Alex Silva/Estadão - 12/8/2020
Educação a distância não chega a todos os alunos. Alex Silva/Estadão - 12/8/2020

Ano escolar perdido ameaça renda e produtividade no longo prazo

Temor dos especialistas é que, por falta de estímulo ou por necessidade, jovens abandonem a escola para antecipar a busca por emprego, comprometendo sua qualificação

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 14h00

BRASÍLIA - Oito meses após o fechamento de escolas devido à pandemia do novo coronavírus, a falta de um plano concreto para retomar as atividades escolares acendeu o alerta para as consequências negativas que os prejuízos no aprendizado podem ter sobre a desigualdade de renda e o crescimento futuro da economia. 

No limite, o ano perdido poderia subtrair R$ 1,5 trilhão da renda dos brasileiros em meio século, estima o professor Ricardo Paes de Barros, um dos maiores especialistas em desigualdade do País (leia entrevista completa aqui). O dano seria equivalente a um Bolsa Família por ano.

Um estrago desse tamanho não deve se concretizar porque alguns alunos seguiram tendo algum tipo de atividade remota ao longo de 2020. E mesmo quem foi prejudicado ainda poderá recuperar o tempo perdido. Mas o valor expressivo dá uma ideia do que está em jogo.

Gestores, especialistas em educação e economistas se dividem entre o temor de uma reabertura desordenada e o risco de o déficit no aprendizado aprofundar o abismo salarial já existente entre classes de renda, afetando a produtividade dos futuros trabalhadores. Cada ano adicional de estudo significa maior capacitação e, consequentemente, mais oportunidades e melhores salários.

Para uma parcela de alunos, aulas remotas se tornaram o principal canal de aprendizagem durante a pandemia. Mas a realidade está longe de ser homogênea entre os Estados. Em São Paulo, que tem uma das maiores rendas per capita do Brasil, 5,2% dos alunos do ensino fundamental não tiveram atividade escolar no mês de setembro, segundo dados da Pnad Covid-19 coletada pelo IBGE. No Pará, com menos da metade do PIB per capita paulista, essa proporção é de 39,3%.

A situação se agrava no ensino médio, que abriga os jovens já mais próximos do mercado de trabalho e que, segundo os especialistas, estão mais expostos ao risco de largar a escola para antecipar a busca por emprego. No Pará, 63,9% dos estudantes do ensino médio não tiveram nenhuma atividade em setembro, contra 8,2% em São Paulo.

Economistas reconhecem o risco para a geração que hoje está na escola, mas ressaltam que é possível reverter esse processo. Eles são unânimes em destacar a importância do Ministério da Educação como coordenador do processo de retomada das aulas. 

A avaliação é que será necessário traçar uma estratégia eficaz de recuperação das aulas e do aprendizado, possivelmente direcionando ações a grupos mais afetados ou com maiores dificuldades. Tudo precisaria ser feito respeitando protocolos sanitários.

Desde o dia 23 de outubro, a reportagem tenta obter um posicionamento do MEC. A assessoria de imprensa foi contatada por e-mail, telefone e aplicativo de mensagens em mais de uma ocasião. Não houve resposta aos questionamentos. No fim de setembro, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, declarou ao Estadão que a volta às aulas no País e o acesso à internet pelos alunos não são temas da pasta.

Danos

Nos últimos anos, a estagnação da produtividade brasileira tem sido apontada como um fator para o baixo crescimento do País. A desigualdade de renda havia interrompido o processo contínuo de queda e vinha se ampliando no Brasil. Os efeitos da suspensão das aulas podem potencializar os problemas, embora os especialistas ressaltem que um bom planejamento e um reforço em recursos podem dar conta da tarefa de conter os prejuízos.

O economista Rodrigo Soares, professor licenciado da Universidade de Columbia e professor do Insper, avalia que há risco para os estudantes que estão em “momentos-chave” para a formação e o aprendizado, como aqueles em fase de alfabetização. “Os primeiros anos de educação formal são muito importantes para estabelecer uma base para o que será desenvolvido posteriormente”, afirma.

“Prejudicando esses momentos chave, é possível acabar afetando os anos totais de escolaridade que essa criança venha a ter. É possível que ela acabe tendo menos anos de estudo, menos probabilidade de ir à faculdade, e tudo isso está relacionado à competitividade no mercado de trabalho”, avalia Soares.

