AFP
Nova queda da Selic deixa o investidor com uma carteira com opções cada vez mais enxutas (e semelhantes) dentro do portfólio de renda fixa AFP

Saiba como ficam seus investimentos com a Selic a 5,50% ao ano

Com juro menor, renda fixa vira 'seguro'; para ganhar dinheiro, investidor terá de abrir mão de liquidez ou asumir riscos, com produtos como açoes, apontam especialistas

Renato Jakitas e Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 13h27
Atualizado 19 de setembro de 2019 | 18h10

A queda na taxa de juros Selic, que nesta quarta-feira, 18, registrou novo piso histórico, forçará o aplicador brasileiro, habituado à renda fixa, a fazer escolhas mais difíceis, se não quiser ver o patrimônio andando de lado. Para conseguir algum ganho, de acordo com especialistas, ele terá de abrir mão da liquidez (deixando o dinheiro aportado por mais tempo no mercado financeiro) ou assumir riscos extras para sua carteira, com produtos como ações e fundos imobiliários – sujeitos a oscilações e não isentos de prejuízos. 

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir a Selic, a taxa básica de juros, em 0,50 ponto porcentual, de 6% para 5,5% ao ano. Esse é o segundo corte da taxa no atual ciclo, após período de 16 meses de estabilidade. Com isso, a Selic está agora em novo piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996.

Para o superintendente de portfólios de investimento do Itaú Unibanco, Victor Vietti, o que agora sobra para o investidor pessoa física é uma carteira com opções cada vez mais enxutas (e similares) dentro da renda fixa, aquele investimento em que o dinheiro é aplicado com uma garantia mínima de retorno após um determinado tempo. “A renda fixa sempre terá mercado, mas a gente está recomendando aplicação em Bolsa desde o final de 2018”, diz.

Produtos como CDBs, fundos DI e poupança, na opinião da coordenadora do curso de economia do Insper, Juliana Inhasz, vão virar uma espécie de “seguro” para o patrimônio do investidor. “Esquece essa história de ganhar dinheiro com o CDB. Essas aplicações servem para repor as perdas com inflação, variações cambiais.”

Já Gilberto Abreu, diretor de investimentos do banco Santander, diz que o investidor deve aprender a olhar para o mercado financeiro evitando fazer comparações com o passado. “É um mundo novo, e ainda bem. Renda fixa paga pouco no mundo inteiro. O que acontecia no Brasil era uma incorreção do nosso mercado.”

Em simulação para o Estado, a economista Paula Sauer, professora da ESPM e planejadora financeira da Planejar, chama atenção para o bom resultado projetado para os produtos com vencimento de longo prazo (acima de cinco anos). Destaque para as Letras de Crédito (tanto imobiliárias, as LCIs, quanto de agronegócio, LCAs). “O que garante o bom resultado desses produtos é a isenção do Imposto de Renda. E, mesmo assim, o porcentual de CDI que serve de remuneração para as letras está atrelado ao prazo. Quanto maior o prazo sem mexer no dinheiro, melhor a remuneração”, observa.

Dados do buscador de investimentos Yubb apontam que, dos cerca de 1 mil LCAs e LCIs lançados recentemente, só 2% (171 produtos) apresentam retorno acima de 114% do CDI. “As letras poderiam ser classificadas como boas alternativas. Mas como elas são títulos lançados por empresas para financiar projetos de investimentos, e hoje eles estão escassos, está mais difícil encontrar esse papel no mercado”, conta Bernardo Pascowitch, do Yubb.

O novo cenário de juros baixos, que o investidor brasileiro não está acostumado, vai exigir uma diversificação maior da carteira de investimentos, na avaliação de Rodrigo Ayub, gerente geral de Captação e Investimentos do Banco do Brasil (BB). "O monoproduto na hora de investir vai ter de ser deixado de lado", afirma.

O gerente do BB lembra que, quando a taxa básica de juros estava em 14,5% ao ano, o investidor praticamente dobrava o capital aplicado a cada cinco anos. Agora, com a Selic recuando para 5,5% ao ano, serão necessários 13 anos para conseguir o mesmo feito. Isso significa que o brasileiro terá de diversificar e arriscar mais para obter uma rentabilidade maior.

