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Anatomia de um rumor

Levy fica, mas dados os elementos em jogo, a conversa de sua saída só deve hibernar

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2015 | 05h00

A presidente Dilma Rousseff encerrou ontem, pelo menos por algum tempo, especulações sobre a substituição do ministro da Fazenda de seu governo. Na Turquia, onde participava da reunião de cúpula do G-20, Dilma anunciou que Joaquim Levy fica, desarmando uma conversa já antiga, que tem ido e voltado em meses recentes e ganhara vida mais intensa nos últimos dez dias. Segundo o rumor que temporariamente voltou a hibernar, o ex-presidente Lula, depois de muita insistência, finalmente teria conseguido emplacar Henrique Meirelles, o ex-presidente do Banco Central em seus dois mandatos, na Fazenda.

Considerando que esse tipo de zunzum não costuma sobreviver sem a presença de algumas condições próprias que lhes deem sustentação, é o caso de averiguar porque esse enredo resiste a sair de cena. Fica claro, quando essa investigação é feita, que existem bases para alimentá-lo, apesar de a troca de Levy por Meirelles, especificamente, ter se mostrado sempre bem improvável. Razões de fundo – econômicas e políticas – se combinam com elementos comportamentais – estilos pessoais de relacionamento e perfis de personalidade – para favorecer a narrativa.

Levy, seja quais forem as circunstâncias atenuantes, não está conseguindo entregar o que estava previsto no seu “contrato”. Sua missão, ao assumir a Fazenda, era a de promover um ajuste fiscal que impedisse a progressão da relação dívida pública/PIB e evitasse a perda do “grau de investimento”. Não entregou esta última e não está conseguindo evitar a outra, não tendo até agora encontrado o caminho para a retomada do crescimento. Não conseguiu, enfim, deixar a marca de esforçado secretário do Tesouro para vestir o uniforme de ministro da Fazenda.

É verdade que seu empenho tem esbarrado no ambiente contaminado pelo programa oposicionista de levar Dilma ao impeachment, o que resultou em boicote ativo no Congresso aos esforços que empreendeu para conter gastos e, antes disso, evitar aumentos de despesas com origem nas “pautas-bomba” aprovadas. Além disso, sua estratégia de promover um ajuste rápido, sem medir, em alguns casos, os impactos sociais dos cortes enfrenta desgastes dentro do próprio governo.

São pontos que embutem outro aspecto capaz de colaborar na disseminação da ideia de que Levy está sempre com um pé fora do governo: faltaria a ele tanto o gosto pelo jogo político, quanto cintura e paciência para jogá-lo. A aprovação no Congresso, mesmo com alterações, do projeto de repatriação de recursos ilegalmente transferidos para o exterior e dos sinais de que, ainda que em menor proporção em relação ao pretendido pelo governo, possa ser aprovado o projeto de renovação da desvinculação de receitas da União (DRU), dá sobrevida a Levy, mas sua taxa de validade continua limitada. Em resumo, ele fica e os rumores de sua saída também.

Resta, ao elaborar a anatomia do rumor, entender as providências que caberiam ao substituto adotar. Na parte substantiva dele, consta a percepção de Lula de que seria preciso substituir Levy para abrir uma agenda de crescimento que começa com o estímulo à demanda via crédito. Trata-se, aparentemente, de uma tentativa de reproduzir agora, na segunda metade da década de 2010, aquilo que deu certo na década de 2000. Algo difícil de compreender porque as condições mudaram muito. Com desemprego, inflação e inadimplência em alta, não é o crédito que está em falta, mas a demanda para ele.

Parece muito claro que, além de tentar reunir condições políticas para corrigir distorções fiscais estruturais, os esforços de retomada do crescimento passam por um mínimo reequilíbrio das contas públicas no curto prazo e a construção urgente de um arcabouço básico para dar segurança e estimular os investimentos em infraestrutura. Estes são os únicos para os quais a demanda, no momento, não é problema.

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