"Ansiedade excessiva será corrigida", diz Malan

O ministro da Fazenda, Pedro Malan, afirmou, em entrevista, que o grau excessivo de ansiedade que prevalece no mercado será corrigido. Segundo ele, essa ?ansiedade excessiva? foi muito além do necessário. Ele disse que há fatores de reação dos governos, dos próprios mercados, que farão essa correção. Malan mostrou confiança de que essa ?ansiedade? será eliminada ao longo do tempo. Ao iniciar a entrevista, ele fez uma breve introdução sobre o cenário internacional, que ele classificou de "difícil, com uma situação de aversão a risco e contração de liquidez". Disse que essa situação se agravou nos últimos meses, com os escândalos contábeis nos EUA e as dúvidas sobre os balanços das empresas. "É uma situação com a qual temos de lidar. Por mais que lamentemos, fatos são fatos, e com eles não podemos brigar." O ministro disse que trataria de quatro temas: contexto internacional, eleições, turbulências com eleições, e indicação das ações que estão sendo tomadas para lidar com isso. O ministro Malan disse ainda em sua exposição, que precede a entrevista, que tem dito aos interlocutores, principalmente os internacionais, que é necessário olhar com serenidade o resultado das eleições brasileiras, quaisquer que venham a ser. "Vejo com a mesma serenidade com que vejo as turbulências internacionais", afirmou. O ministro disse que, apesar das turbulências que antecedem as eleições, não tem dúvidas de que haverá responsabilidade fiscal, monetária e respeito a contratos, seja quem for o vencedor. Ele disse ter essa convicção pelas declarações que vêm sendo feitas pelos principais candidatos. "Não se deve duvidar de uma declaração, ainda que recente", comentou Malan, dizendo que as novas posturas estão se contrapondo a declarações anteriores de candidatos. Ele disse ainda que lembra sempre aos seus interlocutores que o Brasil é uma democracia consolidada e o escolhido nas urnas estará governando em 2003.O ministro da Fazenda disse ainda que o País está atuando, ?no âmbito internacional e no âmbito doméstico?, para responder aos desafios causados pela turbulência internacional. Ele disse que o Brasil intensificou os contatos com governos e organismos multilaterais e está explorando todas as possibilidades abertas ao País. Malan afirmou que ?está clara? a percepção de apoio internacional ao Brasil. Ele disse que o governo não se eximirá de adotar as medidas que forem necessárias até o fim do governo. Segundo ele, ao mesmo tempo em que os contatos estão sendo intensificados, o governo está discutindo os prós e os contras, as opções que estão em aberto. Ele disse, no entanto, que não tem "hoje, especificamente, nada a anunciar". Segundo o ministro, o que há é um processo em curso, com perspectivas positivas. DívidaPedro Malan comentou que não vê problemas com relação à dívida interna e externa brasileira e o balanço de pagamentos. Segundo ele, o Brasil está conseguindo gerar expressivos superávits comerciais neste ano, o que indica uma virada de cerca de US$ 12 bilhões entre o resultado da balança em 1998 e o quer será registrado em 2002. Além disso, afirmou, o governo também conseguiu, de 1998 para cá, reduzir em US$ 15,4 bilhões o déficit em transações correntes. "O ajustamento vem tendo lugar?, disse.?É claro que gostaríamos de estar exportando mais, mas é preciso ressaltar que tivemos este ano uma redução de 60% de nossas exportações para a Argentina", disse. Na avaliação do ministro, a situação ao longo do tempo é de redução do déficit em transações correntes e aumento do superávit comercial.Com relação à dívida externa, Malan ressaltou, mais uma vez, que a parcela de responsabilidade do setor público está praticamente toda concentrada no médio e longo prazo e é "plenamente administrável". Em relação à dívida interna, o ministro acredita que, seguindo-se a tendência de queda das taxas de juros reais, combinada com taxas de crescimento ?plausíveis? para o PIB, e uma taxa de câmbio não tão depreciada como atualmente, os superávits primários que vêm sendo alcançados pelo setor público são suficientes para impor uma trajetória de estabilização e declínio da relação dívida/PIB.Malan reafirmou que não vê problemas para o Brasil cumprir os seus compromissos externos este ano e no ano que vem. Ele disse que "quem se debruçar