Analistas recomendam aplicação de baixo risco

As oscilações do mercado financeiro neste ano são tão expressivas que mesmo os analistas de investimento mais experientes estão evitando recomendar aplicações de risco. Alguns analistas são capazes de apostar que as ações brasileiras estão muito baratas para o padrão histórico, mas ninguém diz que o fundo do poço já foi alcançado. O risco, que já era grande por conta dos problemas do Brasil, passou para imponderável, diante da crise de confiança que atingiu o mercado acionário nos Estados Unidos.Diante do aumento substancial do risco, os analistas recomendam a proteção nos títulos mais seguros: renda fixa concentrada no curto prazo. O melhor ativo neste perfil é o fundo DI (pós-fixado), mas somente se a carteira estiver mesmo concentrada no curto prazo, com papéis que vencem na média em 30 dias. Alguns analistas recomendam até caderneta de poupança, mesmo reconhecendo que este investimento está longe de figurar entre os mais rentáveis.Acompanhe abaixo os principais comentários dos analistas ouvidos pela Agência Estado para cada tipo de investimento. Vale destacar que todas as opções são válidas, dependendo se o investidor está privilegiando rendimento, risco ou liquidez. Por isso, vale acompanhar todos os comentários para poder escolher a melhor composição de investimentos.É importante destacar que um bom investimento, neste momento, pode ser a aplicação mais conservadora para quem não aceita riscos. Mas que é possível compor um potencial de maiores ganhos se o investidor arriscar relativamente pouco, algo como 5% ou 10% de seu patrimônio. Lembre também que toda a troca de investimento é penalizada pelo pagamento de uma CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).Fundos de renda fixa e DI (pós-fixados)São as opções mais seguras, considerando o nível de rendimento que oferecem e a liquidez diária. Por conta da adoção do modelo de marcação a mercado, podem apresentar perdas, quando as taxas de juros exigidas pelos investidores sobem. Estas perdas podem ser maiores no caso dos fundos que carregam mais títulos de longo prazo e prefixados. Desta forma, para quem deseja liquidez diária e rentabilidade mais segura, o melhor é ficar nos fundos DI, com juros pós-fixados, e que trabalhem com títulos de prazo curto (na média, até 30 dias). O risco e o potencial de ganho aumentam à medida que os prazos médios dos títulos ficam mais longos. Roseli Machado, diretora da Fator Administradora de Recursos, avalia que as perdas dos fundos de renda fixa e DI em junho e julho vão ser recuperadas nos próximos meses, desde que o administrador não tenha vendido os papéis mais longos.No caso dos prefixados, vale o mesmo raciocínio. Os fundos que têm títulos com prazo mais longo são os mais arriscados. Além disso, estas carteiras carregam um risco adicional em relação aos pós-fixados, porque não acompanham uma eventual alta dos juros. Como o momento é de crise, as operações prefixadas estão pagando bem, mas não se sabe se no futuro isso será pouco. Veja também a nota sobre CDB para entender os juros no longo prazo."Para o investidor que está preocupado com os ganhos em reais, recomendamos ficar em fundos de investimento DI (pós-fixados), que concentrem aplicações em títulos de curto prazo", diz Dawber Gontijo, estrategista-chefe do HSBC Investment Bank."Quem já está em fundo DI, mesmo que com prazos mais longos, não deve trocar, se tiver paciência para recuperar perdas no longo prazo", diz Márcia Dessen, consultora de investimentos. Os fundos mais longos estão pagando juros da ordem de 25% ao ano, contra 18% ao ano de fundos com títulos mais curtos, explica. Logo, quem aceita mais risco está recebendo maior ganho.CDB (Certificado de Depósito Bancário)Muita gente preferiu os CDBs depois que os fundos de renda fixa e DI começaram a poder sofrer perdas. Vale lembrar, no entanto, que esta segurança dos CDBs é ilusória. Estes