Analistas: inflação permitiu queda da Selic

A queda da inflação deste ano, maior do que o esperado pelo Banco Central (BC) e pelo mercado, e a perspectiva de uma variação para o próximo ano de 4% contribuíram para convencer o Comitê de Política Monetária (Copom) a cortar a taxa de juro básica (Selic) em 0,75 ponto percentual na quarta-feira, na visão compartilhada por diversos vários analistas.Para o diretor-presidente do Dresdner Asset Management, e ex-diretor do BC, Demósthenes Madureira de Pinho Neto, a queda da inflação levou o BC a cortar a gordura da taxa básica. O ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, também acredita que a decisão do Banco Central está relacionada a projeções mais otimistas em relação ao comportamento da inflação. "Provavelmente, o fator determinante foi uma inflação menor do que a esperada", afirmou.Segundo o consultor Raul Velloso, ao reduzir a taxa básica, o BC simplesmente ajustou a taxa real à queda da inflação para mantê-la inalterada. A taxa de juros real corresponde à nominal descontada a inflação. Velloso acredita que, se o BC não reduzisse a Selic, a taxa real subiria de 10,9% em 2000 para 11,7% em 2001, e seria um paradoxo pressionar a dívida pública porque a inflação caiu.O deputado e ex-ministro Antônio Delfim Netto elogiou a decisão do Copom de baixar a Selic para 15,75% ao ano. "O Armínio Fraga fez muito bem, aproveitou o vento a favor, ousou e fez a coisa correta. Confirmou na verdade que ele tem um senso de oportunidade apurado", disse. Para o ex-ministro a queda dos juros anunciada na quarta-feira é muito mais importante para as contas do governo, do que para a intermediação financeira no mercado, para empresas e pessoas físicas. Delfim acha que o Banco Central, com o corte de ontem, ficou próximo ao limite de manobra na queda. Esta opinião é compartilhada por Demósthenes, para quem o espaço para novos cortes no próximo ano está reduzido, considerando-se as perspectivas consensuais do momento sobre a situação econômica externa e interna em 2001.O ex-diretor do BC observa que o chamado "pouso forçado" dos Estados Unidos - uma desaceleração muito forte que jogue a economia americana em recessão - não está totalmente descartado. Demósthenes, por exemplo, atribui uma chance de 30% a esta possibilidade. Se o pouso forçado ocorrer, o Brasil terá mais dificuldade para captar investimentos diretos e pagará mais por empréstimos externos, tornando mais duro o financiamento do déficit em conta corrente. Neste cenário, o dólar poderia subir fortemente e pressionar a inflação.Demósthenes acha que o BC trabalha com a possibilidade de aumentar os juros, caso o cenário piore no futuro. Assim, o BC sente-se seguro para aproveitar a melhoria das condições externa e internas, no presente, para baixar ao máximo os juros. (Equipe de reportagem, com Agência Estado).

Agencia Estado,

22 de dezembro de 2000 | 18h50

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