Anúncios de imóveis guardam a memória de São Paulo

 Todos os lançamentos dos últimos 138 anos estão em 2,5 milhões de páginas no acervo digitalizado do 'Estadão'

Cley Scholz, do Economia & Negócios,

14 de junho de 2013 | 21h18

SÃO PAULO - As páginas do Estadão impressas ao longo dos últimos 138 anos contam a história do mercado imobiliário de São Paulo desde os tempos em que a cidade de apenas 30 mil habitantes ainda não tinha luz elétrica.

Desde janeiro de 1875, o jornal publicou todos os lançamentos de edifícios, bairros e grandes obras que transformaram a Capital em uma das maiores metrópoles do mundo.

São 2,5 milhões de páginas com quase 140 anos de história disponíveis em formato digital no Acervo Estadão. Lá é possível pesquisar todos os fatos importantes que marcaram a evolução do mercado imobiliário e a história da cidade, e observar as transformações do mercado de imóveis em cada período.

As edições impressas desde os tempos de 'A Província de S. Paulo', quando a cidade ainda não conhecia nem asfalto e nem os bondes, até as atuais do Estadão, no papel e na internet, apresentam anúncios de imobiliárias, construtoras e incorporadoras e também classificados publicados por paulistanos que buscam vender, comprar ou alugar imóveis.

Muita coisa mudou ao longo de mais de 50 mil dias de veiculação de anúncios imobiliários na cidade. Nas primeiras décadas, há curiosos anúncios de chácaras com cachoeiras disponíveis em locais onde hoje se  encontram bairros como a Bela Vista, Jardins e muitos outros próximos da área central.

Em 1º de setembro de 1929, um anúncio oferecia 'vida de campo' em áreas como o Jardim América, Pacaembu e Anhangabaú. "Usufruem-se plenamente as delícias da vida de campo, tranquila e sadia, em plena capital e com todo o conforto das grandes metrópoles, no inconfundível bairro modelo Jardim América ou em qualquer outro bairro da Companhia City".

A City oferecia áreas com 124 mil metros quadrados, o equivalente a 5 alqueires. "Proporcionam o maior bem para a formação sadia da nova geração paulista - espaços livres e ar puro para as crianças, num ambiente de conforto e alegria".

Propagandas de loteamentos revelam aspectos da história de cada bairro da cidade. "Desde os primeiros anos o homem revela a vontade de construir", dizia um anúncio de lotes no Jardim Europa, na edição de 15 de dezembro de 1935.

"Para seus divertimentos, as crianças preferem brinquedos com que possam fazer muros, guindastes, pontes e casas. É o instinto de construir um abrigo - uma defesa contra o mundo - de possuir o seu lar, que começa a manifestar-se".

O Pacaembu era anunciado na primeira década do Século passado como "a nova maravilha urbana" de São Paulo. "Inúmeras são as razões que aconselham a construção do lar próprio no Pacaembu", dizia o anúncio da Companhia City  em 18 de abril de 1938.

O Estádio Municipal já estava em obras e seria inaugurado em abril de 1940. O anúncio da City destacava: "É única a situação desse lindo recanto, que se espraia entre alguns dos mais distintos e valorizados bairros da cidade; por outro lado, os regulamentos especiais, referentes às construções, determinam a localização de todas as residências no meio de jardins, realçando sobremaneira a beleza do conjunto".

Os anúncios contam também a história do mercado imobiliário rural, com ofertas de fazendas e grandes loteamentos apresentados pelas empresas colonizadoras no interior de São Paulo e Norte do Paraná, entre outras regiões.

"O bom clima aliado à excelente rede rodoviária e ferroviária, a água magnífica, são fatores preponderantes do progresso verificado", dizia em 28 de junho de 1936 um anúncios da Companhia de Terras Norte do Paraná, a maior empresa colonizadora da América do Sul na época. "Não há saúva nem outros parasitas nas plantações", garantia a empresa anunciante.

