Anatel
Anatel

Anatel mantém destinação integral de nova faixa para Wi-fi compatível com 5G

Decisão foi contrária ao pedido de Claro, Tim e Vivo, que queriam usar metade da frequência para outros fins; faixa de 6 GHz vai melhorar a qualidade da internet em espaços fechados

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 19h22

BRASÍLIA - A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) manteve a decisão de destinar toda a faixa de 6 gigahertz (GHz) para o uso de Wi-fi. O processo já havia sido aprovado em maio, mas as operadoras haviam entrado com recurso e pediram para que metade da frequência fosse reservada para outros fins.

Em seu voto, o relator, conselheiro Emmanoel Campelo, não acatou o pedido. Ele propôs abertura de consulta pública por 45 dias para discutir as especificações técnicas para o uso da faixa, como potência radiada e densidade espectral. Depois disso, a Anatel poderá homologar os equipamentos para uso do Wi-fi 6E, como celulares e computadores.

O conselheiro citou estudos da Cisco que mostram que o Wi-fi será responsável pelo offload (tráfego) de 71% dos dados do 5G em 2023. No Brasil, segundo esse estudo, o número de dispositivos conectados às redes crescerá 50% de 2018 a 2023, para 755 milhões. Em 2023, a empresa estima que o Brasil terá 23,8 milhões de hotspots (um lugar onde é possível ter acesso à internet), um aumento de 500% em relação a 2018.

“Precisamos reconhecer que a pandemia gerou mudanças nos hábitos dos consumidores, com aumento do consumo de conteúdo de streaming como forma alternativa de lazer e a massiva adoção de modelos de teletrabalho e educação à distância. Isso aumentou o tráfego de dados e transferiu parcela das redes móveis para as redes locais sem fio”, disse. “As redes Wi-fi se mostram cada vez mais essenciais às comunicações no Brasil e no mundo, seja por sua capacidade, custo-benefício e versatilidade”, acrescentou.

O uso da faixa foi alvo de disputa na Anatel. De um lado, estavam as operadoras Claro, Tim e Vivo, que pediam para que metade da faixa fosse reservada para outros fins. De outro, estavam 19 pequenos provedores, fornecedores, empresas de tecnologia, associações e até a Oi, que se uniram através da Coalizão Wi-fi 6E.

O espectro de 6 GHz é considerado auxiliar do 5G. Quando os consumidores chegarem em suas casas, em vez das redes 5G das operadoras, eles usarão a internet que contrataram para uso residencial. O Wi-fi 6E (em inglês, o “e” vem de enhanced, ou seja, melhorado) promete alta velocidade e baixa latência (tempo entre dar um comando em um site ou aplicativo e sua execução). 

A expectativa é que não haja diferença entre as experiências em casa, com a rede de internet residencial, e as feitas na rua. A faixa tem um total de 1.200 MHz, que pode ser dividido em sete canais de 160 MHz - como se fosse uma rodovia com sete pistas.

Primeira vez

A definição da Anatel seguiu a da Federal Communications Comission (FCC), órgão regulador dos EUA, que também aprovou o uso de toda a faixa para o Wi-fi 6E, mesmo caminho escolhido pela Coreia do Sul e Chile. Na Europa, a decisão da World Radiocommunication Conferences (WRC) deve sair em 2023, mas para as Américas, a perspectiva é até 2027 - as operadoras queriam que a Anatel aguardasse essa discussão.

“Embora entenda que as proposições alinhadas ao arranjo europeu não necessariamente busquem a reforma da decisão (da Anatel), mas o sobrestamento e o estabelecimento das condições de uso da faixa de 6 GHz, considero que tal paralisação se mostraria injustificada, pois poderia impor a necessidade de aguardar até 2027 sem qualquer sinalização em âmbito internacional afeto às Américas”, afirmou.

É a primeira vez em mais 20 anos que uma faixa é liberada para Wi-fi no mundo. As atuais, de 2.4 GHz e de 5 GHz, foram destinadas para o Wi-fi em 1999 e estão sobrecarregadas. Quem vive em apartamento sabe disso: quando busca uma rede, encontra também as de seus vizinhos. Por causa desse congestionamento, quando um consumidor contrata um pacote de internet de 200 mega, o roteador de Wi-fi oferece uma velocidade bem inferior. É como se fosse um funil: muito sinal para pouca vazão.

Com a manutenção da decisão, a Anatel atendeu ao pedido dos pequenos provedores, que, em conjunto, são líderes no fornecimento de banda larga fixa residencial, com 30% de participação, e buscam aumentar essa presença com o Wi-fi 6E a partir de 2021. Os fabricantes afirmam que os chips para essa tecnologia já estão prontos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.