títulos também "perdem" valor quando os juros sobem, especialmente os prefixados, só que o investidor não fica sabendo disso porque este valor não é publicado em qualquer lugar.Se precisar vender seu título para o banco num resgate antecipado, o cliente então vai perceber que também perdeu dinheiro. Desta forma, a primeira dica sobre os CDBs é entender que não se deve optar por este título apenas porque eles não oscilam como os fundos de investimento.O segundo ponto é verificar se a compra deve ser por um título prefixado ou pós-fixado. Novamente, os CDBs prefixados carregam maior risco, embora também carreguem maior possibilidade de ganho. Assim, quem acha que o Brasil vai superar a crise e que os juros estão muito altos, pode escolher um CDB prefixado. E procurar um banco de sua confiança, uma vez que este título é garantido apenas pelo banco emissor. Nos fundos de investimento, o risco é diluído em muitos títulos.Por último, o investidor deve ficar atento a dois aspectos da estrutura de taxa de juros. Primeiro, os pequenos e médios investidores sempre recebem juros menores do que os grandes. Na última sexta-feira, por exemplo, para aplicações de um mês, os pequenos investidores recebiam juros de 15%, os médios de quase 17%, e os grandes de 18,85% ao ano. Segundo, os juros mais expressivos são pagos para clientes que aceitam tomar o risco por prazos longos. Um investidor de grande porte, que recebe os tais 18,85% ao ano para aplicação de 30 dias, sobe seu ganho para 24% ao ano numa aplicação de seis meses, e para 28% ao ano, para aplicação de um ano, lembrando que essas são taxas que apenas os grandes aplicadores recebem.PoupançaA caderneta rende juro de apenas 0,5% ao mês, mais a variação da TR (Taxa Referencial). É um juro baixo, que eventualmente tem ficado abaixo da inflação, especialmente nos momentos que os preços avançam mais. Como rendimento, está longe de ser atraente. Tem sido, no entanto, recomendada para os investidores absolutamente conservadores, que não aceitam perdas nominais em sua aplicação, mesmo que temporárias. E também para aqueles que temem uma mudança nas regras de investimento de outros ativos, no caso de haver um alongamento de prazos da dívida pública. Algumas pessoas acreditam que a poupança não seria novamente mexida pelo governo, como foi no Plano Collor.Ações e fundos de açõesA Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) já caiu 32% este ano. Depois das expressivas quedas, as ações carregam hoje o maior potencial de ganho do mercado financeiro. Mas ninguém arrisca dizer que não haverá maiores perdas neste segmento, principalmente por conta da crise de confiança que atingiu o mercado norte-americano. E ninguém sabe ao certo quando o mercado vai se recuperar nem qual é o fundo do poço, alerta Jorge Simino, diretor da Unibanco Asset Management. O risco, portanto, está muito alto neste segmento.Somente deve investir em ações quem aceita perdas expressivas e não tem prazo de resgate definido. E mesmo assim a escolha precisa ser criteriosa, evitando empresas que sofram mais com a crise. O melhor é se aconselhar com um analista de investimentos que tenha um bom histórico de acerto no passado. Não é recomendável pegar orientação com profissionais pouco experientes.Quem não tem acesso a bons analistas deve entrar em fundo de ações. Neste caso, cuidado redobrado na leitura do regulamento do fundo, para verificar qual a política de investimento do gestor e quais os riscos assumidos. Quem for mais conservador deve aguardar um pouco mais para investir quando o fundo do poço chegar. E quem não for investidor profissional, de grande porte, não deve colocar mais de 20% de seus investimentos em Bolsa neste momento. Alguns analistas são mais conservadores e recomendam no máximo 5% a 10% em ações. "Quando a Bovespa atingir entre 8.500 e 9.000 pontos, quem aceita risco já pode pensar em ganhos, porque os balanços das