Analistas esperam definição fiscal na Argentina

Os novos rumos da política fiscal e monetária na Argentina definirão em boa parte o sucesso do plano econômico no país vizinho, avaliam os analistas do mercado. Até o momento, não há indicações claras sobre esses rumos. Eles serão essenciais, dizem os analistas, para que a nova política econômica e a renegociação da dívida externa argentina tenham alguma credibilidade. "O governo argentino deve mostrar políticas minimamente responsáveis, caso contrário não haverá credibilidade", comenta o economista-chefe do banco Santander, André Lóes. "Além disso, será importante acompanhar a reação da população ante as medidas em um ambiente de fragilidade institucional", acrescenta. Há complicadores tanto na área fiscal quanto na monetária. Na primeira, questiona-se a capacidade política do novo governo, aparentemente de caráter mais populista, em baixar mais medidas de ajuste, ainda que o novo presidente tenha obtido poderes para legislar através de decretos. A peça orçamentária deste ano será um bom indicativo nesse sentido. Na área monetária, pesa a inexperiência de onze anos sem política de atuação. "Será um intenso aprendizado. A dúvida é se eles também encontrarão um ´Armínio´ para tocar esse processo", diz o economista chefe do BBV Banco, Octavio de Barros, referindo-se ao presidente do Banco Central brasileiro, Armínio Fraga. Para ele, a política monetária na Argentina terá de ser criativa, de maneira que os recursos permaneçam no sistema financeiro, porém sem artificialismos como o congelamento parcial dos depósitos. Barros acredita ainda que, enquanto não houver uma flutuação plena do peso, o governo pode pedir ao Congresso a aprovação de uma política de objetivos monetários quantitativos (espécie de controle das bases monetárias). Valendo o câmbio flutuante para toda a economia, haveria um regime de metas de inflação.CâmbioAlém de aguardar os novos rumos das políticas fiscal e monetária, os analistas destacam possíveis medidas complementares. Acredita-se que em um primeiro momento as limitações para os saques bancários sejam mantidas, talvez com mais flexibilizações, de maneira a evitar uma sangria generalizada no sistema financeiro. "Um bom termômetro para medir a desvalorização está nas casas de câmbio de Buenos Aires, que hoje negociam o dólar a 1,45 /1,50 peso. Se permanecesse dessa forma, não haveria um overshooting (alta especulativa), mas a manutenção desse câmbio depende, hoje, em grande parte do aspecto de liquidez do sistema. É aí que está a fragilidade do novo plano: como ficaria o câmbio com liberação dos saques?", questiona Rachel Fleury, da Tendências Consultoria. Nesse sentido, os analistas também acreditam na manutenção da parcela de câmbio fixada em 1,40 pesos por dólar, por um prazo de pelo menos 3 ou 4 meses, para que o processo de renegociação dos contratos de dívidas seja mais tranqüilo. Os analistas destacam que há sérias dúvidas, no entanto, sobre a capacidade de o governo conseguir manter um regime de câmbio duplo por um período tão extenso. No rol de eventuais novas medidas, há fortes boatos sobre o controle de preços para as tarifas públicas. O governo deve ainda conceder algum tipo de compensação para as empresas privatizadas que terão suas tarifas desindexadas do dólar. Para alguns analistas, o caminho disso pode estar na renovação das concessões.Prejuízo nos bancosOutras medidas complementares à desvalorização formal na Argentina, dizem analistas, podem estar relacionadas às perdas que os bancos terão com a pesificação das dívidas em dólar até o valor de US$ 100 mil. Supondo que essa medida seja válida somente para as dívidas até esse valor, conta preliminar de uma instituição financeira com forte atuação na Argentina mostra que cerca de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões das dívidas bancárias seriam diretamente afetadas, o que levaria a um prejuízo imediato em torno de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões com a desvalorização. Fonte deste mesmo banco sublinha ainda a possibilidade do aumento de inadimplência por parte das empresas com dívidas em dólar. Atualmente, a dívida corporativa em títulos da Argentina soma algo como US$ 65 bilhões, dos quais US$ 39 bilhões estão denominadas efetivamente em dólares e o restante, no que os analistas chamam de "argendólares" - contratos feitos em dólar, mas cujas cláusulas contratuais permitem uma contestação judicial da moeda norte-americana como base de valor. O governo argentino acenou com a possibilidade de compensação de algumas perdas com o aumento da tributação da exportação de petróleo, mas os analistas afirmam que o valor dessa arrecadação extra (fala-se em cerca de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão) é muito inferior aos valores das perdas para os bancos e empresas. "Outros mecanismos de natureza tributária deverão ser criados como forma de compensação, a não ser que o governo queira fazer um espécie de Proer no futuro", avalia o diretor de outro grande banco estrangeiro. Apesar das perdas iminentes, uma coisa é certa e admitida: os bancos fizeram as devidas provisões com muita antecedência. Leia o especial

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