As diferenças socioeconômicas também podem ser ainda mais determinantes para o aprendizado – ou a falta dele – no período da pandemia. O nível de renda da família e até sua localização geográfica influenciam a qualidade da conexão de internet, por exemplo. Dados da Anatel de 2019 mostram que 3,4 milhões de brasileiros vivem em áreas sem qualquer antena disponível para conexão de dados móveis.

“Claramente vai ter uma queda de aprendizado dos alunos este ano, que vai ser bastante desigual. Você tem alunos pobres, que vão aprender bem menos porque não têm acesso à internet, moram em casas lotadas, os pais não conseguem ajudá-los”, afirma o economista Naércio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

Obstáculos

Mesmo com o diagnóstico do prejuízo escolar já traçado, a falta de um controle mais rígido da contaminação por covid-19 é um obstáculo importante à retomada das aulas. Como mostrou o Estadão, oito em cada dez cidades ouvidas pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) não veem condições sanitárias para reabrir as escolas.

O economista Arnaldo Lima, diretor de Estratégias Públicas da MAG Seguros e ex-secretário de Educação Superior do MEC, lembra que as salas de aula no Brasil têm um número médio de alunos maior que os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). São 23 alunos, em média, no ensino fundamental, e 27, no ensino médio, contra 21 e 23 na média da OCDE, respectivamente.

“Isso prejudica a retomada. Quanto menor o número de alunos, mais fácil é fazer retomada observando os protocolos”, afirma Lima, que reforça o papel estratégico do MEC na discussão. “Seria importante o MEC liderar. Claro que ensino fundamental fica a cargo dos municípios, e o ensino médio com os Estados, mas a educação federal tem função suplementar e de coordenação”, avalia.

A questão do uso da tecnologia no ensino também precisa ser discutida, na visão de especialistas. “É preciso que a inclusão digital deixe de ser um serviço para se tornar um direito fundamental”, defende o doutor em Educação Gregório Grisa, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS)

A medida se torna ainda mais imperativa porque, em sua avaliação, o ensino remoto continuará acompanhando os alunos durante um bom tempo diante da dificuldade do Brasil em conter a pandemia. “É urgente reabrir as escolas, mas se até agora não se conseguiu fazer o básico, a tendência é ter um retorno improvisado”, alerta Grisa.

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Concluir o ensino médio pode garantir R$ 212 de renda extra

Chamado de 'efeito diploma', cálculo considera alta de rendimento com conclusão do ciclo; especialistas cobram ação coordenada de governos

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 14h00

BRASÍLIA - O risco de aumento na evasão de alunos no último ano do ensino médio devido à suspensão das aulas durante a pandemia da covid-19 ameaça um importante fator que assegura a esses jovens uma renda maior no emprego. Trata-se do “efeito-diploma”, que garante sozinho um incremento médio de R$ 212 no rendimento mensal a quem tiver o certificado do ensino médio na mão, segundo estimativas do economista Naércio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

Até a conclusão do ensino médio, cada ano adicional de estudos é capaz de assegurar um incremento médio de R$ 70 à renda. Mas os anos de conclusão de fases da educação básica têm maior peso, por isso o chamado “efeito-diploma”. No ensino superior, o impacto é ainda mais expressivo e capaz de dobrar a renda média do trabalhador.

evasão escolar já era maior entre jovens de 15 a 17 anos antes da pandemia. Com a crise e a necessidade de complementar a renda da família, especialistas temem que a suspensão das aulas presenciais tenha significado para os mais vulneráveis desse grupo o abandono em definitivo dos estudos. Por um momento, esses jovens não só deixarão de usufruir do “efeito-diploma”, mas também ficarão longe da porta de entrada do ensino superior.

“Quando você fecha escolas durante todos esses meses, provavelmente alguns jovens não vão voltar, então vão ter menos anos de escolaridade. E isso significa menos produtividade, menos crescimento do PIB”, afirma Menezes Filho.

Exemplo dos EUA

O economista cita um estudo feito por economistas americanos sobre a epidemia de poliomielite em 1916 nos EUA, que teve mais de 23 mil infectados e também levou ao fechamento de escolas. O artigo concluiu que jovens entre 14 e 17 anos na época da doença chegaram a 1940 com menor escolaridade do que a geração anterior. O efeito seria equivalente a um adolescente de 14 anos ter um ano a menos de educação formal.

