Anunciantes boicotam YouTube depois de comentários pedófilos em vídeos

Nestlé e Epic Games, entre outras marcas, deixaram de comprar espaços de publicidade no YouTube por conta de anúncios de seus produtos que apareceram em vídeos de crianças em que pedófilos postaram mensagens

Daisuke Wakabayashi e Sapna Maheshwari, The New York Times

22 de fevereiro de 2019 | 15h43

SAN FRANCISCO —  Nestlé, Epic Games e outras marcas importantes anunciaram na quarta-feira, 22, que deixaram de comprar espaços de publicidade no YouTube depois que anúncios de seus produtos apareceram em vídeos de crianças onde pedófilos postaram mensagens nas seções de comentários.

As empresas adotaram a medida depois de um usuário da plataforma postar um vídeo esta semana assinalando aquele comportamento. Os vídeos alvo de pedófilos, em sua maioria,  não infringiram as regras do YouTube e eram bem inocentes – meninas fazendo ginástica, jogando Twister ou fazendo alongamento. Mas eles ficaram saturados de observações sugestivas dirigidas às crianças.

Os responsáveis pelos comentários deixaram registradas data e hora de trechos dos vídeos que podem parecer comprometedores quando pausados – como o traseiro ou as pernas nuas de uma garota. E  postaram observações, elogiando as meninas, perguntando se estavam usando roupa de baixou ou simplesmente colocando uma série de Emojis sexualmente sugestivos.

Há dois anos, centenas de companhias deixaram o YouTube preocupadas com seus anúncios sendo exibidos ao lado de conteúdo problemático postado por grupos de ódio e terroristas e vídeos que colocam em risco, ou com objetivo de exploração, as crianças.

No ano passado, muitos anunciantes retornaram ao site quando receberam garantias de que o site começou a sinalizar e lidar melhor com conteúdo problemático mais rapidamente.

O vídeo que chama a atenção para os comentários, foi postado pelo criador do YouTube Matt Watson (conhecido como MattsWhatsItIs) e visualizado 1,75 milhões de vezes desde o domingo, e acusou o YouTube de “facilitar a exploração sexual” de crianças. Watson disse que o sistema de recomendação do site também encaminha os predadores para outros vídeos similares de menores, muitos deles próximos de anúncios de grandes marcas.

Chi Hea Cho, porta-voz da empresa matriz do YouTube, Google, afirmou ter deletado as contas e canais de pessoas que deixam comentários constrangedores e informado a atividade ilegal para as autoridades.

“Qualquer conteúdo – incluindo comentários – que coloca menores de idade em risco é abominável e nós deixamos claras as políticas que proíbem isto no YouTube. É preciso fazer mais e continuamos a trabalhar para detectar os abusos mais rapidamente”, disse ela.

Muitos dos anunciantes identificados no vídeo e num informe subsequente do Wired – Epic Games, GNC e empresas da Nestlé nos Estados Unidos – declararam ter cancelado sua publicidade no site. Segundo a Bloomberg News, a Walt Disney Co. também suspendeu seus anúncios.

“Quando tivemos conhecimento do caso ficamos – e ainda estamos – horrorizados e contatamos o YouTube para solucionar o assunto imediatamente”, disse Senka Hadzimuratovic, porta-voz da Grammarly, ferramenta de correção de gramática, em um e-mail. “Adotamos uma política rigorosa contra propaganda ao lado de conteúdo ofensivo ou prejudicial e jamais nos associamos a canais como este”, afirmou ela. “Isto vai contra tudo aquilo que nossa empresa defende”.

Segundo Cho, o YouTube desativou comentários em dezenas de milhões de vídeos mostrando menores e removeu milhares de observações inadequados em vídeos com crianças neles. Disse também que o site fechou 400 canais do YouTube para comentários e reportou as anotações ilegais ao National Center for Missing and Exploited Children.

O YouTube tem se esforçado para policiar conteúdo infantil. No final de 2017 o The New York Times descobriu que conteúdo preocupante estava sendo exibido em aplicativos de crianças no site, ou seja, usuários com menos de 13 anos. Os vídeos mostravam mortes de personagens de desenhos animados muito apreciados e crianças reais em situações perturbadoras.

Já houve notícias anteriores de pedófilos buscando no site vídeos de menores e postando comentários de caráter sexual ou indecentes.  Em resposta, em 2017 o YouTube informou que trabalharia mais para “proteger as famílias” na sua plataforma, prometendo remover vídeos que colocassem as crianças em risco e bloqueando comentários inapropriados em conteúdo envolvendo menores.

“Existem alguns problemas reais porque neste ponto o YouTube cresceu demais para oferecer um lugar seguro para as crianças”, disse Josh Golin, diretor executivo da Campaign for a Commercial-free Childhood.

“Se não é possível impedir os pedófilos de trocarem informações nas seções destinadas a comentários sobre os vídeos, então não deve haver seções destinadas a isto”, disse Golin. “É importante realmente perguntar: ‘qual o valor dos comentários no YouTube além dos resultados finais do Google? E valem a pena as monstruosidades que ocorrem ali?”

Embora o YouTube tenha declarado que a cada trimestre deleta centenas de milhões de comentários que violam suas regras, as observações obscenas sobre vídeos inocentes não foram sinalizadas.

Watson, o produtor do vídeo original, foi criticado por alguns usuários do site que o acusaram de provocar uma nova queda drástica nas receitas de publicidade como a que ocorreu por causa do boicote de 2017, ao alertar para o fato.

Em vídeos online separados eles disseram que Watson devia ter informado o problema através das próprias ferramentas do YouTube e não chamar a atenção da mídia e dos anunciantes para o assunto e prejudicar suas receitas. /Tradução de Terezinha Martino

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.