Itaci Batista
Uso integral da faixa 6E para as redes de Wi-fi foi aprovado pela Anatel em maio. Itaci Batista

Anatel julga amanhã disputa pelo uso de nova faixa para Wi-fi compatível com 5G

Claro, Tim e Vivo disputam a frequência, junto com coalizão liderada por 19 pequenas empresas e provedores; Anatel quer que faixa seja usada apenas para o Wi-fi, mas operadoras contestam a decisão

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 19h59

BRASÍLIA - A disputa pelo uso de uma frequência que tem potencial de elevar a qualidade da internet fornecida por Wi-fi será decidida na próxima quinta-feira, 10, pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)

De um lado, estão as operadoras Claro, Tim e Vivo, que pedem para que metade da faixa seja reservada para outros fins. De outro, estão 19 pequenos provedores, fornecedores, empresas de tecnologia, associações e até a Oi, que se uniram através da Coalizão Wi-fi 6E.

O caso envolve o espectro de 6 gigahertz (GHz), faixa que é considerada auxiliar do 5G. Quando os consumidores chegarem em suas casas, em vez das redes 5G das operadoras, eles usarão a internet que contrataram para uso residencial. O Wi-fi 6E (em inglês, o “e” vem de enhanced, ou seja, melhorado) promete alta velocidade e baixa latência (tempo entre dar um comando em um site ou app e sua execução). A expectativa é que não haja diferença entre as experiências em casa, com a rede de internet residencial, e as feitas na rua.

O uso integral para redes de Wi-fi foi aprovado pela Anatel em maio. Pela decisão, a utilização foi liberada para uso não-licenciado, o que, em outras palavras, significa gratuito – não será preciso comprar lotes, como ocorre em leilões do 4G, em 2012 e 2014, e 5G, previsto para 2021.

A definição do uso de cada faixa segue padrões internacionais. A Federal Communications Comission (FCC), órgão regulador dos EUA, aprovou o uso de toda a faixa para o Wi-fi 6E, mesmo caminho escolhido pela Coréia do Sul e Chile. A faixa tem um total de 1.200 MHz, que pode ser dividido em sete canais de 160 MHz – como se fosse uma rodovia com sete pistas.

É a primeira vez em 20 anos que uma faixa é liberada para Wi-fi no mundo. As atuais, de 2.4 GHz e de 5 GHz, estão sobrecarregadas. Quem vive em apartamento sabe disso: quando busca uma rede, encontra também as de seus vizinhos. Por causa desse congestionamento, quando um consumidor contrata um pacote de internet de 200 mega, o roteador de Wi-fi oferece uma velocidade bem inferior. É como se fosse um funil: muito sinal para pouca vazão.

Com a aprovação da Anatel em maio, os pequenos provedores se animaram. Juntos, eles são líderes no fornecimento de banda larga fixa residencial, com 30% de participação, e buscam aumentar essa presença com o Wi-fi 6E a partir de 2021. Ainda falta a definição de detalhes técnicos pela Anatel para que novos celulares e computadores possam ser homologados, mas os fabricantes afirmam que os chips para essa tecnologia já estão prontos.

Outros usos

Três operadoras, no entanto, querem reservar metade da faixa para outros fins e recorreram da decisão da Anatel. O caso será analisado novamente pelo Conselho Diretor do órgão regulador nesta quinta-feira, 10, sob relatoria do conselheiro Emmanoel Campelo. As teles argumentam que a agência precisa aguardar, antes de tomar uma decisão, a definição do uso da faixa pela World Radiocommunication Conferences (WRC), o que ocorrerá apenas em 2023.

A coalização Wi-fi 6E reagiu e enviou carta cobrando a manutenção da decisão pela Anatel. “Uma destinação robusta de espectro não licenciado, que leve em consideração as necessidades futuras do País, contribuirá para adoção, pela Anatel, de medidas voltadas a superar o abismo digital existente entre centros urbanos e zonas rurais, e em áreas urbanas mal atendidas. Diversos estudos apontam o enorme potencial do Wi-fi 6E para expandir a conectividade em cidades inteligentes, assim como em áreas mais remotas e carentes”, dizem as entidades.

Muitas vezes alinhada com as maiores operadoras, a Oi se manifestou contra a proposta das teles e pela manutenção da destinação da faixa de 6GHz integralmente para o Wi-fi 6E. Para a empresa, a rediscussão do tema na Anatel é uma tentativa de criar uma “agenda artificial” para o País.

“Esta agenda artificial fará com que este recurso esteja sem uso durante mais de cinco anos até que se tenha terminais e redes, com o gravame da incerteza na adoção desta banda pelo mercado. Portanto, a medida nega à nossa sociedade o acesso imediato de uma tecnologia de banda larga mais barata e acessível, já que hoje há dispositivos, soluções e aplicações com o wi-fi 6E que permitem o uso imediato da faixa”, disse a empresa ao Estadão/Broadcast.

“Atualmente as redes móveis são projetadas para cobertura outdoor (fora de casa). Entretanto, 80% de todas as sessões de dados se dão em ambientes indoor (fechados). A experiência 5G poderá ser degradada pela baixa penetração indoor do espectro destinado ao 5G, sacrificando a experiência do usuário”, acrescentou.

