Anos de trágico desperdício

Mais do que os trilhões de dólares gastos com a crise desencadeada com a quebra do Lehman Brothers, o desperdício do potencial humano é muito mais grave

PAUL KRUGMAN, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 02h05

Dentro de alguns dias, chegaremos ao quinto aniversário do colapso do Lehman Brothers - o momento em que uma recessão, que já era bastante ruim, se transformou em algo muito mais assustador. De repente, estávamos olhando para a possibilidade real de uma catástrofe econômica.

E a catástrofe veio.

Alto lá, vocês dirão, que catástrofe? As pessoas estavam advertindo sobre uma segunda Grande Depressão? E ela não aconteceu, não é? Sim, elas estavam. E não, ela não ocorreu - embora gregos, espanhóis e outros possam não concordar com o segundo ponto. O importante é perceber, contudo, que há graus de desastre, que se pode ter um imenso fracasso de política econômica que chega às raias de produzir um colapso total. E o fracasso da política desses últimos cinco anos foi, de fato, imenso.

Parte dessa imensidade pode ser medida em dólares e centavos. Medições razoáveis do "output gap" nos últimos cinco anos - a diferença entre o valor de bens e serviços que os EUA poderiam e deveriam ter produzido e o que eles realmente produziram - ficaram bem acima de US$ 2 trilhões.

São trilhões de dólares de puro desperdício, que jamais recuperaremos.

Por trás desse desperdício financeiro reside um desperdício ainda mais trágico de potencial humano. Antes da crise financeira, 63% dos americanos adultos estavam empregados. Esse número rapidamente despencou para menos de 59%, e ali permanece.

Como foi que isso aconteceu? Não foi um surto de ociosidade em massa, e as alegações de direita de que os americanos desempregados não estavam se esforçando para conseguir trabalho porque estavam vivendo à larga com cupons de cesta básica e o auxílio-desemprego deveriam ser tratados com o desprezo que merecem. Uma pequena parte da queda do desemprego pode ser atribuída ao envelhecimento da população, mas o restante reflete, como já observei, um imenso fracasso da política econômica.

Deixem de lado a política por um momento, e perguntem como seriam os últimos cinco anos se o governo americano tivesse realmente se mostrado disposto e capaz de fazer o que os manuais macroeconômicos dizem que deveria ser feito - a saber, dar um impulso suficientemente grande na criação de empregos para contrabalançar os efeitos do arrocho financeiro e o colapso imobiliário, adiando a austeridade fiscal e os aumentos de impostos até o setor privado estar pronto para receber o bastão. Eu fiz o cálculo aproximado de quais poderiam ser os resultados de semelhante programa: teria custado cerca de três vezes mais que o estímulo que tivemos de fato, e estaria muito mais focado em gastos e não em cortes de impostos.

E uma política como essa funcionaria? Todas as evidências dos últimos cinco anos dizem que sim. O estímulo de Obama, inadequado como foi, conteve o mergulho da economia em 2009. O experimento da Europa com o antiestímulo - os duros cortes de gastos de nações endividadas - não produziu o aumento prometido da confiança do setor privado. Produziu, isto sim, uma contração econômica severa, como os manuais econômicos previam. Os gastos do governo na criação de emprego teriam, de fato, criado empregos.

Mas será que o tipo de programa de gastos que estou sugerindo teria significado um maior endividamento? Sim - segundo meu cálculo tosco, nesse ponto a dívida federal pública estaria cerca de US$ 1 trilhão acima do valor atual. Mas advertências alarmistas sobre os perigos de uma dívida levemente superior se mostraram falsas. Nesse ínterim, a economia também estaria mais forte, de modo que a relação da dívida para o PIB - a medida usual da situação fiscal de um país - estaria apenas alguns pontos acima. Será que alguém seriamente pensa que essa diferença teria provocado uma crise fiscal? E, por outro lado, seríamos uma nação mais rica, com um futuro mais brilhante - e não uma nação onde milhões de americanos desanimados provavelmente saíram permanentemente da força de trabalho, onde milhões de americanos jovens provavelmente viram as perspectivas de sua carreira de toda vida permanentemente prejudicadas, onde cortes nos investimentos públicos causaram danos prolongados em nossa infraestrutura e nosso sistema educacional.

Entendam, eu sei que em termos políticos, um programa adequado de criação de empregos nunca foi uma possibilidade real. E não foram somente os políticos que falharam: muitos economistas, em vez de apontarem o caminho para uma solução da crise do emprego, se tornaram parte do problema ao alimentar temores exagerados de inflação e dívida.

Ainda assim, considero importante perceber como a política fracassou clamorosamente e continua falhando.

Hoje, Washington parece dividido entre republicanos que denunciam qualquer tipo de ação governamental - que insistem em que todas as políticas e programas que mitigaram a crise na verdade a agravaram - e partidários de Obama insistindo que fizeram um ótimo trabalho porque o mundo não se derreteu por completo.

Obviamente, o pessoal de Obama está menos errado do que os republicanos. Mas, por qualquer padrão objetivo, a política econômica americana desde o Lehman tem sido um espantoso e apavorante fiasco. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK  *  THE NEW YORK TIMES

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