EFE
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Antes de melhorar, piora

Na Argentina, o novo presidente não perdeu tempo em reformar a economia. Por ora, os resultados são dolorosos

The Economist

26 de abril de 2016 | 05h00

Mauricio Macri está na Casa Rosada há apenas quatro meses. Para Constanza Pimentel, que, em sociedade com a mãe e um irmão, é dona de uma pequena vinícola nos arredores de Mendoza, capital da vinicultura do país, até agora o novo governo tem sido uma bênção um tanto ambígua. Com um vinhedo de 50 hectares, sua Bodega Caelum produz 70 mil garrafas de Torrontés, Malbec e outros vinhos por ano. Os últimos tempos não foram fáceis.

Os controles cambiais impostos pela antecessora de Macri, Cristina Kirchner, mantiveram o peso artificialmente valorizado, inviabilizando as exportações. Em dezembro, quando Macri permitiu que o câmbio flutuasse livremente, Constanza se entusiasmou: ela quer ampliar as vendas para Estados Unidos e Reino Unido este ano. Mas, por enquanto, seus vinhos estão sendo consumidos basicamente por enófilos argentinos.

Em março, a vinícola promoveu uma alta de 12% nos preços, para acompanhar a inflação. “O vinho está se tornando um artigo de luxo”, lamenta Constanza. “Os clientes pensam duas vezes antes de colocar a mão no bolso.”

Não se pode culpá-los por isso. Macri, cuja eleição pôs fim a 12 anos de governos populistas, sob o comando de Cristina e de seu marido, o falecido Néstor Kirchner, tem sido festejado no exterior. O novo presidente encerrou um impasse de 14 anos com os credores internacionais do país; em março, recebeu a visita de Barack Obama. Para a maioria dos argentinos, porém, a vida está piorando. A inflação anual aproxima-se dos 40%, segundo estimativas independentes. É a mais elevada da América Latina, depois da inflação venezuelana. O preço da carne subiu 44% em 12 meses.

Estudo da Universidade Católica informa que, entre janeiro e março deste ano, 1,4 milhão de argentinos foram empurrados para baixo da linha da pobreza. Macri herdou as altas taxas de inflação. Durante o reinado de Cristina, o banco central emitia dinheiro para pagar um sem-fim de subsídios, que no ano passado chegaram a 4% do PIB. Mas as medidas que o novo presidente tomou para estabilizar a economia fizeram com que as coisas ficassem – temporariamente – piores.

A livre flutuação do peso, que tem por objetivo tornar as exportações competitivas e estancar a sangria das reservas internacionais, pressionou a inflação. Mesmo efeito teve a redução dos subsídios ao consumo de eletricidade, água, gás e transporte, que contribuíram significativamente para o déficit fiscal de 5,8% do PIB em 2015. No dia 8 de abril, as passagens de ônibus e trens em Buenos Aires dobraram de preço. De dezembro até agora, o setor público dispensou quase 11 mil funcionários. A economia deve sofrer retração de 0,5% este ano.

Macri advertiu os argentinos de que o remédio seria amargo, mas não avisou que causaria vertigens. Seu governo não deve cumprir a meta de inflação de 2016, fixada entre 20% e 25%, em parte porque as poderosas centrais sindicais do país reivindicam aumentos salariais da ordem de 30%. O ministro de Finanças, Alfonso Prat-Gay, agora promete que a inflação cairá no segundo semestre do ano e prevê um índice de 17% para 2017. “Estamos bastante confiantes de que conseguiremos atingir essa taxa”, afirmou Prat-Gay em 5 de abril.

Confiança. Uma razão para o otimismo do ministro foi o retorno da Argentina ao mercado internacional de capitais. Em 13 de abril, uma decisão da Justiça de Nova York abriu caminho para que o país pague os detentores de títulos que se recusaram a participar das rodadas anteriores de reestruturação da dívida. Com isso, após 14 anos de jejum, a Argentina emitiu na semana passada US$ 16,5 bilhões em títulos, na maior operação já realizada por país emergente. Os investidores fizeram ofertas de compra de US$ 68,6 bilhões. A maior parte dos recursos captados será destinada ao pagamento desses investidores. O restante será usado para cobrir as despesas do setor público, reduzindo a necessidade de financiar o déficit com mais inflação.

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A livre flutuação do peso, que tem por objetivo tornar as exportações competitivas, pressiona a inflação
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O governo argentino aposta que o retorno ao mercado de crédito estimulará as empresas estrangeiras a investir no país. Os sinais, por ora, são animadores. Depois que Macri tomou posse, a Dow Chemical e a American Energy Partners anunciaram investimentos conjuntos com a estatal YPF, para explorar gás e petróleo de xisto na promissora jazida de Vaca Muerta. A Coca-Cola prometeu investir US$ 1 bilhão no país ao longo dos próximos quatro anos; a italiana Fiat Chrysler disse que gastará US$ 500 milhões para modernizar sua planta em Córdoba, região central da Argentina.

No entanto, é possível que a retomada dos investimentos não aconteça em ritmo acelerado o bastante para funcionar como a injeção de ânimo com que conta o governo. Maior parceiro comercial do país, o Brasil vive sua pior recessão desde os anos 30. Alguns analistas sustentam que Macri precisa se esforçar mais para restaurar a confiança. Martín Redrado, presidente do banco central argentino entre 2004 e 2010, acha que os investimentos não se recuperarão enquanto os preços não se estabilizarem.

Recursos. Mesmo com o retorno ao mercado internacional de capitais, o governo terá de levantar muitos recursos com os investidores locais para pagar suas contas – ou então recorrer ao financiamento via banco central. Para reforçar a confiança, Redrado recomenda que Macri crie um “conselho de estabilidade macroeconômica”, atribuindo ao novo órgão a responsabilidade por estabelecer metas de inflação e crescimento com pelo menos dois anos de antecedência.

Constanza “confia” nas boas intenções de Macri e acha que “levará algum tempo” para que a economia se recupere. O presidente aposta suas fichas na paciência de eleitores como a vinicultora. De acordo com levantamento feito em março pela consultoria Isonomía, 72% dos argentinos têm uma imagem positiva de Macri e 69% acreditam que ele conseguirá controlar a inflação.

Talvez essa opinião favorável tenha sido abalada quando o nome do presidente apareceu nos “Panama Papers”, mostrando sua participação como diretor de uma empresa offshore criada por seu pai. Macri diz que nunca auferiu rendimentos da empresa e que não tem nada a esconder. A Justiça investiga o caso.

Os argentinos estão dando ao presidente o benefício da dúvida. Se a inflação não recuar até o fim do ano, podem se voltar contra ele.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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