Claro, Vivo e Tim defendem a reserva de metade da faixa para outros fins que não o Wi-fi 6E. Em carta à Anatel, a Vivo diz se tratar de “medida estratégica, que demonstraria o planejamento de médio e longo prazo da Anatel para o tema de espectro, e que permitirá a adaptação do mercado brasileiro de telecomunicações aos futuros cenários”.

Documento da Tim enviado ao órgão regulador cita estudo da chinesa Huawei “no qual há expressa sinalização de que a banda de 6 GHz é essencial para o desenvolvimento sustentável do 5G nos próximos dez anos”. A Claro também apoia a proposta da Vivo e da Tim, mas procurada, não comentou.

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Provedores, fornecedores e big techs se unem na defesa da destinação de faixa para novo Wi-fi

Coalizão pede que Anatel mantenha a decisão de destinar a faixa 6 GHz integralmente para o Wi-fi, para melhorar a qualidade da internet em casas, aeroportos, shoppings e outros ambientes fechados

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 19h59

BRASÍLIA - Para os pequenos provedores, a melhora na qualidade da internet nas casas, aeroportos e shoppings depende da destinação da faixa de 6 GHz para o Wi-fi 6E. O presidente da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (Telcomp), João Moura, afirma que as atuais faixas de Wi-fi são altamente demandadas, inclusive nas periferias, o que degrada o serviço indoor (ambientes fechados).

“Vamos mudar de patamar com o 5G, mas precisamos ter uma comunicação fixa sem fio com qualidade equivalente. Quando o consumidor vier da rua, ele precisa encontrar algo compatível e complementar em casa, que é o Wi-fi 6E”, disse Moura.

A Telcomp é uma dos 19 membros da Coalizão Wi-fi 6E, que reúne entidades de pequenos provedores e empresas como Apple, Amazon, Cisco, Facebook, Google, HP, Intel, Microsoft, Qualcomm, e a operadora Oi, entre outras companhias.

A destinação integral da faixa de 6 GHz permite o uso de sete canais de 160 MHz, algo necessário para o pleno funcionamento da Internet das Coisas e aplicativos de realidade aumentada, diz Moura. Segundo ele, isso permite que centenas de usuários possam usar o mesmo ponto de acesso ao mesmo tempo com qualidade para todos.

O diretor-geral da Associação NEO, que reúne operadores de TV por assinatura, provedores e fornecedores, Alex Jucius, disse esperar que a Anatel tenha “coragem” para tomar uma decisão igual como a do FCC, órgão regulador norte-americano. “Com a destinação da faixa 6 GHz toda para o Wi-fi, será como dirigir numa estrada livre de sete faixas com uma Ferrari, sem limite de velocidade”, comparou.

O vice-presidente de Relações Governamentais da Qualcomm, Francisco Soares, afirma que a empresa já está pronta para fornecer os equipamentos necessários para a faixa. A companhia é fabricante de chips compatíveis com o Wi-fi 6E que serão usados em dispositivos como celulares, computadores e roteadores. Segundo ele, a frequência será essencial para redes corporativas e ambientes como shoppings , aeroportos e estádios.

“O Wi-fi 6E não compete com o 5G, são complementares. A Qualcomm tem tecnologia para ambas as tecnologias, mas o offload (descarga) de dados é feito em grande parte pelas redes de Wi-fi e precisamos de algo compatível com o 5G. Não podemos ter um gargalo no Wi-fi”, afirmou. “Prejudicar a experiência do usuário é algo que não tem sentido.”

Presidente da Federação de Associações de Provedores da América Latina e do Caribe (LAC-ISP), Basílio Perez afirma que o setor está chegando a locais que não eram atendidos pelas empresas de grande porte com velocidades de 100 a 500 mega, mas os roteadores não conseguem oferecer essa qualidade porque as atuais faixas de Wi-fi estão lotadas. “Temos interferências e dificuldades de acesso pela competição de espectro entre apartamentos vizinhos”, afirmou. Para ele, as grandes operadoras estão atuando contra o Wi-fi 6E para não perder mais mercado para os pequenos provedores.

O consultor de espectro da Câmara Brasileira de Economia Digital (Câmara-e.net), Amadeu Castro, afirma que pouco mais de 50% do tráfego de dados ocorre dentro das redes de wi-fi e há estimativas de que o nível atinja entre 60% e 70% no 5G. “Não há razão para esperar”, disse. “Na pandemia, as pessoas estão em casa e fazem grande uso da internet. Um Wi-fi mais rápido e amigável melhora a experiência do usuário nas lojas eletrônicas.”

Hugo Ramos, CTO (chefe de tecnologia) da CommScope para Caribe e América Latina, afirma que o avanço o Wi-fi 6E e do 5G trarão geração de riqueza para a sociedade. Fornecedora de infraestrutura de rede em escala global para operadoras, a empresa foi uma das responsáveis pelas instalações de 4G nos estádios durante a Copa do Mundo de 2014. “O momento é de criação de estradas e vias de conhecimento, não de limitá-los”, afirmou.

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