Analistas criticam IBGE por mudança no cálculo do IPCA sem aviso prévio

Há suspeitas de que agentes que perceberam antes a nota técnica foram beneficiados; inflação prevista para 2012 é revisada para baixo

DANIELA AMORIM / RIO , O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2011 | 03h05

A reação imediata do mercado de juros futuros - quando algumas corretoras tomaram conhecimento, na segunda-feira, ainda com a Bolsa de Valores em operação, das mudanças na metodologia de cálculo do Índice Nacional ao Consumidor Amplo (IPCA) - provocou ontem uma saraivada de críticas de analistas financeiros ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a mudança do peso de alguns itens sem aviso prévio, o que pode ter beneficiado agentes que perceberam antes a nota técnica, divulgada no site. Economistas de instituições financeiras revisaram para baixo a inflação prevista para 2012 em cerca de 0,3 ponto porcentual.

"Na verdade, quando saiu isso (mudança de pesos), o IBGE não anunciou. Deixou bem escondidinho no site. Então, aquele que foi sagaz conseguiu pegar primeiro e fazer a sua movimentação no mercado de juros", lamentou a economista-chefe da corretora Icap Brasil, Inês Filipa.

A presidente do instituto, Wasmália Bivar, negou falha, alegando que a divulgação foi feita nos mesmos moldes que a de dezembro de 2005, quando também houve mudança no índice. "Não houve falha de jeito nenhum. Nem falha técnica, nem institucional, nem falha nos nossos princípios. O que está acontecendo é que começou um monte de especulação com o que vai acontecer com o índice de preços, mas não é papel do IBGE discutir isso", disse Wasmália.

A Icap reviu sua projeção para o IPCA de 5,43% para 5,19% em 2012, um corte de 0,24 ponto porcentual. "É bem significativo se você refaz a conta e acha uma revisão de 0,5 ponto ou 0,35 ponto. É bastante importante para a inflação no ano que vem", ressaltou Inês.

Na avaliação do economista-chefe da Concórdia Corretora, Flávio Combat, a reação imediata do mercado futuro à divulgação dos novos pesos do IPCA é comum, mas a curva de juros tende a ser corrigida após a divulgação hoje da decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central sobre a nova taxa básica de juros, a Selic. No entanto, o economista acha que o IBGE deveria ter mais cuidado com a publicação de dados. "É uma informação que tem de ser tratada com mais rigor", disse Combat.

A Concórdia reduziu em 0,3 ponto porcentual a sua projeção para o IPCA em 2012, que passou de 5,5% para 5,2% após a divulgação dos novos pesos na inflação.

A economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria Integrada, acredita que profissionais que possam estar atentos a falhas na divulgação de indicadores do IBGE podem se beneficiar dessas informações. "De fato, a divulgação de ontem (segunda-feira) foi muito estranha, sem ser avisada, com pouca divulgação, não foi uma coisa que realmente o mercado estava esperando."

Já para o ex-presidente do Banco Central, Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), há um exagero em torno da importância da mudança na metodologia do IPCA.

"O impacto dessa mudança é tão pequeno e transitório, que não acho que seja suficiente para gerar ganhos, benefícios, e mexer tanto com o mercado financeiro. O mercado financeiro tem que sair um pouco dessa histeria do curto prazo e começar a olhar mais os fundamentos macroeconômicos", opinou Langoni.

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