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Antecipar o imprevisível

Há dúvidas em relação à crença dominante de Trump trazer crescimento e inflação

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2016 | 05h00

Desde que Donald Trump foi eleito, em 8 de novembro, a rentabilidade dos títulos de dez anos do Tesouro americano subiu de 1,86% para 2,59%. Este salto de 0,73 ponto porcentual na taxa de juros mais importante da economia global é extremamente relevante para o mundo e para o Brasil.

Para entendê-lo, é preciso recapitular que, a partir da grande crise global de 2008 e 2009, uma forte pressão baixista tomou conta tanto da inflação quanto dos juros no mundo avançado. Na verdade, o Japão já vivia esse fenômeno desde o estouro da sua bolha imobiliária e acionária na virada das décadas de 80 e 90, mas foi depois de 2009 que também a Europa e os Estados Unidos foram envolvidos pela mesma tendência.

As taxas de juros básicas fixadas pelos principais bancos centrais do mundo foram para zero ou quase zero, e surgiu mais recentemente o estranho fenômeno de aplicações financeiras com juros nominais negativos (e mesmo algumas taxas básicas negativas). Tudo isso, junto com os programas maciços de injeção de liquidez pelos BCs do mundo rico, foi a forma encontrada para tentar combater uma temida moléstia econômica, que o Japão já enfrenta há décadas: a combinação de crescimento muito baixo, por vezes negativo, com inflação mínima, ou até deflação.

A elevação dos juros americanos, especialmente em prazos longos, significa que o mercado vê como próximo o fim definitivo nos Estados Unidos da ameaça da “armadilha de liquidez” – o fenômeno descrito acima, que derruba crescimento, inflação e juros. Tanto é que o Fed, BC americano, se sentiu confortável esta semana para subir o juro básico em 0,25 ponto porcentual, para a faixa entre 0,5% e 0,75%.

A expectativa de que os Estados Unidos tenham mais crescimento e mais inflação (numa combinação que tanto pode pender mais para o primeiro como mais para a segunda) provém da combinação de um mercado de trabalho que já está bem aquecido com diversas promessas da campanha de Trump.

Ele quer reduzir impostos e subsidiar um grande programa de investimento em infraestrutura. Em outras palavras, arrecadar menos e gastar mais, o que aumenta o déficit público e tanto pode estimular a economia como ter efeitos inflacionários. Além disso, Trump quer aumentar tarifas de importação para proteger a indústria americana, o que na prática permite preços mais altos de bens manufaturados – outro impulso à inflação.

Mas há dúvidas em relação à crença dominante de Trump trazer crescimento e inflação. Ele nem tomou posse e os juros, que inibem a atividade econômica, já subiram, e o dólar se valorizou, fazendo com que produtos importados baratos substituam produtos americanos mais caros.

Num certo paradoxo, a antecipação de mais crescimento e inflação provoca efeitos que a curtíssimo prazo vão na direção contrária de ambas as coisas.

Na verdade, no longo período de convalescença desde a crise global, os Estados Unidos quase sempre se mostraram menos combalidos que o resto do mundo avançado. A economia americana chegou a ensaiar algumas arrancadas, mas pode ter sido justamente o fortalecimento do dólar nestas ocasiões – deslocando parte da demanda criada nos Estados Unidos para produtores de outros países, que para lá exportam mais – que fez com que os avanços engasgassem.

Agora, as tarifas de Trump podem em tese criar uma barreira a esse “vazamento” de demanda e ser o ingrediente que faltava para a nave americana decolar – embora no médio e longo prazo o protecionismo deva ser prejudicial à produtividade dos Estados Unidos.

De qualquer forma, o presidente eleito dos Estados Unidos é imprevisível, assim como os efeitos das suas propaladas medidas num ambiente econômico tão estranho quanto o atual. O governo Trump ainda nem começou e pode haver reviravoltas na percepção do mercado sobre o que vai acontecer a partir de 2017.

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