Nesse aspecto, ele recomenda que o investidor procure saber exatemente os papéis que compõem os fundos de investimentos mais arriscados. Há fundos multimercados, por exemplo, com mais de dois terços de aplicações em Bolsa. Outros, diz o especialista, a Bolsa nem aparece. "É preciso entender a dinâmica de cada produto." No caso de fundos com maior volatilidade e risco, ele recomenda que o investidor tenha a disponibilidade de deixar o dinheiro aplicado por mais tempo para reduzir os impactos das fortes oscilações.

Caderneta

Com a nova queda na Selic, a poupança, principal destino do dinheiro do brasileiro, perdeu atração. O investimento, que até então rendia 4,20% ao ano, superando assim boa parte dos fundos de renda fixa, recuou para 3,85%, um pouco acima da inflação, estimada em 3,60% pelo último relatório do Banco Central. Os fundos DI, que administram uma carteira de renda fixa, também ficaram para trás. Alguns deles, em função da taxa de administração, chegam perder para a inflação por quase 1 ponto porcentual. Já no Tesouro Direto, os títulos de curto prazo atrelados à Selic ficam muito próximos à poupança. A recomendação aqui, mais uma vez, são títulos de médio e longo prazo, acima de 12 meses, atrelados à inflação. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

BC reduz juros básicos da economia para 5,5%, menor patamar da história

Com a fraqueza da economia e com índices controlados de inflação, corte de 0,50 ponto porcentual na Selic já era esperado pelo mercado

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 18h08

BRASÍLIA - O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir a Selic, a taxa básica de juros, em 0,50 ponto porcentual, de 6,00% para 5,50% ao ano. Esse é o segundo corte da taxa no atual ciclo, após período de 16 meses de estabilidade. Com isso, a Selic está agora em novo piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996.

Em meio à fraqueza da economia e aos índices controlados de inflação, a expectativa majoritária do mercado financeiro era de que a Selic passasse por um novo corte. De um total de 55 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, todas esperavam por um corte de 0,50 ponto, para 5,50% ao ano.

Ao anunciar sua decisão, o Copom - formado pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto, e pelos oito diretores da instituição - também atualizou suas projeções para a inflação. No cenário de mercado, que utiliza expectativas do mercado financeiro para o câmbio e os juros, o BC alterou sua projeção para o IPCA, o índice oficial de preços, em 2019 de 3,6% para 3,4%. No caso de 2020, a expectativa permanece em 3,6%. 

O centro da meta de inflação perseguida pelo BC este ano é de 4,25%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual (índice de 2,75% a 5,75%). Para 2020, a meta é de 4,00%, com margem de 1,5 ponto (de 2,5% a 5,5%).

Impactos

Apesar do corte de 0,50 ponto porcentual na Selic, o impacto imediato no custo do crédito ao consumidor final tende a ser pequeno, avalia a Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Cálculos feitos pela entidade indicam que o juro médio cobrado de pessoas físicas no comércio passará de 78,36% para 77,54% ao ano. No caso do cartão de crédito, a redução significará queda dos juros de 266,85% para 265,28% ao ano.

Em relação aos investimentos, de acordo com o economista Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Anefac, com a nova queda da Selic os fundos de renda fixa continuam perdendo competitividade em relação à caderneta de poupança. Isso ocorre principalmente nos casos de aplicações de valores mais baixos, já que as taxas de administrações dos fundos costumam ser maiores.

A Anefac lembra que, com a Selic a 5,50% ao ano, o rendimento da caderneta de poupança – equivalente a 70% da taxa básica – passa a ser de 3,85% ao ano. Neste cenário, um investimento em fundo de renda fixa passa a ser mais rentável que a poupança apenas se sua taxa de administração for inferior a 1% ao ano.   

Entenda

A cada 45 dias, o Copom se reúne para calibrar o patamar da taxa Selic buscando o cumprimento da meta de inflação, fixada todos os anos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Para 2019, a meta central de inflação é de 4,25%. O sistema prevê uma margem de tolerância, para mais ou para menos. Por isso, a meta será considerada formalmente cumprida pelo Banco Central caso fique entre 2,75% e 5,75%. Para 2020, a o objetivo central é uma inflação de 4% – com oscilação autorizada entre 2,5% e 5,5%.

Quando a inflação está alta ou indica que vai ficar acima da meta, o Copom eleva a Selic. Dessa forma, os juros cobrados pelos bancos tendem a subir, encarecendo o crédito (financiamentos, empréstimos, cartão de crédito), freando o consumo e reduzindo o dinheiro em circulação na economia. Com isso, a inflação cai.

