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Ano novo, governo novo e os velhos problemas

O investidor brasileiro já deu o benefício da dúvida a Bolsonaro; o estrangeiro, não

Paulo Leme, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2019 | 05h00

Tal como num grande jogo de Copa do Mundo, depois de muita espera e expectativa, o time do novo governo Bolsonaro finalmente entrou em campo. Agora, a prioridade é ser construtivo e contribuir para que os brasileiros sejam os grandes vencedores destes quatro anos de governo. 

Tendo sido um analista de mercado por tantos anos, é inevitável querer prever o futuro da economia e dos mercados financeiros no Brasil em 2019. No entanto, não só é prematuro fazê-lo como ainda não temos os dados necessários para traçar um prognóstico confiável. Ainda há muita incerteza no plano político, já que é difícil prever se Bolsonaro será capaz de implementar o profundo ajuste fiscal e as reformas estruturais que são necessárias para estimular o crescimento econômico. 

No entanto, já sabemos o suficiente para recomendar que os leitores não comecem o ano vendidos no “kit Brasil”. O investidor não deveria apostar na queda do Índice Bovespa, na desvalorização do real e no aumento do risco país. Uma maneira de reconciliar otimismo com cautela é comprar opções (calls) fora do dinheiro para bolsa e câmbio. Uma call confere ao investidor o direito de comprar um ativo (como o Ibovespa ou o real) caso seu preço exceda o valor de exercício da opção. 

A lógica dessa estratégia é simples. Os preços dos ativos brasileiros não só não estão baratos como precificam uma probabilidade alta de que o programa econômico dará certo, o que é muito otimista dado os desafios políticos que o governo enfrentará. O investidor brasileiro já deu o benefício da dúvida ao governo Bolsonaro; o estrangeiro ainda não. A Bolsa só continuará a subir caso o governo aprove as reformas no Congresso e o PIB cresça para poder alavancar o lucro e os múltiplos das empresas.

A razão principal para o otimismo do mercado é a qualidade e a orientação liberal da equipe econômica. O seu objetivo é equilibrar as contas do governo, reduzir o tamanho do Estado e permitir que as forças do mercado e do empreendedorismo do setor privado reorganizem a combalida economia brasileira para que ela volte a crescer. O que é positivo da equipe é que ela não depende de um ou dois craques. A equipe é composta por profissionais renomados e com ampla e valiosas experiências no mercado financeiro, setor privado e governo. Além disso, a equipe econômica inclui especialistas justamente nas áreas que exigirão as reformas estruturais mais difíceis, como a previdenciária, tributária, trabalhista e abertura ao comércio exterior. 

Já que estou otimista com a equipe econômica do governo Bolsonaro por que então não apostar todas as fichas no mercado financeiro logo no início do ano? Minha cautela se deve a um problema externo crescente e a três desafios domésticos. O maior desafio externo é que os mercados de renda fixa e variável no exterior terão um desempenho ruim em 2019: retorno esperado baixo, volatilidade alta e episódios frequentes de redução pelo apetite por risco. 

O maior desafio doméstico será a dificuldade para um governo com minoria parlamentar conseguir aprovar as reformas e o ajuste fiscal – ajuste este que pode vir a ser recessivo no curto prazo. O segundo desafio será calibrar corretamente a velocidade e a intensidade do ajuste. Por um lado, sabemos que o ajuste fiscal tem de ser duro e imediato. Por outro lado, o governo Macri demonstra que o excesso de gradualismo numa conjuntura externa mais difícil pode ser fatal. 

O terceiro desafio será a sequência das medidas de ajuste macroeconômico e de reformas estruturais. É importante que o programa econômico inclua medidas que estimulem as exportações e o investimento privado, principalmente para atrair investimento estrangeiro para a infraestrutura no Brasil. Essas medidas abrandariam o impacto recessivo do ajuste fiscal. 

São poucas as semelhanças entre a Argentina e o Brasil e entre os governos Macri e Bolsonaro. Uma delas é o fracasso de ambos países nas últimas duas Copas. Para ganhar a Copa não basta ter grandes jogadores na seleção. É necessário liderança, estratégia, vontade de ganhar e capacidade de execução. Torço para que dê certo. 

*PROFESSOR VISITANTE DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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