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Analistas preveem um rearranjo político

Em um mundo com óleo mais barato, regimes ditatoriais no Oriente Médio tendem a perder força

Gabriela Mello e Gabriel Bueno, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2016 | 03h00

A queda no preço do petróleo já se reflete na economia de muitos países e, segundo analistas, pode precipitar uma reconfiguração das relações de poder na arena internacional. Embora o petróleo ainda exerça papel central no modelo de produção vigente, sua desvalorização, numa visão ampla, reduz a influência de nações produtoras e traz alívio financeiro a consumidores.

Nesse novo cenário, o Oriente Médio como um todo tende a ser uma das regiões mais propensas a se enfraquecer e mais suscetível a passar por turbulências ou mudanças políticas. “O baixo preço pode ser bom para a democracia, pois alguns governos autoritários sobrevivem com a renda do petróleo”, afirma o professor e pesquisador da Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge, Tiago Cavalcanti.

A região pode também perder espaço no xadrez geopolítico global. “Agora, países consumidores têm muitas fontes potenciais para recorrer e não se sentem obrigados a serem condescendentes com fornecedores”, diz Michael Klare, do Hampshire College.

Ao mesmo tempo, porém, o principal produtor do Oriente Médio e segundo maior do mundo, a Arábia Saudita, é o maior responsável pelo colapso das cotações, ao manter inalterada a oferta de petróleo. A estratégia é enfraquecer países concorrentes, que precisam de preços maiores para se manterem lucrativos, além de pressionar rivais políticos, como o Irã.

Curto prazo. Para Cavalcanti, a Arábia Saudita desfruta de uma posição confortável no curto prazo para manter essa política, pois a sua dívida pública é baixa e o seu petróleo é de razoável qualidade e de fácil exploração. “Eu acho que os sauditas podem aguentar os preços baixos por mais tempo, mas não para sempre”, diz Klare. No entanto, o país pode enfrentar graves problemas internos se as cotações internacionais não reagirem nos próximos anos. “Para escapar da Primavera Árabe, os sauditas inundaram a população com benefícios que agora pesam sobre o equilíbrio financeiro nacional”, diz.

O pesquisador do Middle East Institute, Zubair Iqbal, ressalta que o petróleo e a sua cotação são importantes instrumentos de política para outras nações do Golfo Pérsico. Na opinião dele, o equilíbrio de poder na região certamente mudará em decorrência da queda das cotações, mas não tão drástica ou rapidamente como em geral é esperado. “Eles querem manter a participação em um mercado de oligopólio e isso vai encorajar algum nível de conluio para propiciar um piso”, afirma.

Além das petroleiras e dos governos, as cotações mais baixas podem trazer prejuízos para atores que atuam clandestinamente na região, entre eles o Estado Islâmico. O califado se autofinancia principalmente por meio do contrabando do óleo extraído de áreas sob o seu domínio no Iraque e na Síria. “As operações do Estado Islâmico serão menos lucrativas, já que tem de vender óleo com um desconto substancial”, explica o professor canadense de Energia e Economia da Universidade de Calgary, Michal C. Moore.

Para o especialista em mercado de petróleo e economias emergentes do Kiel Institute for the World Economy, Klaus-Jürgen Gern, o grupo extremista pode ter de diversificar ainda mais a sua estratégia, que também inclui contrabando de antiguidades, sequestros, pedágios, impostos e saques. Cavalcanti alerta, porém, que é difícil calcular os efeitos no longo prazo, pois a desvalorização enfraquece governos que combatem a organização. “A baixa do petróleo pode até fortalecer o grupo, dependendo da dinâmica interna dos países”, pondera.

Beneficiados. Ao mesmo tempo em que prejudica a economia de países exportadores, o petróleo mais barato agrada aos consumidores que se abastecem no mercado internacional. Klare, do Hampshire College, observa que a relação entre os países vinha sendo marcada nas últimas décadas pela relativa escassez do produto, o que conferia aos produtores maior autoridade no cenário geopolítico. “Agora, estamos em um mundo de relativa abundância, e isso muda tudo”, diz.

Entre as nações afetadas positivamente pela queda no preço, Cavalcanti, da Universidade de Cambridge, vê a Índia como o principal beneficiário, por causa de sua forte dependência de petróleo importado. “A conta do petróleo promove um alívio excepcional à Índia, que se espera ser um novo fenômeno econômico para substituir, ao menos em parte, a antiga locomotiva chinesa”, diz. Ele acrescenta que a União Europeia também será altamente favorecida, pois é o maior importador da commodity no mundo, com uma demanda de aproximadamente 12 milhões de barris por dia. “China, Japão e Coreia do Sul, igualmente, terão grandes ganhos”, completa.

Participantes do setor se dividem quanto ao impacto que o petróleo em torno de US$ 30 o barril teria na economia dos EUA. Desde o ano passado, o país é o maior produtor e consumidor do mundo, e a diversificação da economia americana tende a limitar os prejuízos. “A revolução do xisto deu ao país maior vantagem política, já que não é mais dependente dos fornecedores do Oriente Médio”, diz o professor do Hampshire College

O pesquisador e diretor do Fórum de Política Energética da Universidade de Cambridge, Chi Kong Chyong, ressalta que o custo da produção americana de xisto fica entre US$ 50 e US$ 80 o barril. “Está acima dos níveis do Oriente Médio, mas abaixo de megaprojetos, como perfuração em águas profundas.” Ainda assim, petroleiras locais, principalmente as de pequeno e médio portes, estão sofrendo. São grandes e constantes os cortes nos investimentos e de funcionários. Já há vários casos de falência.

Para o Canadá, a perspectiva é menos favorável. Além de depender muito mais que os EUA da receita obtida com as exportações do óleo, os canadenses têm um custo de produção elevado. Cerca de 95% das reservas estão em areias betuminosas. “Algumas empresas estão sendo forçadas a cortar a produção e a dispensar trabalhadores no atual cenário de preços”, diz Klare.

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