Analistas aprovam cautela do BC

Dados recentes da economia indicam que a Selic poderá continuar em 11,25% por mais tempo que o previsto

Ricardo Leopoldo, Vinicius Pinheiro, Patricia Lara e Lucinda Pinto, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2007 | 00h00

O ex-diretor do Banco Central (BC) Alexandre Schwartsman, hoje economista-chefe para a América Latina do ABN Amro, avalia que o avanço da produção industrial em outubro indica que a demanda está aquecida, o que eleva o risco de inflação no médio prazo. O aquecimento da atividade econômica reforça a expectativa de Schwartsman de que o BC não deverá reduzir a Selic no próximo ano."Aumentam até as chances de o BC aumentar os juros em 2008, pois há estímulos da política monetária que ainda vão ser registrados nos próximos trimestres e a expansão do consumo não deve diminuir de velocidade", comentou. Com base em dados do IBGE, Schwartsman destaca que a expansão da produção industrial é tão vigorosa que se torna praticamente inevitável uma ação mais cautelosa do BC para conter o consumo, que, no mínimo, deve ser manter os juros em 11,25% até o fim de 2008.Schwartsman aponta outros fatores que não devem arrefecer o consumo no médio prazo. Um deles é a tendência de expansão do crédito, inclusive para a construção civil, o que fez com que a produção de insumos para o segmento subisse 10,2% em outubro ante o mesmo mês do ano passado.Ele também ressalta que, segundo o IBGE, a renda dos brasileiros subiu 8,4% de janeiro até outubro deste ano na comparação com o mesmo período de 2006. "Há um fator adicional que é a tendência de crescimento dos gastos do governo, que deve continuar no próximo ano e contribuir para o aquecimento da demanda com a expansão do consumo."Na avaliação de Schwartsman, o câmbio é outro fator que não deve conter a inflação de forma expressiva em 2008, ao contrário do que ocorreu neste ano e em 2006. Para o ABN, o dólar deve fechar em R$ 1,80 neste ano e subir para R$ 2,00 em 2008. "Diante desses fatores, não há espaço para nenhum estímulo por parte da política monetária em 2008, pois a demanda apresenta um ritmo de expansão muito intenso." Para o economista-chefe do HSBC, Alexandre Bassoli, os dados da inflação e da produção industrial reforçam a visão de que a economia brasileira opera em níveis muito próximos da plena capacidade. O banco manteve a projeção de que a taxa básica de juros (Selic) permanecerá nos atuais 11,25% durante todo o ano de 2008.Segundo Bassoli, os números põem em dúvida a sustentabilidade do atual ritmo de crescimento do País. O HSBC estima a expansão do PIB em 5,1% neste ano e 4,5% em 2008. O economista avaliou que existe uma tendência de aceleração da inflação desde o início do segundo trimestre deste ano, explicada apenas em parte pelas altas nos preços dos alimentos. "Uma análise mais aprofundada dos núcleos dos índices revela uma disseminação das pressões inflacionárias."O economista sênior do ABN Amro Asset Management DTVM S.A., Fernando Siqueira dos Santos, afirmou que os dados econômicos recentes têm surpreendido do lado negativo, no que se refere à perspectiva de redução do juro nos próximos meses. " O cenário é desfavorável para novos cortes de juros", afirmou. "Nós acreditávamos na pausa em outubro e que o BC não retomaria os cortes no curto prazo. O que os dados têm mostrado nos últimos dias é que a possibilidade de a pausa se estender por um período ainda maior está crescendo", disse Siqueira. O ABN Asset ainda projeta um cenário de quatro cortes da taxa Selic em 2008, a partir do segundo semestre. "Por enquanto, ainda mantemos esse cenário, mas o risco é de que esses cortes venham em um período posterior", disse Siqueira. "O dado (da produção) foi um pouco pontual, mas a tendência de alta, claramente, existe. O dado de outubro, no entanto, mostrou uma tendência de crescimento da produção um pouco maior que a esperada. Ainda é muito cedo para revisarmos a tendência", disse Siqueira. "Há um risco de termos de revisar para cima nossas projeções de crescimento e de taxa de juros. Estamos avaliando a necessidade de reduzir o número de cortes."

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