Andrade tenta virar a página da Lava Jato

Empresa conquista dois novos contratos e reduz estrutura para se ajustar à receita menor

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2016 | 06h00

O sócio-fundador da Andrade Gutierrez, Gabriel Andrade, costumava dizer que o segredo de sucesso do grupo estava na confiança que a empresa inspirava nas pessoas – e no mercado. “Desde o início, buscamos apostar em pessoas de boa índole e com muita vontade de aprender”, disse o empresário, em vídeo de comemoração dos 65 anos da empresa, no fim de 2013. Mas, nos últimos dois anos, com o envolvimento do grupo na Operação Lava Jato e a prisão de importantes executivos da companhia, essa filosofia se perdeu.

O mercado já não tem mais tanta confiança na empresa, cuja reputação – comemorada por Gabriel Andrade, único dos fundadores ainda vivo – ficou bastante arranhada com o escândalo. Hoje, com a queda de receitas e a carteira de obras minguando, a empresa tenta se adequar à nova realidade. A ideia é se concentrar nos negócios de construção, que são a origem da empresa, e reduzir a pesada despesa fixa do grupo.

Em dois anos, a Andrade Gutierrez enfrentou um turbilhão de problemas, a maioria causada pela própria gestão da empresa, como é o caso da Lava Jato. O escândalo trouxe enormes prejuízos, fechou o mercado de crédito para o grupo e escancarou práticas de corrupção por parte dos executivos dentro da holding. A isso, juntam-se questões macroeconômicas, como a crise interna do País, e o fim das obras dos eventos esportivos (Copa e Olimpíada). 

A combinação desses fatores derrubou o volume de projetos da empresa em R$ 8 bilhões e continuará tendo reflexos negativos. Em 2014, a carteira de obras da empreiteira somava R$ 30 bilhões; no ano passado, esse valor caiu para R$ 25 bilhões; e em março deste ano, estava em R$ 22 bilhões, segundo a agência de classificação de risco Fitch Ratings.

Nas últimas semanas, no entanto, a companhia mineira, criada em 1948, teve um sopro de otimismo: conquistou dois novos contratos. O maior deles, de cerca de R$ 2 bilhões, será para construir as linhas de transmissão que a elétrica Equatorial acabou de arrematar no leilão no fim do mês passado. O outro, de pouco mais de R$ 100 milhões, é para duplicar uma estrada no interior de São Paulo. Fontes afirmam que para conseguir os contratos, a empresa teve de oferecer um preço bem abaixo da média de mercado.

As duas obras, porém, não resolvem o problema da empresa, cuja carteira total deve cair 26% neste ano. Por outro lado, a notícia tem um efeito psicológico importante dentro da empresa e no mercado. “O ambiente operacional ainda é muito ruim. O grande desafio é conquistar novas obras”, afirma o diretor sênior da Fitch, Mauro Storino.

Outra esperança é que, com o acordo de leniência fechado em maio, as negociações para retomar a prestação de serviço para a Petrobrás avancem de forma mais rápida. A estatal já admitiu que estuda a reintegração de algumas empresas investigadas pela Lava Jato ao seu quadro de fornecedores. Uma delas seria a Andrade Gutierrez, que fechou acordo para pagar multa de R$ 1 bilhão parcelado em 12 anos.

Mas enquanto a retomada de mercado ocorre a passos lentos, a empresa tenta adequar o custo fixo à nova realidade da companhia. Como toda empresa em crise, o primeiro ajuste ocorreu na folha de pagamento. Desde o início da Lava Jato, o grupo já cortou 30% do quadro de funcionários, seja na área administrativa ou nas obras. 

Agora chegou a fase de enxugamento da infraestrutura física. Com unidades em três capitais (Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo), o grupo começou a reduzir a do Rio e aumentar a de São Paulo, considerada mais barata. A área de engenharia esta sendo transferida para a capital paulista, que até então abrigava apenas a área comercial. Os andares que forem sendo desocupados no prédio do Rio serão devolvidos à imobiliária. 

Paralelamente, o grupo tenta diminuir outros gastos mais básicos. Se um assunto pode ser resolvido por conference call, por exemplo, os pedidos de viagens são recusados. Ainda assim, a organização sofisticada da construtora, que está entre as duas maiores de País ao lado de Odebrecht, é difícil de enxugar. A companhia detém uma série de certificados de qualidade para participar de obras que demandam uma estrutura muito pesada, afirmam fontes próximas da empresa.

Venda de ativos. Outra estratégia da empreiteira é reforçar o caixa com a venda ativos considerados não estratégicos. No começo do mês, a Andrade anunciou a venda da Aguas de Bayóvar, no Peru, por US$ 45,7 milhões. Na ocasião, a companhia afirmou que a venda faz parte do plano da Andrade de dar ao grupo liquidez com o desinvestimento em ativos fora do seu core business.

Fontes afirmam que o diretor financeiro do grupo, Ronnie Vaz Moreira, tem conversado com potenciais interessados em ativos da Andrade. Mas, ao contrário de outras empresas investigadas na Lava Jato, a Andrade – que não quis se pronunciar – não está disposta a vender seus ativos a qualquer preço. 

Depois de sair da Oi, em 2015, a empresa pode se desfazer da participação no estádio do Beira Rio (RS) e até da sociedade na Cemig, se houver proposta boa. Por ora, o grupo não abre mão da fatia da companhia rodoviária CCR, considerada um dos melhores ativos da holding. Mas, como dizem no mercado, tudo é uma questão de preço.

Vantagem. O acordo de leniência fechado em maio pela Andrade Gutierrez com o Ministério Público pode dar uma vantagem à empresa para sair da crise comparada às demais construtoras. “Foi um passo importante. Agora, além de saber o valor da multa, o risco de a empresa ser considerada inidônea fica praticamente eliminado”, afirma o analista sênior da agência de classificação de riscos Fitch Ratings, Alexandre Garcia. 

Mas, na avaliação dele, a mudança não é imediata nem fácil. “Virar a página será um processo mais lento.” Além de recuperar o mercado de obras, a empresa também precisa retomar a confiança dos financiadores – leia-se bancos. 

Mauro Storino, diretor da Fitch, afirma que se a empresa tivesse de acessar o mercado externo hoje para fazer a rolagem de alguma dívida, ela teria graves problemas. “No atual cenário, fazer uma emissão no mercado internacional já é desafiador para uma empresa brasileira, se for uma empreiteira envolvida na Lava Jato, é pior ainda.” Comparada a outras empresas do setor, o endividamento da companhia não é tão alto. A dívida bruta do grupo é de R$ 5 bilhões (a líquida, e R$ 3 bilhões).

Um ponto negativo para a Andrade é o fato de ela estar presente em países que sofrem diretamente com a queda do preço do petróleo, como é o caso da Venezuela. “Com orçamento menor, esses países reduzem a capacidade de pagamento (de fornecedores e prestadores de serviço). Em consequência disso, as construtoras diminuem o ritmo de obras e o faturamento cai”, afirma Alexandre Garcia.

Para piorar o quadro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não está liberando recursos no exterior para empresas ligadas à Operação Lava Jato. No caso da Andrade Gutierrez, obras que estão sendo tocadas na Venezuela estão em compasso de espera por causa dos atrasos.

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