Edifício Martinelli. O primeiro grande edifício da cidade começa a aparecer nas páginas do jornal nos anos 20. No dia 22 de agosto de 1929, um anúncio no Estadão trazia uma boa notícia para a cidade: "Rosário, o mais luxuoso cinema no mais alto edifício da América do Sul. Sensacional estreia ainda este mês".

O edifício que aparece na ilustração era o imponente Martinelli, com 26 andares e fachada de 105 metros de altura. O prédio construído pelo italiano Giuseppe Martinelli foi financiado com a venda de uma frota de 22 navios. O projeto era um tributo do imigrante italiano à cidade que adotou.

A obra começou em 1924, projetada para ter 12 andares. Acabou com 30, contando cinco na cobertura, onde o italiano morava. Entre os inquilinos ao longo da história estavam jornais, clubes, sindicatos, restaurantes, boates, o Hotel São Bento e o famoso Cine Rosário, onde o uso de terno e gravata era obrigatório para cavalheiros e que funcionou até os anos 1940.

O Martinelli, pela sua importância arquitetônica e ineditismo da engenharia, aparece não só em anúncios imobiliários mas também de inúmeros outros produtos. De filmes no cine Rosário a comerciais de cervejas Antarctica, em 1935, ou do Caracu, em 1941, entre muitos outros.

No da Antarctica, a marca informava que as 101.206.440 garrafas de cerveja vendidas no ano de 1935, empilhadas formariam onze prédios iguais ao Martinelli. O anúncio do Caracu mostrava uma garrafa da cerveja escura no topo do espigão.

Copan. "Um monumento à grandeza da terra paulista. O Rockfeller Center de São Paulo", dizia o anúncio de lançamento do edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, na edição de 25 de maio de 1952. Inaugurado em 1957, tornou-se um cartão postal de São Paulo e um marco na arquitetura moderna.

Com 120 mil metros quadrados de área construída e 35 andares, o Copan abriga 5 mil moradores em 1.160 apartamentos. Outro anúncio da época do lançamento, em 25 de junho de 1952, falava das obras iniciadas: "A sua residência própria - parte integrante do grandioso maciço turístico, com sua imponência e  vantagens em plena Avenida Ipiranga", dizia o texto.

Anos mais tarde, o Copan entraria para o 'Guiness Book' (Livro dos Recordes) como o maior prédio residencial da América Latina. Do alto dos seus 115 metros de altura é possível ter uma visão de 360 graus de São Paulo. "Arquitetura brasileira alcança o ápice da sua glória, do seu renome mundial", dizia o texto.

Mendes Caldeira. Alguns anúncios resgatam a memória de prédios que não existem mais, como o edifício Mendes Caldeira, que ficava na Praça da Sé e foi demolido para dar lugar à principal estação do metrô paulista.

Na edição de 19 de junho de 1960, um anúncio oferecia o "maior negócio do Brasil", no centro do centro de São Paulo. "Ponto de encontro de mais de cem bairros, no ponto chave das zonas bancária e judiciária de São Paulo", destacava o texto.

Quinze anos depois, o Mendes Caldeira estava outra vez nos jornais, no dia da maior implosão da América Latina. O edifício, que ficava onde hoje é o acesso norte da Estação Sé, virou 20 toneladas de entulho em segundos no ano de 1976, graças ao método de implosão usado pela primeira vez no Brasil. Foram  360 quilos do explosivo tritonita no lugar de marretas e picaretas.

Palacete Martinico Prado. Primeiro prédio de escritórios de São Paulo, o Palacete Martinico Prado foi projetado por Ramos de Azevedo a pedido do então prefeito Antônio Prado, irmão do homenageado no nome do edifício. Para sua construção foi necessário o sacrifício da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, demolida em 1903 e reconstruída no largo do Paissandu.

O anúncio publicado dia de 25 de fevereiro de 1930, na abertura do Citibank em São Paulo, traz uma ilustração que mostra como era o palacete na época em que foi inaugurado, em 1903. Localizado na Praça Antônio Prado, esquina com Rua João Brícola, o palacete já foi sede da Light & Power e também da redação do Estadão, de 1906 a 1929.