Se as estimativas para a inflação estão em linha com a meta, como ocorre no cenário atual, é possível reduzir os juros. Isso permite maior endividamento das famílias e empresas e estimula a produção e o consumo. Essa decisão também precisa ser ajustada de forma a evitar o descontrole dos preços.

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Para quem é conservador, pode ser um bom momento para comprar imóvel'

Após corte da taxa de juros de 0,5 ponto que trouxe a Selic para a mínima histórica de 5,5% ao ano, o administrador de investimentos Fabio Colombo diz que, como os preços dos imóveis ainda estão defasados, investidor pode ganhar com a renda do aluguel e ainda contar com a valorização da propriedade

Entrevista com

Fabio Colombo, administrador de investimentos

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 18h55

Com o corte de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros feito pelo Banco Central, que trouxe a taxa Selic para a mínima histórica de 5,5% ao ano, o investidor conservador que prefere aplicar o dinheiro em renda fixa deve obter rendimentos que praticamente empatam com a inflação, avalia o administrador de investimentos Fabio Colombo.

“Não tem aplicação de renda fixa que seja melhor, todas são parecidas”, afirma. Ele acredita que, para os investidores que não querem correr risco, o momento é favorável para compra de imóveis destinados à locação, uma vez que os preços dos ativos ainda estão defasados por conta crise. Leia a seguir trechos da entrevista.

Como a queda na taxa básica de juros afeta as aplicações dos investidores?

As reduções que o Banco Central vem fazendo na taxa de juros significa que o ganho real, que na realidade é o que o investidor recebe depois de retirar a taxa de administração e o Imposto de Renda e a inflação, diminuiu. Quando há essa redução da Selic, isso afeta todas as aplicações de renda fixa (poupança, CDB, Fundos DI, Fundos de Renda Fixa, LCI, LCAs, papéis do Tesouro Direto). Há pequenas variações entre os produtos, mas todos sofrem.

Essas reduções ocorrem só no Brasil?

Hoje no mundo inteiro os bancos centrais estão usando a política de juro real bem baixo. Na Europa e nos EUA chegam a ser negativos os rendimentos. O Brasil ainda paga algum juro real positivo, bem diferente do passado, que era muito alto. A não ser que tenha uma alteração muito grande na economia, o investidor vai ter de conviver com ganhos muito baixos.

Qual é o efeito dessa redução dos juros?

 Praticamente você aplica na renda fixa para manter o poder aquisitivo do dinheiro, isto é, empatar com a inflação. Com essa redução de 0,5 ponto porcentual, um fundo DI vai render em média 0,38% a 0,48% bruto, dependendo do número de  dias úteis. Se descontar o Imposto de Renda, o ganho real pode ficar praticamente zero ou vai ganhar 1,5% ao ano. No passado, o  brasileiro ganhava muito mais. É um cenário muito difícil para o investidor em renda fixa,  que é conservador e não quer correr riscos. Ele praticamente não vai ter ganho real.

Então renda fixa não é uma boa aplicação neste momento?

Não, mas isso tem a ver muito com o perfil das pessoas. Há pessoas que não aceitam fazer aplicações de risco, como Bolsa, fundos imobiliários. As pessoas acostumadas com renda fixa vão conviver com esse cenário. Podem ganhar um pouco mais ou um pouco menos. Mas elas têm de tomar cuidado com o risco de crédito.

O que é o risco de crédito?

Por exemplo, há bancos de primeira linha que pagam juros menores e  bancos pequenos que pagam um pouco mais. O pequeno paga mais porque existe um risco de crédito envolvido. Isso deve ser levado em conta na hora de aplicar dinheiro num banco menor. Por isso o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) garante aplicações de até R$ 250 mil por CPF (Cadastro de Pessoa Física). Sempre é importante o investidor estar atento para aplicações deste tipo.

Qual outra recomendação o senhor daria para quem quer aplicar em renda fixa?

Procurar produtos com baixa taxa de administração. Se optar por fundos DI ou de renda fixa, procure taxas de administração bem baixas, menor do que 1% ao ano. A taxa de administração está diretamente ligada ao volume aplicado. Por isso, a pessoa tem de ir ao banco, pesquisar, ver o volume que tem para aplicar. Se tiver uma disponibilidade pequena, abaixo de R$ 20 mil, é melhor ficar na poupança, porque não tem taxa de administração. Outra recomendação é evitar mexer muito no dinheiro para escapar da incidência do imposto mais elevado. Se deixar o dinheiro investido em renda fixa por dois anos, por exemplo, o Imposto de Renda é de 15%. Num prazo menor do que esse o imposto é de 22,5%.

