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Marcos Arcoverde/Estadão
Aumento na quantidade de minério extraído pela Vale pode ser essencial para determinar preço do insumo. Marcos Arcoverde/Estadão

Analistas preveem queda do preço do minério de ferro na China com aumento gradual da oferta

Estoques em queda nos portos chineses ajudam a elevar a cotação do insumo, mas projeções apontam para aumento nas extrações de minério de ferro pela Vale, o que deverá aliviar os preços

Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 10h30

O salto das cotações do minério de ferro na China desde o último mês surpreendeu muitos analistas de mercado, que têm previsões bem mais conservadoras para os preços do insumo no fim do ano. Essas previsões não vêm sendo alteradas, o que mostra tendência de queda, por conta do aumento gradual na produção de grandes mineradoras, como a Vale. A dúvida é sobre o prazo e a intensidade da baixa.

No momento, a quantidade de minério disponível na China, principal mercado para o insumo, aponta preços em alta. Dados da Steelhome coletados pelo Bradesco BBI mostram que, na última semana, os estoques nos portos chineses caíram em 2 milhões de toneladas. Nas mineradoras chinesas, o estoque é o mais baixo dos últimos dois anos, segundo dados da Mysteel, também compilados pelo BBI.

Nos cálculos de consultorias e bancos de investimento, o desequilíbrio entre a oferta restrita e uma demanda em alta na China não deve durar por todo o ano. A analista Gabriela Cortez, do Banco Inter, diz que uma boa parte da valorização do minério desde o ano passado é fruto de restrições de produção em todo o mundo, trazidas pela covid-19 e pela baixa da produção da Vale. "Porém, conforme a produção se eleve, se normalize, os preços tendem a cair", diz.

Daniel Sasson, chefe de análise de commodities do Itaú BBA, afirma que os preços médios esperados pela casa para este ano e para 2022 deixam clara a expectativa de uma baixa nos preços. Em 2021, o Itaú BBA projeta minério a um preço médio de US$ 155 a tonelada, e para 2022, de US$ 120 a tonelada. "Dado que o preço médio do fim do primeiro semestre vai ficar acima de US$ 170, nossa estimativa implica em queda relevante no segundo semestre."

Nos dois casos, a expectativa é de que a produção de aço da China se normalize, reduzindo a demanda por minério. De outro lado, espera-se que a Vale aumente a quantidade de insumo que extrai de suas minas. Essa combinação reduziria naturalmente os preços da commodity. No entanto, a projeção vem sendo feita desde o ano passado, e a expectativa foi contrariada até aqui pela resiliência da economia chinesa e pelas tensões entre o país e a Austrália.

Neste ano, a Vale espera produzir de 315 milhões a 335 milhões de toneladas de minério - no ano passado, produziu 300 milhões. A mineradora também espera agregar mais 23 milhões de toneladas à sua capacidade produtiva, que desde a tragédia de Brumadinho (MG), em janeiro de 2019, foi significativamente reduzida. No fim do ano que vem, viriam mais 50 milhões de toneladas, o que faria com que a mineradora brasileira pudesse produzir 400 milhões de toneladas.

Reposição, e não expansão

Apesar da perspectiva de maior oferta, é consenso entre analistas que os investimentos das grandes mineradoras globais servem para repor capacidade após o esgotamento de alguns projetos, e não para aumentar a produção de forma definitiva. Isso torna os desembolsos consideravelmente menores do que em meados da década passada, marcada por pesados aportes no setor em nível global. No Brasil, o maior exemplo é o megaprojeto S11D, construído pela Vale no Pará, e que custou US$ 14,3 bilhões.

"Temos épocas de alta e de baixa. Na década passada, após uma época de minério em quase US$ 197 a tonelada, a cotação foi caindo até chegar a US$ 42 em 2015", diz Roberto Galery, chefe do Departamento de Engenharia de Minas (Demin) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "As grandes mineradoras do Brasil fizeram novos projetos com um custo de capital altíssimo. Montaram as indústrias para um preço de US$ 197, e tiveram de pagar com o minério a US$ 42", diz.

Em relatório assinado com os analistas Ricardo Monegaglia e Edgard Pinto de Souza, Sasson, do Itaú BBA, calculou que em 2012, os investimentos de Vale, Fortescue, Rio Tinto e BHP chegaram a US$ 60 bilhões, maior número do último ciclo de expansão. Em 2020, caíram para US$ 20 bilhões.

"Olhando para os projetos em andamento nas operações de minério de ferro das quatro, a maior parte dos projetos da Austrália tenta repor esgotamento de reservas", escreveram. "Ao mesmo tempo, a Vale está em vias de reiniciar produções fechadas ou restritas desde o rompimento da barragem de Brumadinho."

Os preços atuais de minério atrairão novos investimentos, mas eles devem vir de mineradoras menores, que têm projetos de construção mais rápidos. "No Brasil tem muitas pequenas minerações, que estão entrando no mercado", diz Galery, da UFMG. Segundo ele, elas não exportam, mas vendem minério para as maiores, como a Vale e a CSN Mineração, complementando suas produções.