Após uma grande reforma, perdeu a fachada eclética do começo do século e ganhou outra mais linear. Nos anos 80, passou por nova reformulação na parte interna para receber a Bolsa de Mercadoria & Futuros.

Artacho Jurado. O empreiteiro João Artacho Jurado (1907-1983) não tinha formação de arquiteto, mas foi responsável por alguns dos mais marcantes exemplares arquitetônicos da cidade de São Paulo.

Na edição de 30 de março de 1947, o anúncio do Edifício Sabará Piauí, da imobiliária Monções, que pertencia a Artacho Jurado, trazia um verso do escritor Castilho: "Hei-de-lho por em verso… para glorificar aos olhos do universo". A citação combina com a arquitetura dos edifícios de Artacho Jurado, sempre uma mistura de estilos e linguagens: moderno, nouveau, déco e clássico.

O condomínio era apresentado como "um verdadeiro poema de cimento e aço, síntese de conforto, luxo e nobreza que recebe a glória imperecível do aplauso paulista". Em apenas 21 dias, dizia o texto, quase todos os apartamentos foram vendidos.

Em tempos de guerra, como no ano de 1945, anúncios mostram que o clima político influenciou até mesmo a arquitetura. No dia 11 de novembro daquele ano Condomínio Santa Cecília, na Rua Martins Francisco, esquina com a Baronesa de Itu, era anunciado com a vantagem de oferecer aos moradores um 'moderno abrigo antiaéreo'. Os apartamentos tinham sala, banheiro, 'quarto de criada' e terraço.

Edifício Rolin. Em uma das esquinas da Praça da Sé, um prédio chama a atenção de quem circula pelo centro pela originalidade e aspecto exótico da sua arquitetura.  O octogenário Edifício Rolim apareceu em um anúncio de oferta de salas para profissionais liberais nas páginas do Estado do dia 18 de julho de 1930.

O projeto é do arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol, o mesmo que projetou o edifício onde funciona o Centro Cultural do Banco do Brasil, na Rua Álvares Penteado.

O estilo do Rolim remete ao modernismo catalão, com uma cúpula no topo revestida de bronze e uma pequena torre que parece um farol, antigamente iluminado. Na época da inauguração, em 1928, o Rolim, com 13 andares, era um dos edifícios mais altos de São Paulo, e um dos pontos dominantes da paisagem do centro velho.

Othon Palace. O prédio do Othon Palace Hotel, no centro velho de São Paulo, foi um dos ícones da rede hoteleira paulistana, até fechar suas portas no fim de 2008, após 54 anos de atividade. Inaugurado em 1954 durante as festas do 4º Centenário, abrigava no último andar um dos mais luxuosos restaurantes da capital, o Chalet Suisse, com vista para o Vale do Anhangabaú. Um anúncio publicado em 30 de dezembro de 1954 dizia que o hotel oferecia o 'mais alto grau de hierarquia em hotéis'.

Altino Arantes. No dia 16 de junho de 1946, o Banespa anunciava no Estadão a mudança para sua nova sede, no Edifício Altino Arantes. Marco arquitetônico da cidade, o prédio do antigo Banespa, atual Santander, tem 162 metros de altura e um mirante de onde é possível ver o Pico do Jaraguá, os prédios da Avenida Paulista, o Palácio das Indústrias, as fábricas do Brás e da Mooca.

Símbolo da fase de progresso da cidade nos anos 1930, foi inaugurado em junho de 1947, depois de oito anos de obras. Com linhas inspiradas no Empire State, marca uma mudança na evolução da arquitetura paulistana, quando a cidade passou a trocar o estilo clássico francês por edifícios que seguiam o desenho americano.

Todos os anúncios destacados nesta página e muitos outros que retratam a história da cidade podem ser encontrados no blog Reclames do Estadão, no Portal do Estadão, no endereço http://http://blogs.estadao.com.br/reclames-do-estadao/

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