Para ele, a mesma lógica na situação atual não deve resultar em um efeito dramático, uma vez que os jovens podem cursar no futuro um ensino técnico ou supletivo para compensar as perdas. “Mas certamente algum efeito vai ter. A geração que está na escola agora vai ter mais desigualdade, porque os mais ricos estão tendo aprendizado muito mais atualizado no dia a dia do que os mais pobres, que não têm internet”, afirma.

O doutor em Educação Gregório Grisa, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), defende que os governos façam uma busca ativa dos alunos que são mais vulneráveis e apresentam maior tendência de abandonar a escola na situação atual. A ideia seria justamente rastreá-los para trazê-los de volta ao ambiente escolar. “Não há como não ter diálogo. Os secretários (estaduais e municipais) de Educação são parte do processo, mas não exclusiva. Tem de ter a saúde, a educação (MEC) e outros setores envolvidos”, afirma Grisa.

“A nossa dificuldade é articulação. A gente não tem planejamento estratégico junto a Estados e municípios independente de ciclos políticos”, critica o economista Arnaldo Lima, diretor de Estratégias Públicas da MAG Seguros e ex-secretário de Educação Superior do MEC. Para ele, é preciso traçar um plano de recuperação das aulas, que inclua até mesmo o uso de redes de rádio e TV para chegar a localidades sem conexão à internet.

Em Portugal, até o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, professor de formação, gravou videoaulas transmitidas pela emissora pública de televisão. “O efeito de longo prazo da perda de aprendizado em determinado momento pode ser danoso”, alerta Lima.

Esforço 

A expectativa de Janaina Santos Silva, de 17 anos, era ingressar na faculdade ainda no segundo semestre deste ano para estudar Relações Internacionais. A pandemia atrapalhou os planos da jovem, que não pode contar com a opção de fazer aulas online para tentar uma bolsa de estudos ou faculdade pública. Também sem conseguir um emprego para pagar a faculdade, o sonho do diploma precisou ficar para depois.

“Ano que vem, eu dependo do Sisu e do ProUni para entrar na faculdade”, diz a jovem, que se formou no ensino médio no ano passado. Moradora da Penha, bairro da zona Leste de São Paulo, ela tem dividido as horas no computador entre terminar o trabalho de conclusão do curso técnico de administração e estudar por conta própria para o Enem

Ela tentou se inscrever em cursinhos populares, mas as vagas limitadas e a falta de uma estrutura adequada para estudar foram obstáculo. “As aulas são todas online e, com a pandemia, ficaram mais disputadas. Além disso, o ambiente em casa não é muito propício para os estudos e, com isso, acabo me desconcentrando fácil.”

Atualmente, Janaina mora com os pais e mais duas irmãs. “Temo que o esforço não seja o bastante e eu acabe por não conseguir uma vaga com o Enem. Nesse caso, só vou começar a faculdade quando arrumar um emprego.” / COLABOROU MAIARA SANTIAGO

 

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‘Educação remota afeta ainda mais os vulneráveis’, diz Paes de Barros

No combate à pandemia, governo deveria, eventualmente, ‘fechar a economia e abrir as escolas’, diz especialista

Entrevista com

Ricardo Paes de Barros, professor do Insper

Idnana Tomazellli, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 14h00

BRASÍLIA - O governo deveria centrar esforços no controle da pandemia do novo coronavírus para criar as condições necessárias à reabertura das escolas, afirma ao Estadão/Broadcast o economista Ricardo Paes de Barros, professor do Insper, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e um dos formuladores do programa Bolsa Família: “Não adianta fazer a economia voltar e manter escolas fechadas. Eventualmente, tem de fazer o contrário, fecha a economia e abre as escolas.”

Segundo ele, é preciso criar incentivos, inclusive financeiros, para que jovens de famílias mais carentes voltem às aulas em vez de engordar estatísticas de evasão escolar. Ao mesmo tempo, será necessário reforçar a oferta de professores para ampliar a assistência aos alunos e recuperar o tempo perdido. Se nada for feito, o prejuízo no aprendizado pode impactar a renda do estudante em até R$ 70 mil ao longo de sua vida. Em caso de abandono dos estudos, o prejuízo chega a R$ 400 mil para ele e a sociedade. 

