Evan Vucci/AP
Evan Vucci/AP

'Ao ameaçar Brasil, Trump fala a seu eleitorado', diz economista

Vitoria Saddi afirma que foco são as eleições presidenciais de 2020 e, mais especificamente, os chamados 'rednecks' – a parcela conservadora do eleitorado americano do interior do país

Entrevista com

Vitoria Saddi

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 19h01

BRASÍLIA - Com vasta experiência no exterior, onde trabalhou em instituições como JP Morgan e Citibank, a economista Vitoria Saddi afirma que as ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, de taxar produtos brasileiros como o aço têm como objetivo atrair uma parcela do eleitorado norte-americano. O foco são as eleições presidenciais de 2020 e, mais especificamente, os chamados “rednecks” – a parcela conservadora do eleitorado americano do interior do país.    

“Ele fala para a parcela que vai elegê-lo, que não são as pessoas que moram na costa americana”, afirma Vitoria, que é professora do Insper em São Paulo. “Os redneks querem realmente ser protegidos e gostariam que o dólar estivesse com valor melhor.”

Na visão de Vitoria, este cenário de guerra comercial poderá, inclusive, piorar em 2020, justamente por conta da disputa eleitoral nos EUA. “Trump tem que garantir a vitória junto a seu eleitorado”, lembra a professora do Insper.

A seguir, os principais trechos da entrevista:  

Qual a avaliação da senhora sobre as declarações de hoje do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o câmbio brasileiro?

Acho que o câmbio, sobretudo aqui no Brasil, na Argentina talvez menos, ele é função do diferencial de juros. Como a nossa Selic (a taxa básica de juros, atualmente em 5,00% ao ano) está caindo, a diferença entre o juro doméstico e o externo fica menor. Por isso, o real está se desvalorizando frente ao dólar. Não é política do governo atual, do Ministério da Economia, desvalorizar o real para competir com os EUA na área de aço.

A senhora acredita que existe uma preocupação genuína de Trump em relação ao preço do aço? Ou o cálculo dele é político, já que haverá eleições nos EUA em 2020? 

Acredito que há um componente político bem grande. Trump está debatendo com Biden (Joe Biden, pré-candidato do Partido Democrata à Presidência). Biden tem defendido uma política menos intervencionista no câmbio. Como os EUA têm uma política de câmbio livre, então esta é a primeira vez na história em que um presidente pede para reduzir juros ou intervir no câmbio. Trump também vem citando retaliações comerciais contra a China, por exemplo, de forma ofensiva desde o início do ano. Então, não duvido que Trump faça isso com o Brasil. O Twitter dele indica que, sem dúvida, alguém deu informação a Trump. Informação errada, mas informação.

Ao fazer isso, Trump fala para qual parcela do eleitorado americano?

Ele fala para a parcela que vai elegê-lo, que não são as pessoas que moram na costa americana. São os chamados rednecks (pescoços vermelhos, caracterizados por morar no interior do país e ter perfil conservador). Essas pessoas querem realmente ser protegidas e gostariam que o dólar estivesse com valor melhor. Da mesma forma, quando ele fala pelo Twitter que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) tem que baixar juros, ele fala para o eleitorado, porque o banco central americano é independente do governo.

Se alguma medida para taxar o aço brasileiro vier, isso será realmente tão prejudicial para a balança comercial brasileira? 

Sim. Boa parte do aço brasileiro vai para os EUA. Então, uma sobretaxa ou imposição de cota é prejudicial. O Brasil vai estar pagando por este ato. E aqui, no Brasil, é a primeira vez, há anos, que o câmbio está totalmente livre. O Brasil não fez desvalorização cambial. A Argentina é bem mais discricionária que o Brasil, mas os EUA encaram a América do Sul como uma coisa só. Não há tanta distinção entre Brasil e Argentina na cabeça de Trump.

O movimento no Brasil parece ser o contrário do que está sendo falado. Afinal, o BC tem atuado para que o dólar não suba de forma tão intensa.

Exatamente. O governo Bolsonaro está sendo o mais liberal possível com relação ao câmbio. Ele não intervém, não fixa meta. Na minha visão, isso é o que existe de melhor em termos de política cambial. Agora, como nos EUA o FMI (Fundo Monetário Internacional) taxa o Brasil como um país com sistema de câmbio administrado, isso dá margem para o Trump falar que o Brasil é como a China, que desvaloriza para atender a certo setor. Isso é conversa da década de 1980. Não existe mais isso há mais de 30 anos.

As menções de Trump em relação à questão agrícola preocupam?

Bem mais que a questão do aço. Sobretudo porque não há ideia de desvalorização cambial competitiva no Brasil. Se houver algum tipo de punição ao Brasil, seria mais preocupante para a agricultura. Agora, se Trump fosse punir mesmo o País, os EUA iriam anunciar algo, e não falar via Twitter.

Em função da eleição americana em 2020, este cenário de guerra comercial vai piorar?

Sim. Hoje, qual é a chance de alguém como o Bloomberg (Michael Bloomberg, pré-candidato do Partido Democrata à Presidência) bater o Trump na disputa? O crescimento americano é alto, os juros estão baixíssimos, o desemprego nunca foi tão baixo. A chance é zero. Agora, ao mesmo tempo, Trump tem que garantir a vitória junto a seu eleitorado.

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