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Analistas já vêem desaceleração e PIB trimestral está próximo de zero

Indicadores antecedentes apontam desaceleração da economia brasileira mais forte do que se imaginava

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

A economia brasileira está sentindo, mais rapidamente do que se esperava, os efeitos da crise global. Por isso, nos últimos dias, vários analistas alteraram, para pior, as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no 4º trimestre. Parte deles prevê estagnação e alguns já falam até em retração - o que, na prática, significa encolhimento. Por ora, uma recessão técnica, definida pela queda do PIB em dois trimestres seguidos, é uma hipótese remota.O pessimismo desses especialistas se consolidou com a divulgação de alguns indicadores antecedentes, ou seja, que apontam a tendência para a economia. A confiança dos empresários em outubro, por exemplo, caiu para o nível mais baixo desde julho de 2005, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Uma pesquisa realizada pelo Banco Real, chamada de Índice de Gerentes de Compra, teve em outubro o maior recuo desde que começou a ser feita no Brasil, em fevereiro de 2006. Em tese, os dados de outubro deveriam ser vistos com certa desconfiança, pois o mês foi o pior da crise até agora, com perdas brutais nas bolsas de valores e forte contração do crédito. No entanto, os especialistas notam que algumas dificuldades entraram novembro adentro, o que levou à revisão das projeções para o trimestre inteiro. Além disso, a percepção de agravamento da crise nos países ricos deixou consumidores e empresários ressabiados.O setor de embalagens, visto como um termômetro das condições futuras da economia, detectou indícios de redução na demanda em novembro. Informações de sindicatos e uma pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostram que diversos setores já demitiram nas últimas semanas. Montadoras deram férias coletivas a milhares de funcionários.Com base nesse cenário, a Credit Suisse Hedging-Griffo, uma das maiores e mais importantes gestoras de recursos do País, prevê uma retração de 0,1% do PIB brasileiro no quarto trimestre em relação ao anterior. "Apesar do desempenho robusto do terceiro trimestre, o mundo mudou e os números dos três últimos meses do ano serão bem mais fracos", disse a economista da instituição Fernanda Batolla. Segundo ela, a contração do crédito provocou um efeito dominó, que já é identificado, por exemplo, nas pesquisas que medem a confiança do consumidor. "O varejo começa a ver alguns sinais de desaceleração, pois a disposição das pessoas de tomar crédito (encarecido) diminuiu", observou. Outra área que, nas contas da Hedging-Griffo, será duramente afetada é a do investimento, como indica o levantamento da CNI com os empresários. "A indústria foi pega no contrapé pela crise", disse Fernanda. A expectativa dela para 2008 é de um crescimento de 5,2%. O economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo Silveira, prevê um PIB negativo de 0,5% no último trimestre do ano, em razão, principalmente, do aperto de crédito. "Normalmente, a restrição na oferta de empréstimos afeta a economia com uma certa defasagem. Mas, desta vez, a contração foi tão forte que o efeito será quase imediato", explicou. Não é à toa, diz, que os primeiros setores a sofrer são os mais sensíveis ao crédito, como a indústria automotiva. A LCA Consultores também espera um 4º trimestre "complicado", na definição do economista Francisco Carlos Faria Júnior. "Mesmo com a volatilidade menor dos mercados em novembro, fica esse mal-estar com a crise", disse. "A alta do dólar (que na sexta-feira fechou a R$ 2,27) afeta psicologicamente consumidores e agentes econômicos." A consultoria projeta crescimento zero para o PIB do 4º trimestre. A economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif, ainda não refez as projeções para o quarto trimestre, porque avalia que não há dados suficientes para um cálculo preciso. Mesmo assim, tem poucas dúvidas de que o PIB do período será negativo. "As vendas estão caindo nos setores sensíveis a crédito, a produção industrial sofrerá um forte ajuste para baixo por causa das montadoras, a piora da confiança indica queda dos investimentos das empresas e, no setor externo, a recessão dos países ricos reduzirá o avanço das exportações", sintetiza. Evidentemente, nem todos os especialistas pensam da mesma forma. A MCM Consultores, que tem entre os sócios o ex-diretor do Banco Central (BC) José Júlio Senna, ainda vê um crescimento de 0,3% do PIB do 4º trimestre em relação ao terceiro. Mesmo assim, Senna observa que as pessoas estão mais prudentes. "Ainda há muita disparidade de informações, mas é possível prever uma desaceleração importante no crescimento da produção industrial." Também ex-diretor do BC, o economista-chefe do Banco Santander, Alexandre Schwartsman, avalia que há chance de o PIB do quarto trimestre ficar estagnado, "mas ela não é tão forte assim". Segundo ele, há um carry-over (carregamento) importante da produção industrial do 3º para o 4º trimestre. Em outras palavras, nas contas dele, a menos que haja uma catástrofe, a produção industrial terá expansão entre outubro e dezembro, o que, por si só, garantiria uma alta do PIB no período.

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