Analistas desafiam diretor do BC a mostrar como inflação cairá a 4,5% em 2016

Luiz Awazu, novo chefe da diretoria de Política Econômica, fez a primeira reunião com economistas e analistas; mercado ainda está cético em relação ao recuo da inflação ao centro da meta

Maria Regina Silva e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2015 | 16h36

Economistas e analistas do mercado financeiro do Rio de Janeiro desafiaram nesta quinta-feira, 19, o novo diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Luiz Awazu Pereira da Silva, a explicar de forma clara e cabal como a autoridade monetária conseguirá fazer a inflação convergir para o centro da meta, ou 4,5%, em 2016.

Esta foi a primeira reunião de Awazu com analistas do mercado financeiro como diretor de Política Econômica, cargo que passou a ocupar no último dia 5 de fevereiro em substituição ao antecessor Carlos Hamilton Araújo, que deixou a instituição. 

Estes encontros acontecem a cada três meses e servem para que a autoridade monetária colha as impressões dos analistas em relação à atividade econômica, inflação e cenário internacional. As informações são usadas para auxiliar o BC na redação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI).

Os analistas foram para cima de Awazu alegando que não acreditam na possibilidade de a autoridade monetária levar a inflação para 4,5% no próximo ano. Eles disseram que, se de fato o BC acredita que pode fazer com que a inflação convirja para este nível, a instituição precisa demonstrar de forma convincente como isso será feito.

Segundo um economista que participou do encontro, desta vez não houve, entre os analistas, fortes discussões, numa sinalização clara de que todos estão convictos que o ano de 2015 será bastante difícil para a economia brasileira. 

"Está todo mundo extremamente pessimista com a atividade e preocupado com a inflação. Inclusive muitos não acreditam que a meta de 4,50% será alcançada em 2016", contou, acrescentando que a mediana das projeções deste encontro para a inflação em 2015 ficou na faixa de 7,30%, na comparação com 6,56% na reunião passada, ocorrida em novembro. Para 2016, disse a mesma fonte, a previsão passou de 5,61% para 5,57%.

"Pediram mais transparência na comunicação, a fim de saberem o quão a meta é crível de ser atingida, já que há vários choques de oferta", disse. "Querem que o BC aprofunde mais o assunto no próximo RTI", reforçou outro participante do encontro.

Em relação à atividade econômica, a percepção entre os analistas é de que o Produto Interno Bruto (PIB) fechará 2014 no campo negativo. A estimativa passou de um crescimento de 0,8% para recuo de 0,20%. 

PIB. Awazu ouviu ainda dos analistas que não se pode descartar o risco de uma queda mais intensa do PIB. Para eles, o declínio será acima de 1%, podendo encostar em 1,5% se for efetivado o racionamento de energia e também por causa de recuo nos investimentos, em razão da Operação Lava Jato. 

"Sem dúvida, tudo isso deve pesar na atividade. Ainda há receio em relação ao impacto da atual situação da Petrobrás sobre o crédito no Brasil. Ninguém sabe ao certo o impacto dessas variáveis sobre o PIB. É muito difícil de prever. Por isso, as estimativas ainda estão com quedas menos significativas", afirmou.

Segundo a fonte, os economistas também não demonstraram muita confiança no cumprimento da meta de superávit primário deste ano, de 1,2% do PIB, a despeito de concordarem que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é capacitado para o cargo e que ele está no caminho certo para ajustar as contas brasileiras. 

Levy, para os agentes, demonstra que a meta é factível. No entanto, os economistas disseram ao BC que têm dúvidas quanto a realização do superávit primário proposto para este ano. "A conjuntura não ajuda. Temos uma atividade que deve ceder. Além disso, o governo pode ter dificuldades no Congresso", analisou. 

"O Levy foi elogiado, mas não existe uma crença no primário. O ponto de partida é muito difícil", corroborou outro economista. As expectativas dos agentes para o superávit primário, como disseram as fontes, estão na faixa de 1% do PIB para 2015. 

Nesta sexta-feira, Awazu participará de três reuniões com analistas do mercado financeiro na capital paulista. Estes encontros estavam inicialmente previstos para os últimos dias 11, em São Paulo, e 12, no Rio. Foram transferidos para esta quinta-feira e amanhã porque na semana passada o novo diretor de Política Econômica já tinha compromissos agendados na Turquia.

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