Edu Andrade/ME
Paulo Guedes também disse hoje que o governo não vai elevar impostos. Edu Andrade/ME

Antes de divulgação do IBGE, Guedes diz que queda do PIB em 2020 deve ser menor que 4%

Ministro erra projeção; IBGE informou que o recuo foi de 4,1%, o pior resultado para o ano desde o confisco das poupanças pelo governo Collor, em 1990

Idiana Tomazelli e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 20h21
Atualizado 03 de março de 2021 | 09h26

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse na noite de terça-feira, 02, que a queda do PIB brasileiro poderia ter ficado abaixo de 4% em 2020. O resultado oficial, no entanto, divulgado hoje pelo IBGE, mostrou que a economia teve recuo de 4,1% em 2020, o terceiro pior resultado da história.

O tombo foi menor do que a retração de 4,35% registrada em 1990, ano do confisco das poupanças pelo governo Collor, que segue marcado com a maior retração econômica anual de que se tem registro, numa série histórica desde 1901, compilada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O segundo pior desempenho desde o século 20 foi registrado em 1981, em meio à crise da dívida externa, quando o tombo foi de 4,25%. 

Para este ano, Guedes disse que o País pode crescer 3% ou 3,5%.

O ministro disse ainda, em entrevista à Jovem Pan, que o governo fez “muita coisa com espírito federalista de descentralizar recursos” durante o ano passado. Segundo ele, o governo foi alvo de críticas por estar sem meta de déficit, suspensa em 2020 por causa da calamidade da covid-19, mas ele ponderou que “seria tolice elevar impostos em meio à depressão”. Ele lembrou que o governo diferiu impostos para ajudar empresas.

O ministrou defendeu ainda as medidas que descarimbam dinheiro do Orçamento. “Não quer dizer que vai dar menos que inflação. Pode dar mais, pode dar menos”, disse. Segundo ele, a educação “está protegida se tiver ação política” e citou que o próprio governo concordou em mais que dobrar os recursos do Fundeb, o principal mecanismo de financiamento da educação básica.

Ele ponderou que o Orçamento brasileiro é engessado e, por isso, a classe política brasileira não pode ser condenada como omissa, acomodada e alienada.

Impostos

Guedes também disse hoje que o governo não vai elevar impostos. “Preferimos vender duas, três, quatro estatais e derrubar a relação dívida PIB”, afirmou ainda à Jovem Pan. O ministro aproveitou uma pergunta sobre as receitas do governo para alfinetar o governador de São Paulo, João Doria, adversário político do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo Guedes, a prioridade do governo no ano passado, diante da crise, não era o lado das receitas. “Perguntavam ‘e a reforma tributária?’. Já estava tudo preparado para uma armadilha de aumento de impostos”, disse. “Vocês estão vendo São Paulo, está subindo tudo lá.”

O ministro garantiu, porém, que o governo não elevará impostos. “Não somos geração de covardes que fazem guerra e jogam conta para filhos e netos”, afirmou. “Podemos substituir impostos, derruba um aqui aumenta outro ali, mas sempre simplificando. Não conte conosco para imposto sobre fortuna, alíquota extra aqui ou ali, aumento na alíquota do Imposto de Renda”, disse.

Guedes disse que o foco do governo é simplificar impostos e “dar fim ao manicômio tributário”. “Tem hoje bilionário no Brasil que paga zero de tributo em dividendos”, afirmou.

Apesar do desejo de reduzir tributos – segundo o ministro, havia ideia de baixar 5% os impostos corporativos –, ele ponderou que o agravamento do déficit inviabilizou essa ideia. O ministro disse ainda que a reforma administrativa vai desinflar dramaticamente gasto com máquina pública.

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Mesmo com explosão de casos, Guedes diz que Brasil está na 'cauda' da pandemia

'Se vem a segunda onda' da pandemia, o País vacinará em massa, disse Guedes; Brasil bateu recorde de mortes por covid-19 nesta terça-feira, 2

Idiana Tomazelli e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2021 | 19h58

BRASÍLIA - No dia em que o Brasil registrou novo recorde de mortes por covid-19 em um dia, o ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a dizer que o País está na “cauda” da pandemia, um jargão que define a parte mais baixa e achatada de um gráfico. Ele ressaltou que o governo apoia a nova rodada do auxílio emergencial para vulneráveis, mas defendeu a aprovação de medidas de ajuste fiscal para garantir a sustentabilidade nas contas.

