Anjo

Eles são executivos e empresários bem sucedidos que aplicam dinheiro e tempo em jovens empresas, correndo riscos. Conheça os anjos mais atuantes no cenário brasileiro das startups

MARINA GAZZONI , NAIANA OSCAR , NAYARA FRAGA , O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h08

Agradeça a Andy Bechtolsheim pela pesquisa de cada dia feita no Google. Uma simples busca no nome dele revela um dos maiores feitos desse alemão. Em 1998, ele assinou um cheque de US$ 100 mil para dois estudantes da Universidade de Stanford - na época, os desconhecidos Larry Page e Sergey Brin. O dinheiro serviria para colocar de pé um projeto de laboratório que tinha a pretensão de organizar o caótico mundo da internet.

Quando Bechtolsheim, fundador da Sun Microsystems, fez o investimento, o escritório dos estudantes era uma garagem e a empresa deles ainda não tinha nome. Hoje, o Google vale US$ 199 bilhões. Bechtolsheim é um dos homens mais ricos do mundo. E essa história é o exemplo mais bem acabado do alcance que pode ter um "investimento anjo".

Nos Estados Unidos, existem cerca de 350 mil empresários e executivos que fazem o mesmo que o alemão da Sun Microsystem: tiram dinheiro do próprio bolso para comprar participações em empresas embrionárias, chamadas de "startups". Quem investe é chamado de "anjo" - numa referência aos patrocinadores que se arriscavam bancando peças teatrais na Broadway e ganharam esse apelido na década de 90. Por ser de alto risco, é o tipo de investimento feito por quem pode perder dinheiro.

No Brasil, guardadas as proporções, os anjos vêm ganhando cada vez mais espaço. Segundo uma estimativa da recém criada associação Anjos do Brasil, já existem 5,3 mil investidores desse tipo no País, que têm cerca de R$ 450 milhões aplicados em empresas nascentes. "É um número aproximado porque muitos deles não gostam de aparecer por motivo de segurança", explica Cassio Spina, fundador da instituição e um dos ativistas do investimento anjo brasileiro.

A expectativa dele é que o número de anjos e o volume de recursos aplicados em startups cresçam exponencialmente daqui para frente. Primeiro porque, com a taxa básica de juros em 8% - o menor nível da história -, os investidores são estimulados a correr mais riscos, fazendo aplicações mais arrojadas.

Também é preciso se levar em conta que o número de milionários no Brasil só aumenta. Em 2011, 10 mil novos brasileiros alcançaram um patrimônio superior a R$ 1 milhão. O País vive ainda um boom de startups. Só no ano passado, foram lançadas 2 mil empresas, segundo o Instituto Inovar. "Isso é só o começo", diz um dos anjos mais ativos do País, Paulo Humberg. "No futuro, as pessoas poderão ir a um banco e comprar contas de um fundo que investe em empresas nascentes", diz o empresário.

Embora estejam se tornando cada vez mais populares, os anjos resistem em aparecer, dar entrevistas e falar de investimentos. Nesta página, estão as histórias de alguns dos investidores mais ativos e relevantes do País no momento - resultado de um levantamento feito com dezenas de empreendedores, anjos e estudiosos do setor.

Eles investem principalmente em empresas de tecnologia baseadas na internet - que, em tese, dão retorno mais rápido do que companhias de outros setores. "Os anjos têm preferência por áreas que já dominam e isso acaba virando um ciclo", diz Rochester Gomes da Costa, chefe do departamento de capital semente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Vanguarda. Um dos casos mais antigos de investimento anjo de que se tem notícia no Brasil foi o aporte feito na paranaense Bematech, em 1991. Naquele ano, um grupo de oito empresários locais investiu US$ 150 mil na ideia de dois estudantes de engenharia em troca de 50% de participação na empresa recém criada por eles. Virgílio Moreira Filho, de 53 anos, foi um dos "anjos" da Bematech e até hoje é acionista da empresa e membro do conselho de administração. "Eu dei até mesa e calculadora para os meninos começarem", lembra o empresário que abomina o apelido de "anjo" recebido recentemente. "Eu fiz isso por dinheiro não por caridade", explica. Líder em automação comercial, a Bematech vale R$ 200 milhões - sinal de que Virgílio conseguiu o que queria.

Investir em grupo, como ele e seus amigos fizeram lá trás, continua sendo uma opção frequente para diluir os riscos do negócio - que por aqui são maiores do que nos EUA ou na Europa. "Além de não haver incentivos, faltam mecanismos de proteção aos investidores", diz Antônio Botelho, anjo e autor de várias pesquisas sobre o tema.

Os anjos americanos, por exemplo, ficam isentos de imposto de renda se aplicarem o lucro obtido na venda de uma startup para investir em outra. Eles também têm a garantia de que não responderão por qualquer passivo que a empresa tenha no futuro. No Brasil, os anjos correm esse risco. Por isso, o investidor Anibal Messa, conhecido por ter sido anjo no Buscapé, exige das empresas investidas um seguro para proteger seus bens pessoais. "Se as regras não mudarem, essa moda vai pegar", diz.

Do lado dos empreendedores, também pode haver percalços. "Tem muito anjo diabólico no mercado", diz o empresário Bob Wollheim, que já recebeu investimento anjo. "São pessoas que abusam do poder conquistado com o aporte de capital." Um sinal de que, mesmo quando o dinheiro é "divino", há riscos - nos dois lados do balcão.

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