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Disputa entre China e Austrália está por trás da disparada no preço do minério

Tensões comerciais entre a segunda maior economia global e um de seus grandes parceiros comerciais - e principal produtor global da commodity - afetaram o preço do produto, que este ano já acumula alta de 48%

Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 10h30

A recente disparada do minério de ferro na China, principal consumidor do insumo no mundo, é um dos sintomas de uma dança diplomática entre a segunda maior economia global e a Austrália, até aqui um de seus grandes parceiros comerciais. Pela importância do minério australiano no mercado internacional, é improvável que a corda seja esticada pelos chineses a ponto de se romper no curto prazo, e os preços provavelmente cairão. Em um horizonte mais longo, porém, o recado chinês é claro: se não existem, alternativas podem ser criadas.

As tensões comerciais de lado a lado aumentam desde o ano passado, após a Austrália se tornar um dos mais vocais apoiadores de uma investigação internacional sobre a origem do coronavírus. Esse passo, que ecoou a retórica do então presidente americano, Donald Trump, de culpar a China pela pandemia, custou caro. Pequim retaliou com sobretaxas a produtos australianos que não eram os principais nas trocas comerciais entre os países, mas que davam um claro recado diplomático.

Em 2018, a Austrália alegou motivos de segurança nacional para banir a gigante chinesa de telecomunicações Huawei do fornecimento de equipamentos para suas redes 5G. O próprio Trump só viria a proibir o uso dos equipamentos da Huawei nos EUA um ano depois.

A gota d'água veio no fim de abril, com a decisão do Ministério das Relações Exteriores da Austrália de romper uma parceria entre a China e o Estado australiano de Victoria no âmbito da ambiciosa iniciativa Cinturão e Rota da Seda. A China suspendeu por tempo indeterminado o diálogo econômico com o parceiro comercial - e o minério disparou.

Sob a ótica das relações internacionais, o recado da China foi claro, e explica a alta do minério mesmo sem um veto explícito ao insumo. "A China faz testes de hegemonia muito seguros. A Austrália agiu de maneira precipitada por uma questão política", explica Leonardo Trevisan, professor de economia e relações internacionais da ESPM-SP. "A China pode abrir mão do minério australiano? Não, mas pode dar sucessivos recados."

A Austrália é o maior produtor mundial de minério de ferro, com mais do que o dobro da produção brasileira anual. Estimativas de mercado apontam que o país da Oceania, lar de gigantes da mineração como Rio Tinto, BHP e Fortescue, responde por 60% das exportações globais do insumo.

Na quarta-feira, 12, o minério negociado no porto chinês de Qingdao chegou à casa de US$ 237,57 a tonelada. Mas nesta sexta, 14, depois de não ter sido negociado na quinta, por causa de um feriado local, o preço despencou 12,11%, para US$ 208,79 a tonelada, em meio a relatos de que a China estaria se esforçando para conter os preços do minério de ferro.

Em 2021, a commodity avança 48%, em movimento alinhado ao de outras matérias-primas com a recuperação das principais economias do mundo após o baque da covid-19. Desde janeiro de 2020 - antes da pandemia -, o salto é de 157%.

O maior motivo para a alta em 2020 foi a escassez de minério com as restrições à produção causadas pela covid-19, em especial no Brasil. Ao mesmo tempo, a China colocou em prática um robusto pacote de estímulos econômicos com foco na indústria e na construção civil, que aumentou a demanda por aço. No ano passado, a produção das siderúrgicas chinesas subiu 5,2%, enquanto a do resto do mundo caiu 7,7%. Em março, os chineses produziram 19,1% mais aço que um ano antes - sem a China, a produção global subiu 10,7%.

A demanda segue aquecida em 2021, o que por si só garantia preços altos desde janeiro. A tensão China-Austrália aumenta a fervura e pode trazer novas surpresas. "Acredito que a gente esteja em um pico de ciclo. Mas é difícil colocar a mão no fogo e dizer que o minério não vai chegar a US$ 240 ou US$ 250 a tonelada", diz Daniel Sasson, analista de commodities do Itaú BBA.

Estruturando parceiros

No curto prazo, a China não conta com alternativas viáveis de suprimento. O Brasil, segundo maior produtor do insumo, tem capacidade muito menor que a do país da Oceania, e aumentá-la seria caro e demorado. Por isso, especialistas consideram que há um limite para o confronto entre os dois países, ao menos no presente.

"As preocupações sobre a escalada de tensões entre a China e a Austrália podem estar pesando sobre o sentimento de mercado, e no mercado de futuros, ainda que consideremos virtualmente impossível que a China restrinja as importações de minério da Austrália", afirmaram Thiago Lofiego e Isabella Vasconcelos, do Bradesco BBI.

Em um prazo mais longo, o cenário é outro. Em mudanças anteriores dos ventos diplomáticos, a China já deu apoio a países que viriam a se tornar parceiros comerciais relevantes em outros mercados. Trevisan, da ESPM, lembra que os chineses ajudaram a estruturar cadeias de produção de petróleo em países africanos, e que por décadas viram no Brasil um parceiro confiável o suficiente para comprar milhões de toneladas da soja brasileira em detrimento da americana.

Roberto Galery, chefe do Departamento de Engenharia de Minas (Demin) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que os chineses poderiam se voltar à própria África ou a países da Ásia que já têm forte produção mineral, como a Rússia. "A grande oportunidade, agora, é a de pesquisar novas jazidas. A África pode ter ocorrências de minério de ferro para serem estudadas", diz ele.

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