Marcio Fernandes e Celso Junior/AE
Marcio Fernandes e Celso Junior/AE

Analistas projetam economia sob o comando de Dilma ou Serra

Para analistas, Serra pode tornar política fiscal mais apertada; Dilma pode ser menos radical no corte de gastos

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

08 Janeiro 2010 | 17h35

A disputa eleitoral para a sucessão do presidente Lula ainda não está definida, mas a probabilidade cada vez maior do enfrentamento nas urnas entre a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o governador de São Paulo, José Serra, já leva analistas a cogitar quais seriam as linhas mestras para a economia brasileira sob o comando da petista ou do tucano.

 

Nas avaliações dos especialistas ouvidos pela Agência Estado, um governo federal de José Serra poderia tornar a política fiscal mais apertada a partir de 2011, a fim de dar mais espaço à redução dos juros. Uma administração de Dilma Rousseff, por seu lado, poderia ser menos radical no corte de gastos públicos, o que levaria o Copom a manter uma política monetária mais restritiva em relação à que poderia ocorrer na gestão Serra.

 

"Em qualquer uma das duas gestões é muito provável que o ministério da Fazenda deva preponderar na condução da política econômica, reservando ao BC o papel quase exclusivo de controlar a inflação", comentou o diretor para a América Latina do Eurasia Group, Christopher Garman.

 

Na avaliação de Garman, José Serra não teria dificuldades para convencer seu eleitorado que um pouco mais de limites nos gastos públicos é bom para o País, pois isso além de melhorar a qualidade das despesas oficiais daria mais espaço para o Copom reduzir a Selic. O governador de São Paulo é conhecido pelas fortes críticas ao Banco Central por manter os juros em níveis que ele já qualificou de "siderais". Serra chegou a ironizar uma declaração do presidente do BC, Henrique Meirelles, sobre a instituição que, em política monetária, atuaria tanto na gestão dos agregados monetários como na administração da taxa de juros. Em evento no Palácio dos Bandeirantes, o tucano disse que as duas políticas "são duas faces da mesma moeda" e que só existe uma política monetária, o que é um fundamento elementar dominado por quem passou pelo "ciclo básico" da economia.

 

Para Garman, uma Presidência nas mãos de Dilma Rousseff enfrentaria maiores problemas junto às suas bases vinculadas ao PT para elevar o superávit primário. A contrapartida, segundo ele, seria permitir que o Banco Central mantivesse uma gestão mais firme da política monetária. "A questão é saber quanto seria autônoma a atuação do BC num governo Dilma ou Serra", comentou. "Contudo, não acredito que ambos adotariam procedimentos que atrapalhassem a atuação técnica do Copom", disse.

 

Na avaliação de Garman, para saber quais devem ser os passos de Dilma na economia é oportuno refletir sobre as palavras do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que, segundo ele, tem grandes chances de ser seu ministro da Fazenda. Uma fonte do Palácio do Planalto ressaltou à AE que o programa econômico de Dilma deve ter como um dos principais formuladores o Secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa, que é admirado pela ministra da Casa Civil, pois tem capacidade de transformar ideias em propostas factíveis. Luciano Coutinho, por outro lado, atuaria como um dos supervisores do programa, a quem caberia ajudar na redação final de tais propostas. "As ideias de Coutinho, especialmente relacionadas à ampliação da poupança doméstica para um patamar próximo a 25% do Produto Interno Bruto, a fim de elevar os investimentos no País e aumentar o PIB potencial para algo pouco superior a 5%, se identificam totalmente com o que defende a ministra", destacou essa fonte. "Coutinho é uma espécie de indicador antecedente do que pensa Dilma", concorda Garman.

 

A reportagem da Agência Estado procurou a executiva nacional do PSDB e recebeu a resposta da assessoria de imprensa de que o partido ainda não definiu o seu candidato à Presidência da República e, portanto, não há ainda nenhum programa econômico definido. A AE também tentou ouvir o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e o secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa. Ambos estão de férias, sendo que Coutinho retorna ao banco na próxima semana e Barbosa no dia 18, quando também volta de ferio o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

 

Atuação no câmbio

 

No mercado financeiro, há uma avaliação harmoniosa aos comentários do presidente do BC, Henrique Meirelles, segundo os quais a política econômica no Brasil está institucionalmente madura e se provou eficaz, o que não deve permitir espaços para que o próximo presidente altere sua base, formada pelo sistema de metas de inflação, regime de câmbio flutuante e rigor fiscal, com geração de superávits primários.

 

Para a economista-chefe do ING, Zeina Latif, tanto Serra quanto Dilma no Palácio do Planalto devem utilizar a área fiscal de forma anticíclica para ampliar as chances de relaxamento monetário, o que seria importante para diminuir o patamar de apreciação cambial, que está cerca de 20% sobrevalorizado ante uma cesta de 15 moedas em termos reais em comparação a junho de 1994. Tal dado consta do slide 11 da apresentação do relatório de inflação de dezembro, realizada no dia 22 passado pelo diretor de política econômica do BC, Mário Mesquita.

 

Segundo Zeina, Serra e Dilma atuariam no câmbio de forma endógena, via aperto fiscal, o que permitiria a queda do juro real, que está em 5,63%, pelo critério ex-ante. Este cálculo é obtido levando em consideração a cotação do swap para 360 dias, que atingiu na quinta-feira (07/01), 10,33%, dividida pelos 4,44% relativos ao IPCA 12 meses à frente apurado pela pesquisa Focus, do BC. "O que deve diferenciar a gestão das despesas públicas entre a administração de Dilma ou Serra seria a intensidade", comenta.

 

Ela acredita que a atuação fiscalista de Serra seria mais vigorosa do que a da virtual candidata do governo. Por outro lado, a economista pondera que a administração de atual ministra da Casa Civil poderia reduzir as despesas públicas, pois o secretário Nelson Barbosa afirmou recentemente que os salários do funcionalismo atingiram um patamar razoável no governo Lula, o que abre um cenário de menores despesas com aumentos dos vencimentos de servidores federais nos próximos anos.

 

Para Zeina, um efeito positivo da adoção de uma política fiscal anticíclica robusta pelo próximo presidente é a redução dos juros reais, que devem ficar abaixo do atual patamar de 5,63% num horizonte de cinco anos. "Mas para que seja confirmada a trajetória de queda dos juros reais é necessário também a implementação de reformas estruturais pelo próximo presidente da República, como a da Previdência Social e tributária", disse.

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