Werther Santana/Estadão
Francisco Eduardo Lopes. Desempregado, ex-pedreiro vive nas ruas em SP Werther Santana/Estadão

Anos 2010 foram os piores para PIB no País

Estudo do economista Roberto Macedo indica que a variação média no período foi de 1,39%

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 04h00

A economia brasileira bateu no fundo poço e registrou a menor taxa de crescimento desde 1900 na última década encerrada em 2019. Entre os anos de 2010 e 2019, o Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas produzidas no País, cresceu a um ritmo de 1,39% ao ano. 

O dado consta de estudo do economista Roberto Macedo, da Universidade de São Paulo, ex-secretário de Política Econômica e que foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O levantamento considera que cada década se inicia nos anos terminados em zero e vai até os anos que terminam em nove.

“A década de 2010 foi a pior para o crescimento do PIB entre as 12 analisadas”, afirma Macedo. O desempenho médio anual do período foi menos da metade do registrado na década anterior, iniciada em 2000 (3,39%). Até então, o pior resultado anual era de 1,75% nos anos 90 – época marcada por crises externas e planos fracassados de estabilização.

A crise fiscal, segundo Macedo, foi o principal fator que levou o País à recessão, que começou no segundo trimestre de 2014 e terminou no quarto trimestre de 2016. Desde então, a recuperação tem sido a passos lentos, com avanços do PIB que não saem da casa de 1%.

O fraco desempenho da economia brasileira nos anos 2010 – bem abaixo do crescimento médio do PIB de 155 economias emergentes e em desenvolvimento, que avançaram 5,11% ao ano no mesmo período de acordo com o estudo – mostra sua face mais cruel no número de desempregados e subempregados.

No trimestre encerrado em novembro, a taxa de desocupação era de 11,2%, ou de 11,9 milhões de pessoas, segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. 

“O aumento do número de moradores de rua é uma consequência esperada, com a situação da economia se agravando e o desemprego altíssimo”, observa Macedo. Esse é o caso de Francisco Eduardo Lopes, de 28 anos, que veio do Ceará e há dois anos vive nas ruas da capital paulista. Ele, que cursou até a 7.ª série do ensino fundamental, prestava serviços de pedreiro e pintura e tirava R$ 2 mil por mês com as reformas. Mas desde 2018 não consegue serviço e acabou indo parar num albergue. “Existe preconceito contra quem vive em albergue e é complicado se recolocar, por não ter um endereço fixo.” 

Michel Lopes Kiill, 52 anos, ex-bancário que cursou faculdade de Comunicação e não concluiu, enfrenta problema semelhante. Hoje, ele deve R$ 38 mil para bancos e financeiras e vive num centro que acolhe moradores de rua. “Quando você diz que mora em abrigo, dificilmente alguém te dá emprego.” Em 2015, último censo da Prefeitura apontou que eram 15,9 mil pessoas na rua.

Na última quinta-feira, Kiill e Lopes eram dois dos cerca de 50 moradores em situação de rua em um café da manhã comunitário oferecido na Paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro paulistano da Mooca, na zona leste. Há mais de 30 anos oferecendo a primeira refeição do dia para quem vive na rua, o padre Júlio Lancellotti, vigário da paróquia e da pastoral de rua da Arquidiocese de São Paulo, diz que a maior parte deles é jovem e busca trabalho.

Sem ascensão

“Essa estagnação prejudicou muito as gerações recentes. Percebi que nas gerações passadas havia muita ascensão social, ou seja, o status social dos filhos superava o dos pais. Hoje, isso se inverteu, com os filhos tendo dificuldade de até mesmo manter o status social dos pais”, diz Macedo. 

Para o coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV, Armando Castelar, a retomada de investimentos do País ainda depende da criação de “um ambiente de negócios favorável, no qual os empresários tenham confiança em colocar dinheiro no País”. “O problema maior é a insegurança jurídica, a estrutura tributária muito custosa e incerta. Também a infraestrutura é ruim, do ponto de vista do investidor privado”, afirma.

Colega de Castelar no Ibre/FGV, o economista Samuel Pessôa afirma que, após anos marcados pelo intervencionismo do governo, o País “tomou o caminho certo”. “Hoje, estamos infinitamente melhor do que em 2014. Só que o caminho certo é doloroso. Por isso, a lentidão para ganharmos velocidade no crescimento”, diz ele. “Estamos arrumando a casa sem destruir a macroeconomia. Isso é muito saudável e dá mais solidez.”

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Pior década: o que dizem os economistas

Como os especialistas interpretam o período de baixo crescimento do País

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 04h00

‘É preciso ter um plano estratégico de longo prazo’

Roberto Macedo, professor da FEA/USP, ex-presidente do IPEA

“O Brasil passou por uma recessão de dois anos embutida numa depressão, que já dura cinco, e há 40 anos também passa por uma estagnação. Essa estagnação prejudicou muito as gerações mais recentes. Percebi que nas gerações passadas havia muita ascensão social, ou seja, o status social dos filhos superava o dos pais. Hoje, isso se inverteu, com os filhos tendo dificuldade de até mesmo manter o status social dos pais. Poderíamos crescer mais do que esses hoje tão sonhados 2,5% pelo mercado financeiro, se quem manda no País se voltasse também para essa estagnação, diagnosticando-a com profundidade e procurando solucioná-la. Além de reformas, como as preconizadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e de outras que deveriam ser cogitadas, como as do Legislativo e do Judiciário, o País precisa ter um plano estratégico de desenvolvimento de longo prazo. É preciso pensar num plano que ataque várias coisas ao mesmo tempo. A essência tem de ser o aumento do investimento. Também tem de estimular o avanço tecnológico, melhorar a educação. É preciso ter algo mais arrumado, que capte o investimento estrangeiro, aumente as exportações. As exportações funcionam como investimento, porque, quando se vende produtos para o exterior, gera-se renda dentro do País. Hoje, o debate econômico está excessivamente focado em políticas macroeconômicas de curto prazo, como a fiscal e a monetária, mais voltadas para movimentos cíclicos da economia. É preciso buscar uma tendência sustentável de crescimento. E isso é da esfera do desenvolvimento econômico.”

