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Andando para trás

A evolução do PIB nos últimos trimestres é como subir um degrau de escada e descer dois

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 21h00

Em economia, algumas convenções perderam o sentido. Uma delas diz respeito a como entender um quadro de recessão.

A convenção diz lá que deve ser considerada recessão a evolução negativa do PIB em dois trimestres consecutivos. No caso do Brasil, o avanço do PIB no último trimestre de 2018 (sobre o anterior) foi positivo em apenas 0,1% e o do primeiro deste ano, negativo em 0,2%. Na acumulada desses dois trimestres, a renda nacional a preços constantes de mercado, avisa o IBGE, recuou 0,3%. Mas, pelas tais convenções, essa perda de renda não deve ser considerada recessão, pois não configura queda do PIB em dois trimestres consecutivos. Isso aí é como subir um degrau de escada e descer dois. O resultado geral o que é?

Embora este seja o primeiro PIB negativo no encadeamento de oito trimestres consecutivos; e embora o período de 12 meses até final de março ainda registre crescimento de 0,9%, o fato é que o desempenho da economia, mesmo que esperado, é desolador.

Trata-se de ambiente claro de desaceleração da atividade produtiva. Apesar disso, os prognósticos ainda apontam para um avanço positivo do PIB em todo o ano de 2019, da ordem de 1,2%, conforme esperam as entidades rastreadas pela Pesquisa Focus, do Banco Central.

Na ótica da demanda de bens e serviços, o comportamento mais decepcionante foi o do investimento (Formação Bruta do Capital Fixo), que recuou 1,7% em relação ao último trimestre de 2018, totalizando perda de 4,1% em dois trimestres consecutivos. Como está no gráfico abaixo, apenas 15,5% do PIB foi destinado ao investimento. E queda do volume de investimento projeta queda também da produção futura: se há redução do plantio, há redução da colheita. Para crescer 3% ao ano de maneira sustentável, o investimento deve ser de pelo menos 22% do PIB. Do lado da oferta, também como esperado, o pior desempenho foi da indústria extrativa, que recuou 3,0%.

Para não ficar nessa linguagem sobe e desce de ascensorista, convém examinar as causas desse mau desempenho. Se ficarmos no mais curto prazo, os principais fatores não fugirão dos já martelados há semanas. É a desaceleração da atividade produtiva que ocorre em todo o mundo e, com ela, certa retração nos preços das commodities, de cujo mercado depende o Brasil; é o mergulho na recessão dos hermanos argentinos, que produziram notável impacto sobre as exportações brasileiras de manufaturados; e é o alastramento do pessimismo em relação à política econômica do governo, especialmente quanto à aprovação das reformas.

Mas podem estar atuando aí forças de maior abrangência, como observou a economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, em coluna publicada nesta quarta-feira pelo Estado. Ela sugere que possa estar em curso um ciclo de estagnação secular global, com impacto também no Brasil. A ideia tem sido aventada pelo ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos Larry Summers.

Monica identifica sinais de que a economia brasileira está mergulhada numa espécie de estado catatônico. Entre eles, o baixo crescimento do consumo das famílias, o alto nível de endividamento (que bloqueia o avanço do crédito) e incertezas que inibem o investimento. Esse pequeno desempenho fomenta o baixo-astral de corações e mentes, prostração que também impede o deslanche.

O que fazer para garantir uma virada, mesmo num ambiente adverso de longo prazo? Em primeiro, não atrapalhar os dois setores que vêm nadando contra a corrente: petróleo e agronegócio. Em segundo, agilizar projetos de infraestrutura, contando especialmente com a abundância de capitais externos, sempre prontos a acorrer ao Brasil, desde que haja clareza nas regras do jogo e vontade política. Mas aí entram em jogo fatores fora do âmbito econômico propriamente dito, especialmente os da macropolítica.

 

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