empresas estão com bons resultados", diz Nicolas Balafas, assessor de investimento da Planner Corretora de Valores. Na sexta, a Bovespa fechou a 9.217 pontos. "As bolsas são para quem aceita perder mais. Neste caso, o investidor deve traçar uma meta e não ficar mudando de posição pelo noticiário do dia-a-dia. A mudança só deve ocorrer se for estratégica", diz Dawber Gontijo.Para Márcia Dessen, quem já está nas bolsas deve ficar, porque somente neste ativo vai ter chance de recuperar perdas. "Pelos preços, é hora de comprar ações, se fosse pensar somente na eleição. Mas tem a crise internacional, que não nos permite saber quando este mercado vai se recuperar", conclui. Roseli Machado, da Fator, recomenda ações de empresas com baixo endividamento e exportadoras.Dólar e fundos cambiaisSinal dos tempos da crise brasileira, a alta do dólar este ano já atingiu 30%. Com a moeda norte-americana custando mais de R$ 3,00, muita gente se questiona se deve comprar dólares ou ativos cambias, com medo de que a alta continue forte. Novamente, o risco é imponderável. Ninguém sabe ao certo até que ponto esta moeda pode subir, uma vez que já ultrapassou todos os limites das previsões razoáveis. Como diz Dawber Gontijo, o dólar está muito caro, considerando o equilíbrio de longo prazo da economia brasileira.Somente deve comprar dólar ou ativos cambiais quem tem dívidas nesta moeda ou pretende viajar para o exterior, diz Márcia Dessen, em coro com os demais analistas. Neste caso, a pessoa estará fazendo um seguro contra altas imponderadas, mesmo sabendo que poderá perder se o valor do dólar recuar. Não se trata, portanto, de alternativa de investimento, mas de alternativa de segurança, e apenas para quem precisa. Vale lembrar que o Brasil pode fazer um acordo adicional com o FMI (Fundo Monetário Internacional), o que reduziria a pressão de alta sobre o dólar, podendo até haver um recuo forte da cotação.Sobre as aplicações em fundos cambiais, é importante destacar que seu rendimento não acompanha necessariamente a evolução do dólar. Isso porque este ativo paga Imposto de Renda de 20%, e a carteira também está sujeita aos ajustes no preço dos títulos por conta de mudanças nas taxas de juros (marcação a mercado), sofrendo, portanto, os mesmos riscos dos fundos de renda fixa e DI.Por último, quem planeja viajar à Europa deve dar preferência para a compra de euro e não de dólar. Desta forma, economiza uma taxa na conversão do câmbio, e, ainda, se defende de uma eventual desvalorização do dólar no mercado internacional. Este movimento de desvalorização do dólar frente ao euro vinha com mais força e agora perdeu o fôlego, mas pode voltar.Imóveis e fundos imobiliáriosImóvel é sempre o porto seguro. Em caso de crise, as pessoas tendem a correr para o ativo. Porém, nem sempre esta opção dá os resultados esperados. O investidor deve analisar então se o preço do imóvel está adequado, pensando no longo prazo, e se pode abrir mão da liquidez, uma vez que vender o ativo pode ser demorado, mesmo no caso de fundo imobiliário.Sobre a rentabilidade, o aluguel paga menos do que os juros atualmente. Seu potencial de valorização é restrito, a menos que haja uma corrida para imóveis. Também é preciso lembrar que o imóvel nem sempre protege de uma crise maior nos mercados financeiros e na economia. Uma recessão muito forte pode representar maior dificuldade para alugar, ou aluguel menor.E mesmo um alongamento dos prazos de resgate dos investimentos, sempre lembrado com um risco que leva as pessoas a investir em imóveis, pode prejudicar muito os investimentos neste ativo à medida que as pessoas não tenham dinheiro para comprar, o que provoca a queda dos preços. Então o imóvel pode trazer uma segurança insuficiente. Fica o exemplo argentino: depois da crise da desvalorização do peso, os preços dos imóveis caíram em muitos casos mais de 50%.

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