Onde é possível ganhar dinheiro com esse juro baixo?

No mercado financeiro, tem a Bolsa, que ainda está com preços interessantes, porque caiu muito com a crise. Mas tem gente que não consegue conviver com o sobe e desce da Bolsa. As aplicações em Bolsa são destinadas a recursos nos quais o aplicador não precisa resgatar  no curto prazo. Também existe um produto novo, o fundo imobiliário. Mas ele também oscila, porque é constituído de cotas de fundos negociados em Bolsa. Esses fundos têm vários lastros, que podem ser  imóveis ou papéis ligados ao mercado imobiliário. Por isso, é preciso olhar bem o que está dentro desses fundos. Eles oscilam bastante e existem poucos fundos no mercado. Tem que tomar cuidado e entender bem qual é o lastro do fundo.

Hoje é um bom momento para investir em imóveis?

Sim, talvez seja um bom momento. O mercado imobiliário ainda está com preços defasados por causa da crise. Para os conservadores, comprar imóvel para alugar acho que não é uma má alternativa, em função de os juros terem caído tanto. Se a pessoa comprar um imóvel e conseguir alugar por 0,30% ou 0,50% ao mês, ela poderá obter essa renda. Além disso, se o mercado melhorar, o investidor embolsará a valorização do imóvel. Essa dica é para quem tem perfil conservador. Mas o que tem maior potencial de ganho para o investidor hoje é a Bolsa de Valores. Mas essa aplicação é recomendada para  o investidor que tem apetite e não vai ficar nervoso com as oscilações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Efeito do corte de juros na recuperação do País não é consenso entre economistas

Parte dos especialistas ouvidos pelo 'Estado' percebe sinais de retomada na concessão de crédito, enquanto alguns analistas dizem que desemprego alto e incertezas inibem efeito da Selic

Douglas Gavras , O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 18h09

Se existe quase um consenso entre os economistas ao aprovarem a continuidade do corte dos juros básicos, os efeitos práticos da queda da Selic para 5,5% ao ano para a recuperação da economia ainda não são tão claros. Enquanto parte deles vê sinais de aumento de demanda por crédito, outros avaliam que o desemprego elevado e a demanda fraca ainda inibem investimentos e gastos das famílias. 

O economista Sergio Werlang, da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV), é um dos que defendem que os juros básicos no patamar mais baixo da série histórica já causam efeitos positivos visíveis, apesar de a recuperação após a recessão seguir a passos lentos. 

“O corte de juros é o canal clássico de política monetária. Para a continuidade da retomada da economia, é essencial que a taxa de juros de curto prazo siga seu rumo esperado, isto é, que o Banco Central continue cortando pelo menos mais duas vezes a Selic até que ela chegue a, pelo menos, 5% ao ano.”

Everton Pinheiro de Souza Gonçalves, superintendente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), ressalta que os efeitos da taxa de juros mais baixa podem ser sentidos nas concessões de crédito para pessoa física com recursos livres (que inclui desde empréstimos convencionais a créditos consignados), que cresceram 5,1% em julho, segundo o Banco Central.

“São alguns sinais de que começa a melhorar e que podem continuar, mantidas as condições atuais. A liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) também pode dar algum sinal positivo na demanda”, completa.

Os efeitos dos cortes de juros, no entanto, se perdem em uma economia que ainda de lado porque nem consumidor e nem empresários se sentem seguros para investir. Se para um pesa o endividamento das famílias e o desemprego em 11,8%, para o outro, a demanda reprimida segura investimentos. 

O economista José Luís Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB) avalia que não há sinais de recuperação, mesmo com juros em queda. “Basta olhar para as filas de desempregados que se formam nas grandes cidades. A inflação deve fechar, pelo terceiro ano consecutivo abaixo da meta (em 4,25%, para 2019). Sinal de que a política monetária está conservadora demais. Os juros básicos poderiam estar em 3,5% ao ano e a economia teria mais espaço para reagir.” 

O ex-diretor do Banco Central e chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, José Júlio Senna, lembra que a sabedoria econômica ensina que é possível levar um cavalo até um riacho, mas não se pode obrigá-lo a beber água.

“A economia brasileira está enfrentando o mesmo dilema das economias desenvolvidas, em que as políticas de corte de juros não se refletem em aumento da tomada de crédito. As pessoas acumulam dívidas e incertezas e evitam tomar crédito.”

