.

O fato eleva a probabilidade de um aumento da taxa básica de juros já no primeiro trimestre do ano que vem, sustenta o economista-chefe da Garde Asset Manegement, Daniel Weeks. "Mas se eu tivesse que apostar entre janeiro ou março, eu diria março, porque os outros diretores vão querer esperar para ver como a inflação vai se comportar até lá", afirmou.

"O BC achava que a manutenção da taxa em 14,25% por um período prolongado seria adequado, mas dois diretores já acham que não. E discordâncias como essa geralmente são uma prévia de que o Banco Central poderá mudar a sua postura", avaliou o economista. Com a piora das expectativas de inflação, Weeks espera que os diretores coloquem a recessão da economia em segundo plano e passem a focar no controle da alta dos preços. Dos oito diretores do comitê de política monetária, seis votaram a favor da manutenção da taxa e dois votaram pela alta. 

Ainda assim é cedo para apostar em um novo movimento de alta dos juros no País, avalia a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada Alessandra Ribeiro. "Aquele termo do BC vigilante pode se traduzir em alta dos juros, mas ainda é cedo para falar que isso ocorrerá na próxima reunião, em janeiro. Porém, as evidências ficam mais fortes", disse. Ainda assim, a economista mantém a projeção de estabilidade da Selic durante boa parte do ano de 2016, mas reconhece que os riscos para suas perspectivas aumentaram. "A trajetória de juros vai depender da ancoragem das expectativas inflacionárias para 2017", complementou. 

Política fiscal. A decisão do Banco Central de manter a taxa Selic em 14,25% e a falta de sinalização no comunicado mostram que a autoridade monetária está de mãos atadas no que se refere à tentativa de conter o avanço da inflação e, ao mesmo tempo, à espera da política fiscal para voltar a agir, avaliou José Júlio Senna, chefe de estudos monetários do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), ligado à Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"As expectativas para a inflação de 2016 já estão acima da margem de tolerância, sendo realimentadas pelo desequilíbrio fiscal e pela percepção dos agentes econômicos. Além disso, há os efeitos da depreciação do câmbio e as revisões para cima do que se espera para os preços administrados no restante do ano e em 2016. Ou seja, há um processo inflacionário, mas as ações do BC para contê-lo estão restritas", afirmou o economista.

A restrição percebida por Senna se deve a uma combinação de três fatores: o quadro já recessivo da economia, a instabilidade política e o medo de uma alta dos juros ter o efeito contrário, em razão do desequilíbrio fiscal (a chamada dominância fiscal). "Para subir os juros, é preciso ter o momento adequado. E as condições de hoje não comportam esta percepção", afirmou.

Diante dessa falta de ação do BC, Senna acredita que a tarefa de conter o avanço da inflação foi transferida para os poderes Executivo e Legislativo, que o fariam por meio da política fiscal. "Enquanto não houver avanços muito significativos na questão fiscal, o Banco Central continuará de mãos atadas, sob o risco de as expectativa de inflação continuarem se deteriorando", afirmou. 

O voto a favor da elevação de 0,5 ponto porcentual da Selic dado pelo diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), Tony Volpon, é um sinal claro de que ele considera totalmente infundados os temores sobre dominância fiscal. Dentro do BC, Volpon tem sido o participante do Copom que reagiu de forma mais veemente contra o que considera um grande erro de análise por parte de alguns especialistas do mercado financeiro - a possibilidade de que o Brasil esteja próximo ou já tenha ingressado numa situação de dominância fiscal.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
'Enquanto não houver avanços muito significativos na questão fiscal, o Banco Central continuará de mãos atadas, sob o risco de as expectativa de inflação continuarem se deteriorando' - chefe de estudos monetários do Ibre/FGV, José Júlio Senna
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Na visão do diretor, a dominância fiscal é uma situação binária - ou se está nela ou não se está - e, caso surgisse, haveria efeitos muito mais fortes na estrutura de juros, já que o mercado tenderia a rejeitar qualquer nível de remuneração dos títulos do governo. Volpon, em conversas recentes com participantes do mercado, reiterou que não vê nenhum sinal de uma situação daquele tipo. 

Assim, ao votar pela alta da Selic diante da piora das expectativas de inflação, o diretor reafirma que a política monetária continua a agir em situação de normalidade. Sidnei Corrêa Marques, diretor de Organização do Sistema Financeiro do BC, acompanhou Volpon no voto pela alta da Selic.

Redução. Ainda que dois membros do Comitê de Política Monetária do Banco Central tenham votado a favor da alta dos juros, o diretor de pesquisa econômica da GO Associados, Fabio Silveira, acredita que vai haver espaço para redução da Selic em 2016. "Com um certo alívio no câmbio e nos preços internacionais das commodities, além de uma recessão e o aumento do desemprego, a inflação vai começar a ceder no segundo trimestre de 2016, abrindo espaço para baixa dos juros no segundo semestre", disse.

Para o economista, caso esse entendimento prevaleça, a taxa Selic pode chegar ao nível de 13% no final do ano que vem. O economista criticou ainda a possibilidade de alta dos juros e disse que a insistência nessa política monetária pode sepultar a chance de crescimento da economia em 2017. "O método de alta dos juros que está sendo aplicado há muito tempo não está mostrando efeito", afirmou. (Colaboraram André Ítalo Rocha, Fernando Dantas e Mateus Fagundes)

Tudo o que sabemos sobre:
juroBanco CentralSelic

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.