coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Analistas internacionais negam ataque especulativo

Com o câmbio sob pressão, os papéis brasileiros no mercado desabando e bolsa em forte queda, o Fundo Monetário Internacional reiterou sua confiança na economia brasileira e analistas de Wall Street negam que o Brasil esteja sofrendo um ataque especulativo por causa do favoritismo do candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais. Embora reconheçam que a possibilidade de vitória da esquerda nas eleições presidenciais gere apreensão, eles acreditam que a venda de papéis da dívida brasileira, nos últimos dois dias, é uma reação à crise no mercado financeiro doméstico, provocada pelas dificuldades de implementação do Sistema Brasileiro de Pagamentos e suas implicações, bem como pelas más notícias embutidas na decisão do governo de intervir na Previ. "Dizer que o Brasil está sofrendo um ataque especulativo é uma simplificação", afirmou o economista Paulo Vieira da Cunha, do banco de investimentos Lehman Brothers, em Nova York. "O que está acontecendo esta semana tem como pano de fundo a situação política, mas não reflete nenhuma nova opinião política no mercado", explicou. "Esse movimento a que estamos assistindo começou claramente em São Paulo e tem como origem os problemas de implementação no novo sistema de pagamentos, a relutância dos grandes bancos de emprestarem para os pequenos, a ação correta mas complicada do Banco Central para enfrentar uma situação difícil criada pelo retirada da âncora do mercado financeiro doméstico, que, no sistema de pagamentos anterior, eram as Letras Financeiras do Tesouro", enumerou. Arturo Porzecanski, do ABN-AMRO, concordou que a falta de apetite por papéis brasileiros no mercado internacional é reflexo de uma crise financeira "made in Brazil". Mas ele alertou que o problema é real e não apenas para o Brasil. Segundo Porzecanski, "temos também um problema de contágio na América Latina, provocado não pela Argentina, que está fora do radar, mas pelo Brasil". De acordo com o economista, o risco soberano do México, que estava em 2,34% acima dos papéis do Tesouro, há apenas dois meses, saltou para 2,9% - um aumento de 23%, que ele atribui à avaliação negativa dos investidores sobre o Brasil. O mesmo estaria acontecendo com o Chile, que viu seu risco subir de 1,2% para 1,5% - um movimento porcentual semelhante ao México. "Os investidores estão vendendo também Venezuela, Equador e Colômbia, mas não se nota o mesmo movimento com os papéis da Rússia e dos asiáticos", informou Porzecanski. Os dois economistas não vêem uma reversão rápida para um cenário mais positivo. "O que preocupa as pessoas aqui é que esse mercado está sem chão", disse Vieira da Cunha. "E o problema doméstico sublinha a necessidade da competência na gestão a partir do primeiro dia da nova administração". Porzecanski disse que "o Brasil precisa de um par de boas notícias, como a superação das dificuldades do mercado financeiro doméstico e o anúncio de alianças políticas que dêem alguma tranqüilidade quanto à capacidade do próximo presidente de governar", disse ele.

Agencia Estado,

06 de junho de 2002 | 20h32

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.