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, avalia que a queda de juros é positiva, embora os efeitos mais robustos na economia só devem começar a ser observados só no ano que vem. “Além disso, é preciso que se continue a pensar em políticas de queda do spread bancário (a diferença entre os custos para o banco captar recursos e o que ele cobra do consumidor).”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Mais um recuo nos juros

A novidade não é a queda histórica da taxa Selic no Brasil, mas a queda da inflação para níveis inéditos no País

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 20h19

O mergulho continua. E pode prosseguir, conforme se depreende do comunicado do Copom emitido logo após a reunião desta quarta-feira, com importantes consequências para a economia e para a vida financeira das famílias. Veja o gráfico abaixo.

O Banco Central iniciou o atual ciclo de baixa dos juros básicos (Selic) em 31 de julho com um corte de meio ponto porcentual, para 6,0%, depois que se mantiveram estacionados nos 6,5% ao ano durante 16 meses. No final de julho, a expectativa era de que a inflação terminasse o ano ao redor dos 4,0% e que a Selic caísse para 5,5% ao ano, como mostrou a pesquisa Focus, do Banco Central. De lá para cá, nesses quesitos, as coisas mudaram para melhor. A inflação esperada para este ano passou a ser inferior a 3,5% e o mercado passou a apostar numa Selic de 5,0% ao ano.

O Banco Central tem de operar sua política monetária (política de juros) como o condutor de um automóvel. Tem de dar sinal de seta quando pretende entrar à direita ou à esquerda ou, então, sinalizar com o braço estendido quando tem de reduzir a velocidade. Se não houver nenhuma surpresa ruim, o Banco Central passou o recado de que pretende continuar a usar a tesoura, talvez mais moderadamente. A pergunta que o Banco Central ainda não está em condições de responder é até onde vai este ciclo de baixa. Uma das razões para o questionamento é a de que nunca os juros estiveram tão baixos no Brasil e não se sabe ainda qual é o volume de moeda que deve ser lançado na economia que não aumente a inflação nesse novo ambiente (juros neutros). 

A novidade principal não é a queda histórica dos juros no Brasil, mas a queda da inflação para níveis há muito não vistos por estas paragens. Uma das explicações recorrentes é a de que a recessão, o desemprego e a perda de renda estejam derrubando a demanda por mercadorias e serviços e, assim, achatando os preços. Essa é apenas meia verdade. Um dos fatores que mais vêm derrubando a inflação é o crescente emprego da automação, de tecnologia da informação e de tantos aplicativos acessíveis a qualquer um, reduzindo os custos da economia. É certo que o baixo poder aquisitivo da população e seu alto endividamento ajudam a conter a alta, mas também é verdade que a derrubada dos preços reduz a corrosão da renda. Também ajuda a baixíssima inflação das economias avançadas.

Entre as consequências de juros tão baixos para os padrões brasileiros está a queda ainda maior do desempenho das aplicações de renda fixa, especialmente dos fundos que cobram “taxas de administração” altas demais. Quando a inflação e os juros eram altos, até se justificava uma “taxa de administração” de 1,5% ao ano sobre o patrimônio. A esses níveis, trata-se de um confisco da renda do aplicador, especialmente quando se leva em conta que esses fundos não são complicados para gerenciar porque concentram suas posições em títulos do Tesouro que quase não exigem movimentação.

O baixo retorno das aplicações de renda fixa deve aumentar a demanda por aplicações em renda variável (sobretudo ações), especialmente se houver razoável recuperação da atividade econômica.

CONFIRA

» O Fed surpreende

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) reduziu em mais 0,25 ponto porcentual ao ano os juros básicos. Na entrevista concedida após a decisão, o presidente do Fed, Jerome Powell, explicou que não espera recessão, mas mostrou preocupação com a desaceleração da economia mundial. 

» Megainjeção de dólares

No entanto, o movimento mais surpreendente do Fed foi a decisão tomada no dia anterior de recomprar US$ 128 bilhões em títulos no mercado. Essa injeção de recursos no overnight (“mercado repo”), atendeu à repentina falta de recursos que havia puxado os juros de curto prazo para cerca de 5% ao ano.

» A vez da política fiscal

Não ficaram claros nem essa repentina necessidade de recursos nem por que o Fed não a previra. Powell disse apenas que, se for preciso, continuará a agir, mas que espera mais da política fiscal, ou seja, de aumento das despesas públicas para manter a economia flutuando.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.