Analistas divergem sobre a projeção de alta do PIB no ano

Os economistas concordam que o 3º trimestre será fraco, mas não apostam no mesmo nível de crescimento da economia em 2013

Beatriz Bulla, Tomas Okuda, Ricardo Leopoldo e Gustavo Porto, da Agência Estado,

30 de agosto de 2013 | 10h09

(Texto atualizado às 13h07)

SÃO PAULO - O crescimento de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre do ano não é suficiente para indicar uma recuperação robusta, avalia o economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Vinícius Botelho. "Na verdade, são muito poucos os indicadores favoráveis para o terceiro trimestre. O resultado de hoje não revisa as nossas expectativas para frente positivamente, é pontual", afirmou. A instituição projeta crescimento de 2% do PIB no fechamento do ano.

O Ibre trabalhava com alta de 0,6% no segundo trimestre na margem, mas a alta foi de 1,5% perante o trimestre do ano. Para Botelho, a surpresa veio do setor de serviços, que cresceu 0,8% na mesma base de comparação, ante previsão de 0,4% da instituição. "É difícil fazer projeções para esse setor, temos poucos indicadores", afirmou, lembrando que o peso do setor de serviços no PIB é de "quase 60%".

Segundo o economista, há indicadores que apontam para uma produção industrial de julho negativa e dados setoriais ruins fazem com que o Ibre tenha "dificuldade de encarar o resultado do segundo trimestre como uma recuperação robusta".

A alta de Formação Bruta de Capital Fixo, de 3,6% na margem e 6% no semestre, é consequência de incentivos governamentais como o Programa para Sustentação do Investimento (PSI), de acordo com Botelho. "Alguns incentivos governamentais estão favorecendo esse resultado e a indústria de caminhões está devolvendo o resultado muito baixo do ano passado", observou.

Número forte. Na avaliação do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, o crescimento de 1,5% equivale a uma taxa anualizada de 6,1% e "é um número forte". "A surpresa foi o dado da exportação", disse. "Depois de dois trimestres contribuindo negativamente, foi o primeiro que contribuiu positivamente, então isso é uma boa notícia", acrescentou.

Souza Leal também ressaltou o resultado dos investimentos, ainda que o crescimento de 3,6% da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) tenha sido menor do que o registrado no primeiro trimestre (4,6%, também na margem). "No lado da oferta, a surpresa veio da agricultura, mais forte do que estávamos esperando", afirmou ele, referindo-se à alta de 3,9% do PIB da agropecuária.

"O terceiro trimestre será fraco", ponderou Souza Leal, lembrando que dados preliminares mostram queda da produção industrial em julho e recuperação em agosto. "A sensação que deu, pelos indicadores de confiança, é de que a economia deu uma travada em julho e isso vai se refletir em agosto em setembro. No entanto, eu não acredito em PIB negativo, mas próximo de zero (no terceiro trimestre)", disse.

Segundo o economista do ABC, "pelo carrego importante, o resultado (de hoje) praticamente descarta um PIB abaixo de 2% neste ano". "Teria de ter recessão no segundo semestre para isso ocorrer. Se o PIB crescer zero no terceiro trimestre e zero no quatro, 2,5% já estão garantidos", destacou. "Para o PIB fechado de 2013, eu esperava 2,3% e é provável que suba isso".

No que diz respeito à política monetária, Souza Leal afirmou que o dado "bom" traz "tranquilidade". "Para um BC que está em processo de elevação de juros, um PIB bom é melhor que um ruim. Mas não muda a trajetória de política monetária, porque a dúvida é a consequência da parada de julho para a economia e essa resposta esse PIB não dá". Ele espera um aumento de 0,5 ponto porcentual da Selic em outubro e mais 0,25 em novembro.

''Efeito líquido positivo''. O economista-sênior do Besi Brasil, Flávio Serrano, diz que o setor externo puxou para cima o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre de 2013. Ele também ressaltou os crescimentos de 6,9% das exportações e de 0,6% das importações, na margem, quem diz, teriam gerado um "efeito líquido positivo". "O efeito líquido soma de 0,5 a 0,6 ponto porcentual do total de 1,5%", disse. Serrano destacou ainda os desempenhos da agropecuária e da indústria. "Foram os dois setores beneficiados por essa maior demanda global".

Serrano chamou a atenção para uma mudança na composição relativa do PIB. "Fazia tempo que a gente vinha observando a demanda doméstica crescendo acima do PIB e o setor externo dando contribuição negativa, com importações crescendo mais do que exportações", disse. "Há de fato alguma desaceleração no consumo", acrescentou.

Com a perda de força da demanda doméstica, afirmou, o entendimento é o de que está diminuindo a pressão inflacionária. "O que se vê é ampliação da oferta agregada e redução da demanda agregada. O PIB cresceu acima da demanda agregada e fazia tempo que isso não acontecia", destacou. Na avaliação dele, o resultado anunciado nesta sexta-feira começa a "afugentar as chances de um PIB abaixo de 2% em 2013".

Agropecuária. O presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva, considerou "dentro do esperado" o resultado do PIB da Agropecuária, que cresceu 3,9% no segundo trimestre, em relação ao primeiro. "O segundo trimestre coincide com o período de comercialização da safra agrícola 2012/13, que foi recorde", informou.

Ele acrescentou que "o segundo trimestre foi uma grande 'janela' de oportunidade para o agronegócio nacional, pois combinou a comercialização de uma safra recorde de grãos e os estoques muito baixos nos Estados Unidos, grande exportador, que vinha de uma frustrante safra por causa da estiagem", explicou Ramalho da Silva. 

Inflação. Um pouco mais pessimista, o ex-presidente do Banco Central Pérsio Arida afirmou que hoje o "Brasil não pode crescer muito mais que 2% ao ano sem pressionar a inflação." Segundo ele, um conjunto de elementos não permite que o País consiga ter um PIB potencial maior.

A alta carga tributária e a política fiscal expansionista, que não dão espaço para o aumento dos investimentos públicos e privados, são dois fatores essenciais. Além disso, Arida destacou que o intenso ritmo de concessão de crédito público, com base em taxas de juros subsidiadas, também determina essa realidade do Brasil.

Além disso, a política fiscal expansionista colabora muito para que o BC tenha que elevar os juros para conter a demanda agregada, sobretudo porque os investimentos e a produtividade são baixos. "Desta forma, os juros ficam mais altos do que deveriam", afirmou.

Para o ex-presidente do BC, o fechamento comercial do País e a desvalorização do câmbio também adicionam elementos para que o Copom tenha que manter o aperto monetário por um período "razoável."

Ele afirmou que a "economia brasileira está sobreaquecida, aquecida demais em relação ao seu potencial." Vários fatores determinam esse fenômeno, na sua avaliação, entre eles a pequena oferta de trabalhadores no mercado, o que leva a uma situação "maior que o pleno emprego."

Nesse contexto, ele citou que a taxa de desemprego está baixa para a realidade do País, que deveria ser entre 6,5% e 7%. "Essa seria a nossa Nairu", comentou, referindo-se à sigla em inglês que significa taxa de desemprego que não acelera a inflação.

Em linha parecida, a professora da PUC-RJ e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, Monica de Bolle, avaliou que a falta de credibilidade da política econômica impede o governo de voltar a adotar um regime de metas cadentes para a inflação. Pelas expectativas geradas, esse regime, segundo ela, poderia influenciar na redução real do indicador de preços.

Segundo ela, há também "um descaso do governo em relação ao impacto das expectativas" sobre a economia brasileira ante o crescimento do País. "O governo avalia que as expectativas não influenciam, mas esse diagnóstico é equivocado", disse.

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