Antagonismo entre EUA e Índia causa o fracasso de Doha

Comissário europeu elogia concessões do Brasil para tentar fechar acordo.

Márcia Bizzotto, BBC

29 de julho de 2008 | 20h06

As mais de cem horas investidas em nove dias de intensas reuniões em Genebra, na Suíça, não foram suficientes para salvar a Rodada Doha do antagonismo entre Estados Unidos e Índia em relação a um mecanismo de salvaguarda, previsto no acordo, que permitiria aos países em desenvolvimento subir tarifas aduaneiras para se proteger de um surto de importações que possa prejudicar sua segurança alimentar.O fim das negociações, que se pressentia no clima tenso que predominava na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), foi anunciado na noite desta terça-feira pelo diretor-geral da instituição, Pascal Lamy."Foi um fracasso coletivo, mas as conseqüências não serão as mesmas. Para os países em desenvolvimento, a perda desse acordo significa perder uma oportunidade de conseguir que os subsídios internos nos países ricos fossem revisados", afirmou o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson.A seu lado na sala de imprensa, a comissária européia de Agricultura, Marianne Fischer-Boel, visivelmente emocionada, sentenciou que "o mundo será mais imprevisível sem esse acordo".Mandelson destacou o trabalho de sua equipe a favor do acordo e lembrou que enfrentou muitas críticas dentro de casa em relação às concessões que fez com o objetivo de facilitar o acordo e elogiou a postura do ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, nas negociações.AcusaçõesAo lamentar "profundamente" o resultado dessa semana de trabalho, o chanceler brasileiro defendeu que "se há um país que está fora desse jogo de culpa (pelo fracasso), esse país é o Brasil"."O Brasil fez tudo o que podia para permitir esse acordo, inclusive abriu mão de interesses que eram seus. Estávamos dispostos a ceder mesmo em um tema que é de nosso interesse, como as salvaguadas", afirmou Amorim."É um absurdo que tudo tenha acabado por uma questão de números (que definem as condições para a aplicação das salvaguardas)."O ministro evitou apontar culpados para o naufrágio das negociações e disse que estava disposto a aceitar o que quer que fosse decidido entre Estados Unidos e Índia."Tudo o que queríamos era um mecanismo de salvaguarda balanceado, que fosse fácil de acionar e que não nos obrigasse a esperar uma alta de preços muito grande para acioná-la", justificou a ministra de Comércio de Indonésia, Marie Pangesto, cujo grupo que preside, o G-33, endossou as exigências indianas.Abatida e impaciente, a representante comercial americana, Susan Schwab, culpou esse grupo de países pelo fracasso."É lamentável que uma negociação lançada para liberalizar o comércio mundial tenha terminado justamente por causa das exigências de alguns países para fechar seus mercados para importações", disse.FuturoPara Pascal Lamy o fracasso foi "decepcionante", mas não foi completo."Tínhamos 20 temas para acertar, conseguimos fazê-lo com 18 e fracassamos ao chegar ao décimo nono. Se chegamos a acertar 18 temas, ficamos com esse material acumulado sobre a mesa para o futuro", insistiu.O diretor-geral da OMC não mencionou o vigésimo tema: os subsídios americanos ao algodão, que poderiam ter sido os responsáveis pelo fim das negociações se o Grupo dos Sete tivesse conseguido superar a questão das salvaguardas.Lamy afirmou que continuará "investindo na criação de um sistema comercial mundial melhor" e que tentará retomar a rodada, mas admitiu que ainda não sabe quando, nem como.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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