Nesta terça-feira, 2, o País contabilizou 1.726 óbitos, maior número desde o início da pandemia. A média móvel de mortes pela covid-19 ficou em 1.274 e, pelo quarto dia consecutivo, também bateu recorde. De acordo com o consórcio de veículos de imprensa, o Brasil somou 58.237 novos casos da doença em 24 horas.

“Se vem a segunda onda” da pandemia de covid-19, o País vacinará em massa, disse Guedes em entrevista à Jovem Pan. Ele reconheceu que não houve nenhum outro acontecimento na mesma dimensão trágica da pandemia, mas ressaltou que “economia e saúde estão juntas”. 

“Não tivemos guerra que matasse gente assim, não tivemos nada com potência, mortalidade e dimensão trágica dessa doença. Mas (o brasileiro) é um povo resiliente, forte, que conseguiu frustrar todas as expectativas de fora de que ia cair 10% (atividade econômica). Não somos assim. Somos fortes, somos resilientes, temos coragem, enfrentamos de frente os nossos problemas. E se vem a segunda onda, vamos vacinar em massa para sair dessa segunda onda. Porque economia e saúde estão juntas”, afirmou. 

Segundo o ministro, “infelizmente” o País foi bombardeado pela doença. “Saímos das reformas e fomos para medidas emergenciais”, disse.

“Você pode dar o auxílio emergencial, nós estamos afinal de contas na cauda de uma pandemia que já aconteceu no ano passado, e o sacrifício já foi feito, congelamos dois anos de salários do funcionalismo. Mas sempre com essa ideia de ter um protocolo para crises futuras”, disse Guedes durante a entrevista, concedida ao lado do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

“A questão é como combinar o auxílio, o compromisso com saúde dos brasileiros, sem tocar fogo no País”, afirmou o ministro, citando o risco de disparada de inflação em caso de aprovação da nova rodada do benefício sem contrapartidas. Ele citou o caso argentino como um risco para o Brasil e destacou a necessidade de ter um protocolo fiscal permanente para casos emergenciais, como a pandemia. “A Argentina está com dívida de 90% do PIB e juro de 40%, pois perdeu a âncora fiscal”, disse.

Para Guedes, a “ação política” é o que vai garantir a proteção da população e não a “falsa proteção da indexação”, em referência à regra que garante aumentos automáticos. Ele ainda fez comentários elogiosos a Lira, quem, segundo o ministro, “percebeu a força da desvinculação” de recursos. “Essa é essência da democracia”, afirmou.

O ministro da Economia disse que o governo ainda não disparou o auxílio emergencial porque precisa da aprovação da PEC emergencial, que estabelecerá protocolos de contenção de despesas para fazer frente aos gastos urgentes. Em tom elogioso aos presidentes da Câmara e do SenadoRodrigo Pacheco (DEM-MG), Guedes disse ainda que os dois “deram demonstração extraordinária de cooperação com independência”. 

“Temos que disparar essa PEC de Guerra (em referência à PEC emergencial), mas dentro do protocolo de crise preparado antes”, disse. O ministro citou a vacinação em massa e retomada das reformas e disse que o governo vai destravar a pauta de “saúde, emprego e renda”. “Há perfeito alinhamento, não há mais bloqueio de pauta (no Congresso). A pauta (no Congresso) estava obstruída por acordo de centro-esquerda”, disse. 

Guedes citou ainda estimativas do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, citadas em reunião no domingo para a vacinação em massa. Segundo ele, a expectativa é vacinar 25 milhões em 30 dias, talvez 40 milhões em 60 dias.

“Vamos envolver setor privado para ajudar na vacinação. Ao mesmo tempo, destravamos reformas num contexto de responsabilidade fiscal”, disse. 

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