Leia os principais trechos da entrevista:

As escolas estão fechadas há oito meses, há uma disparidade nos Estados sobre o acesso dos alunos a atividades remotas. Qual é o impacto disso na economia e na desigualdade?

Não tem como ter essa educação remota, em certo sentido improvisada, durante oito meses. É impossível achar que não vai ter consequências graves. Os alunos vão aprender menos, a chance de evadir é maior, e tudo isso acontecendo de uma maneira extremamente desigual, porque esse esforço meritório de educação remota requer um apoio da família em termos de recursos digitais, espaço, lugar para estudar, tempo para estudar. Vai ser uma perda grande e desigual. 

E qual é o tamanho da perda?

A gente só vai saber na hora em que começar a medir o que aconteceu com o aprendizado à medida que os alunos voltarem. Agora, a principal preocupação é o cara voltar para a escola. Se não voltar para a escola, a perda é gigantesca. Num trabalho que fizemos no Insper junto com a Fundação Roberto Marinho, a gente calcula que cada jovem que não voltar para a escola é um prejuízo de R$ 400 mil para ele e para a sociedade brasileira. Não é o que ele perdeu este ano, mas o que ele vai perder também nos próximos anos por ter saído da escola. É uma perda gigantesca de PIB, de renda, de empregabilidade e de tudo que a educação traz, desde menos violência a melhores condições de saúde.

Quem está mais exposto?

Quem tem mais risco de não voltar para a escola são os mais pobres, os mais vulneráveis, e quem se beneficiou menos da educação remota foram os mais pobres e mais vulneráveis. Então tudo é muito desigual, uma perda muito grande, mas tem uma prioridade. Primeiro, garantir que todo mundo volte. Segundo, recuperar a perda de aprendizado. A pior coisa que a escola pode fazer é naturalizar essa perda de aprendizado. A gente deveria estender, por exemplo, o terceiro ano (do ensino médio) e segurar os jovens que não aprenderam tudo que deveriam, porque ensinar para eles é mais importante do que eles entrarem no mercado de trabalho.

O público do terceiro ano é justamente o que está no maior risco de evasão, muitos precisam ajudar a família. Como garantir que ele não só volte, mas fique mais um ano na escola? É preciso algum incentivo?

Custa R$ 400 mil (o abandono escolar). Qualquer incentivo que a gente der para eles é mais do que bem-vindo. O governo está gastando R$ 600 bilhões, deixando de arrecadar R$ 200 bilhões (em 2020). Faz todo o sentido uma bolsa de estudos para todos os jovens pobres se manterem na escola. É um dos melhores incentivos que o Brasil pode fazer para o próximo ano. Mas não adianta manter ele na escola se a gente não tiver um programa de ensinar para ele, acelerar o aprendizado. A solução mais evidente são tutorias, turmas com poucos alunos. É preciso entender no detalhe o que ele sabe, o que não sabe e ajudar. Isso requer uma relação de número de alunos por professor muito baixa, é quase uma tutoria individualizada.

Isso implica contratação, horas adicionais dos professores? Como seria feito?

Vai envolver os professores trabalharem mais horas, afinal estamos nos recuperado de uma pandemia. Gastou-se mais com o auxílio emergencial, nós vamos ter que gastar agora com educação.

Tem uma pressão grande sobre governadores e prefeitos para reabrir escolas, alguns tentaram e voltaram atrás, mas há ainda grande temor. Como conciliar isso?

A única maneira de fazer isso é reduzir o número de mortes, reduzir a transmissibilidade. Enquanto o Brasil tiver o número que mortes que tem hoje, vai ser impossível voltar seriamente com as escolas. Só vai voltar para fechar de novo. Não adianta fazer a economia voltar e manter escolas fechadas. Eventualmente tem que fazer o contrário, fecha a economia e abre as escolas, que parece ser o que alguns países europeus estão fazendo. É mais importante abrir as escolas do que abrir a economia. O direito à vida está em primeiro lugar. O Brasil tinha que ter no máximo 200 mortes por semana. Aí poderia sair de uma propagação comunitária, avaliar cada morte para saber de onde veio e tomar as medidas para evitar transmissão, que é o que a Alemanha fez. Depois disso pode começar a falar em abrir as coisas. 

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