Washington da Costa/ME
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Ao manter projeção de PIB em 2,5% para 2022, Economia se descola de estimativas do mercado

Dados do Boletim Focus em 8 de setembro mostram que economistas esperavam alta de 1,8% no PIB no ano que vem; desde então, estimativa caiu ainda mais e algumas casas já veem crescimento abaixo de 1%

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 17h44

BRASÍLIA - A decisão da Secretaria de Política Econômica (SPE) de manter em 2,5% sua projeção para o crescimento da economia em 2022 rompeu a sintonia observada entre expectativas do governo e as do mercado.

Os dados coletados pelo Boletim Focus em 8 de setembro, data-limite dos indicadores considerados pela SPE em suas projeções, mostram que os economistas esperavam uma alta de 1,8% no Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem. Desde então, essa estimativa caiu ainda mais e, algumas casas já veem crescimento abaixo de 1%. 

A diferença de 0,7 ponto porcentual entre as projeções não é usual. Segundo levantamento feito pelo Estadão/Broadcast, a última vez em que estimativas da SPE e do Focus se distanciaram tanto foi em julho de 2020, quando os efeitos mais acentuados da pandemia da covid-19 levaram o mercado a projetar uma queda mais intensa do PIB para aquele ano (-6,47%) do que a projeção do governo (-4,7%). Mesmo assim, as projeções do PIB para o ano seguinte mantiveram relativa proximidade, pouco acima dos 3%.

Agora, enquanto o governo mantém a aposta em um ritmo mais acelerado de crescimento econômico em 2022, os economistas pioram suas expectativas de olho no aumento da inflação, que levará o Banco Central a elevar ainda mais os juros – o que esfria a economia e contém o ritmo da atividade econômica. Também estão no radar as incertezas do lado fiscal, diante de indefinições em torno do gasto com os precatórios (dívidas judiciais) e o novo Bolsa Família.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem acusado os economistas de fazer “rolagem da desgraça” ao jogar para o período seguinte a expectativa de “tragédias” que, na avaliação do governo, não se concretizam. 

Hoje mais cedo, ao defender a manutenção da estimativa mais otimista, o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, reclamou das revisões pessimistas e fez um apelo ao mercado. “Vamos olhar o que os dados dizem. Vamos separar o que é ruído do que é sinal real da economia, vamos separar o que é ruído do que é um sinal concreto”, afirmou.

Na área econômica, existe a avaliação de que não é a projeção do governo que está perdendo aderência em relação às expectativas de mercado, mas sim o mercado que precisa analisar as informações de forma sóbria. A visão é que os agentes estão dando um peso menor que o devido ao presente e superestimando o futuro.

Como mostrou o Estadão/Broadcast, na contramão desse círculo negativo de projeções para a economia brasileira, os indicadores das contas públicas mostram uma redução das principais despesas obrigatórias nos últimos três anos, como pessoal, Previdência e subsídios.

Enquanto as previsões do Ministério da Economia mostram que o governo vai entregar o governo com uma despesa menor do que encontrou (17,5% do PIB em 2022 em comparação a 19,3% em 2018), o quadro atual é de alta dos juros futuros com a falta de credibilidade com a trajetória das contas públicas e o medo do populismo no ano eleitoral.

Na percepção de integrantes do mercado, no entanto, o futuro é justamente o elemento mais nebuloso, enquanto os dados positivos já estão “no retrovisor”. O maior problema, reconhecido até mesmo por integrantes da equipe econômica, é que o governo não está conseguindo coordenar as expectativas e tirar proveito da redução dos gastos obrigatórios

Com o descasamento das projeções de crescimento entre SPE e Focus, a preocupação de economistas agora é o quanto isso impactará o Orçamento de 2022. Enquanto o governo mantém uma projeção de déficit ao redor de R$ 49,5 bilhões, órgãos como a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado preveem um rombo equivalente ao dobro disso, na casa dos R$ 100 bilhões. O impacto também será sentido na trajetória da dívida pública.

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