‘A sociedade não tem clareza para onde vamos’

Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV

“Para crescer, é preciso investir mais. Na época em que o País cresceu rápido, havia mais investimentos em rodovias, energia elétrica, telecomunicações, indústria. Hoje, investe-se muito pouco. Precisamos criar postos de trabalho que permitam que as pessoas sejam produtivas, trabalhem mais, ganhem mais. Daí, a economia roda. O trabalhador tem hoje o triplo de educação em anos de estudo em relação à época em que o Brasil crescia rápido. Mas ele não consegue exercer essa produtividade. Não adianta se formar em engenharia e ir dirigir Uber. Para isso, é preciso de capital, de empresas grandes, de projetos de investimento que criem postos de trabalho. E para destravar o investimento, é necessário um ambiente de negócios favorável, no qual os empresários tenham confiança em colocar dinheiro no País. O problema maior é a insegurança jurídica, a estrutura tributária muito custosa e incerta. Também a infraestrutura é ruim, do ponto de vista do investidor privado. O que foi feito nos últimos anos, com o governo Temer e com o governo Bolsonaro, foi segurar muito o gasto público. Isso significa que para crescer é preciso do setor privado. Antigamente, o investidor privado tinha subsídio, vantagem tributária que mais ou menos iam empurrando o investimento. Como isso acabou, o ambiente de negócios se tornou mais importante. O governo tem um projeto de longo prazo para o crescimento, mas não tem sido feliz em apresentá-lo. Trabalhadores, consumidores e empresas não enxergam com clareza para onde vamos. Os economistas entendem, mas a sociedade, não.” 

‘Tomamos o caminho certo, mas ele é doloroso’

Samuel Pessôa, pesquisador de Economia Aplicada do Ibre/FGV

“Tomamos o caminho certo. Hoje, estamos infinitamente melhor do que em 2014. Só que o caminho certo é doloroso. Por isso, a lentidão para ganharmos velocidade no crescimento. Estamos arrumando a casa sem destruir a macroeconomia. Isso é uma maravilha, é muito saudável e dá mais solidez. Mas também contribui para a lentidão da recuperação. Esse é o lado bom dessa década perdida. O intervencionismo que houve no passado recente não se corrige rapidamente. Ele gerou má alocação de investimentos e endividamento sem eficácia. Para arrumar tudo isso leva tempo. Outra coisa que está atrasando o crescimento é o conflito distributivo que há na sociedade, com um Estado que gasta mais do que arrecada em condições normais. Temos de fazer muita coisa na área fiscal. Depois da reforma da Previdência, o problema ficou maior nos Estados. Vários estão aprovando uma reforma da Previdência. Há um desequilíbrio no gasto público. Esse é um problema estrutural e para consertá-lo é preciso uma decisão do Congresso Nacional. Enquanto não tivermos um Estado solvente, é difícil a economia voltar a crescer rapidamente. Para ter um ciclo mais longo de crescimento, é necessário também eliminar a incerteza tributária que temos hoje no Brasil. Sabemos que daqui a cinco anos não estaremos pagando ICMS como pagamos hoje. Mas ninguém sabe como os impostos vão funcionar. Quem quer investir não investe por causa da incerteza tributária. Essa questão não é pequena: é como se distribui o custo do financiamento do Estado entre os diversos setores da sociedade.” 

 

‘Temos de abandonar o terrorismo fiscal’

José Luis Oreiro, professor do departamento de Economia da UnB 

“Saímos da recessão porque a economia voltou a crescer, mas o que vivemos agora é uma estagnação relativa. A economia caiu 8% entre 2015 e 2017 e voltou a crescer, mas em ritmo muito lento, de 1% ao ano. Se em 2020 mantivermos esse ritmo, só vamos recuperar o nível de PIB pré-crise em 2023. Para sairmos desse buraco, temos de abandonar esse terrorismo fiscal. O Brasil precisa voltar a investir. E, para voltar a investir, precisa tirar do teto de gastos o investimento público. Vivemos uma limitação autoimposta. Não há restrição objetiva que impeça o investimento público, a não ser o teto de gastos. Mas uma lei se muda com outra lei. Não faz sentido colocar limites para o investimento. O Brasil tem uma enorme deficiência em infraestrutura. É óbvio que os projetos de infraestrutura têm uma taxa de retorno muito superior à taxa básica de juros (hoje no piso histórico, de 4,5% ao ano). Tem que aumentar o investimento público em obras de infraestrutura. Esse investimento recuperaria a economia muito rapidamente. Ele é um indutor do investimento privado: cria emprego, amplia o consumo, aumenta o nível de uso de capacidade instalada e as empresas investem. Os economistas liberais estão sempre dizendo que a próxima reforma vai resolver o problema. Primeiro o teto de gastos, depois a reforma trabalhista, depois a da Previdência, agora a reforma dos servidores públicos. É uma narrativa que não tem base nos fatos. Objetivamente, a economia não acelerou o crescimento. Ela vai acabar saindo da crise em algum momento porque não há crises eternas.”

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