Analistas elogiam, mas duvidam de corte no BNDES

Para economista, banco se tornou 'Tesouro dependente' e, por isso, é pouco crível a meta de reduzir aportes

FRANCISCO DE ASSIS, GUSTAVO PORTO, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2013 | 02h08

O anúncio do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o Tesouro Nacional deve reduzir as capitalizações ao BNDES até o ponto de zerar os aportes foi bem recebido por especialistas. Mas esses economistas dizem que se trata de uma promessa pouco crível, uma vez que o presidente do banco, Luciano Coutinho, deixou claro que a instituição vai precisar de mais recursos para fechar suas contas.

O analista de contas públicas da Tendências Consultoria Integrada, Felipe Salto, lembra que o ministro Mantega não disse em que prazo acontecerá o fim dos aportes financeiros do Tesouro no BNDES. Ele entende que, de alguma forma, o governo pode estar dando uma resposta às agências de classificação de risco, que vêm avaliando negativamente a economia brasileira, especialmente por causa da política fiscal expansionista.

Salto disse que o BNDES se tornou "Tesouro dependente" e, por isso, "a promessa de que o governo vai parar de emitir dívida em prol do banco é pouco crível".

Plano antigo. Para o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima, a declaração de Mantega é parte de um plano do passado. "Era sabido que o BNDES tinha de promover o crescimento no curto prazo e, a longo prazo, iria reduzir sua presença nos financiamentos, deixando esse papel para outros entes do mercado financeiro assumirem", afirmou Lima.

Segundo ele, o BNDES teve um papel importante no período de crise, mas talvez tenha exagerado um pouco sua missão de financiador de grandes projetos, de médio porte e até de bens finais. "Não é papel de um banco de fomento financiar compras de caminhões e materiais de construção. Isso é papel de bancos de investimentos", disse Lima.

Lima vê com estranheza, porém, a afirmação de Mantega sobre a zeragem de aportes, uma vez que o Brasil ainda é carente de grandes projetos.

Decisão essencial. A economista e sócia da Gibraltar Consulting, Zeina Latif, afirmou que a decisão do Ministério da Fazenda é "pragmática" e "essencial". Segundo ela, essa mudança de posição é justificada após "os fracasso da política do banco de selecionar vencedores" para priorizar seus financiamentos - como foi o caso das empresas do grupo EBX. Além disso, ela destaca que essas capitalizações vinham gerando forte pressão fiscal sobre o Tesouro e aumentando o endividamento público.

"Diante do gigantismo do BNDES, era necessária essa avaliação. Estamos num momento em que o Banco Central eleva os juros, a inflação ainda é alta e é incompatível continuar estimulando a economia, enfraquecendo a eficácia da política monetária", disse Zeina. "Existe ainda um desequilíbrio na política macroeconômica, com a puxada dos juros de um lado, e, de outro, a continuidade dos estímulos."

Zeina concorda com Felipe Salto, da Tendências, para quem uma das razões que levaram o ministro Guido Mantega a avisar sobre a nova conduta pode ser uma resposta à contrariedade demonstrada pelas agências de classificação de risco, que criticam a dinâmica da dívida pública, em parte pressionada pelos aportes do Tesouro, numa referência ao crescimento do endividamento bruto, que hoje chega a 65% do Produto Interno Bruto (PIB).

Gatilhos. Para Salto, a resposta que se busca agora é como fazer o controle da política fiscal, uma vez que todos os gatilhos que disparam os gastos do governo estão acionados.

"O próprio presidente do BNDES já disse que o banco vai precisar de recursos para fechar suas contas. A política monetária está precisando novamente ser contracionista para conter a inflação em meio a uma política fiscal expansionista", disse Salto.

Zeina chama a atenção para o fato de que o governo sinalizou que não interromperá bruscamente os aportes no BNDES, o que é positivo. "Você não para um transatlântico assim, mas sinaliza que caminha para uma moderação", disse.

Ela citou ainda a substituição das linhas de financiamento do BNDES por outras linhas privadas, como a emissão de debêntures ou as obtidas em bancos públicos ou privados, como citou Mantega.

Lima, da Sobeet, diz que no momento não é possível avaliar qual seria o impacto da redução dos repasses de capital do Tesouro sobre a meta de superávit primário, cujas projeções têm sido cada vez menores.

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