sobre os dados vai observar" isso. Ele reiterou que "há conversas no momento" com o FMI. "Estamos explorando várias opções." Disse também que "este governo não se furtará de suas responsabilidades", no caso de ter que tomar uma decisão. Malan disse mais uma vez que o FMI já manifestou publicamente seu apoio ao Brasil.?Brasil real?Malan disse que é fundamental "olhar o Brasil real, o Brasil que produz, que consome, que investe, que poupa". Segundo ele, o Brasil tem tido grandes e significativos avanços no aumento da produtividade, "base do crescimento futuro". Malan citou o setor de agronegócios, que, na sua avaliação, é um dos mais competitivos do mundo e que tem condições de continuar aumentando sua competitividade. Na indústria, ele citou como competitivos os setores de aviação, têxtil, siderúrgico, de calçados, entre outros. Malan afirmou não haver razão para "não acreditar no Brasil". Disse ter profunda confiança no potencial da economia brasileira e que, nesse momento de turbulência, "não se deve perder a serenidade, nem se deixar assoberbar pelo curto-prazismo de avaliações de semanas e meses".O ministro afirmou que o governo não tem "coelhos na cartola" para lidar com a atual taxa de câmbio. "Como disse o Armínio (Armínio Fraga, presidente do BC), nós não temos coelho nessa cartola. Se alguém acha que o governo vai fazer mágicas ou piruetas, está equivocado." Malan repetiu que não há razão para o grau de ansiedade que prevalece no mercado hoje e que colocou o dólar cotado a R$ 3,00 nos últimos dois dias. "Há um certo espírito de rebanho que marca os movimentos dos mercados. O que está acontecendo hoje é um flagrante exagero." O ministro reafirmou que a situação será revertida, mas disse não ser ingênuo para determinar o dia e a hora em que a taxa de câmbio será reduzida. José SerraO ministro da Fazenda afirmou que o almoço que teve com o candidato do PSDB, senador José Serra foi "para uma troca de idéias sobre o cenário internacional, a economia brasileira e os últimos meses deste governo". Segundo Malan, tanto ele quando o presidente Fernando Henrique Cardoso acreditam que é preciso separar as políticas de governo da campanha eleitoral. "Governo é governo e o debate político e a busca pelo voto é outra coisa", disse. Embora tenha manifestado sua convicção de que o senador José Serra é o candidato mais preparado para ?preservar as conquistas alcançadas nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso?, Pedro Malan evitou citar nominalmente o nome do presidenciável tucano. "Acho que vocês sabem a quem me refiro. Trata-se do candidato do presidente Fernando Henrique Cardoso", afirmou. O ministro reafirmou estar aberto a receber qualquer candidato à Presidência da República para conversar, assim como fez hoje com José Serra. Afirmou que "qualquer um que pegar o telefone, como o Serra", será recebido com o maior prazer. "Eu sou aberto ao diálogo", disse o ministro. Ao ser questionado se aceitaria permancer no governo numa eventual gestão de José Serra como presidente, Malan lembrou mais uma vez de seu passado como servidor público, inclusive em cargos desgastantes como a presidência do Banco Central e o Ministério da Fazenda, destacando que não teria a intenção de continuar no cargo que ocupa, independentemente de quem seja o próximo presidente eleito.PetrobrásMalan afirmou que considera "fundamental" a permanência de Francisco Gros na presidência da Petrobrás. Segundo o ministro, ele não ouviu nenhum comentário ou sugestão de substituição de Gros à frente da empresa. O ministro encerrou sua entrevista coletiva dizendo que Francisco Gros está fazendo, com suas entrevistas e publicação de artigos, aquilo que ele, Malan, defende, na questão dos combustíveis: debater publicamente o assunto. No artigo publicado hoje em vários jornais, Gros explica a composição de preços dos combustíveis e cita, por exemplo, que uma redução de 10% no preço que a Petrobrás cobra pela gasolina resultaria em uma redução de apenas cinco centavos no preço ao consumidor, uma vez que a maior parte do preço final é formada por tributos e margens de comercialização dos distribuidores e varejistas. Segundo Malan, esse tipo de discussão é muito mais rico que discutir se "tabela ou não tabela" o preço do combustível.

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