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Aos trancos

É difícil compreender por que, apesar de impopular, o governo tem empurrado para a frente algumas reformas que poderão dar uma nova cara ao Brasil

Luís Eduardo Assis, Impresso

01 de maio de 2017 | 05h00

Os historiadores do futuro terão dificuldade em explicar o que acontece no Brasil em 2017. Vivemos hoje inusitada ambiguidade. Temos um governo não eleito, caudatário dos caprichos do acaso, que é objeto de rara impopularidade. A última pesquisa do Ibope mostra o presidente Michel Temer com 9% de avaliações positivas. Este é o mesmo nível de “ótimo” e “bom” que o governo Dilma recebeu no final de 2015 – e deu no que deu. Esta parte é fácil entender: o número de desempregados é recorde e a economia se debate para deixar para trás a recessão mais cruel de sua história. A parte difícil é compreender por que, a despeito de sua impopularidade, o governo tem sido capaz de empurrar para a frente algumas reformas liberais que poderão dar uma nova cara ao Brasil.

Um desinformado poderia argumentar que as reformas caminham porque são populares. Não são. A reforma da Previdência, por exemplo, “a mãe de todas as reformas”, é rejeitada por 72% das pessoas ouvidas em pesquisa da Mindminers, em março de 2017. Apenas 11% dos pesquisados são favoráveis e 62% acreditam que a reforma terá impacto negativo na economia – se a voz do povo é a voz de Deus, Deus entende pouco de finanças públicas em países tropicais.

Outro palpite para explicar a contradição de termos reformas impopulares num governo impopular seria acreditar que as mudanças reflitam o ideário do PMDB. O partido, afinal de contas, lançou em outubro de 2015 um programa (Uma ponte para o futuro) que continha sugestões que hoje tentam se traduzir em alterações institucionais. Nada disso. O PMDB não é um partido com ideias. O próprio Temer está longe de ter posições firmes a respeito de como deva se organizar a economia brasileira. É, antes, assim como seus doutos pares, personagem melífluo, untuoso, que pauta sua ação mais pelo pragmatismo do que por princípios. Lembra o matemático Ulrich do romance de Robert Musil (Um Homem sem Qualidades).

Há outros elementos que podem nos ajudar a entender essa contradição. O primeiro é que a agenda liberal que a equipe econômica do presidente apresentou pode não ser a dele, mas era a única disponível quando ele tomou posse. Depois das doideiras da Nova Matriz Econômica, uma pauta liberal era a que estava à disposição para ser testada. Temer é sagaz, sabe que é melhor tentar alguma coisa. Pode não ter as respostas, mas sabe que é preciso agir e, para tanto, tem as perguntas.

Em segundo lugar, quem, no futuro, se debruçar sobre 2017 deverá perceber que, ao contrário de Dilma Rousseff, Temer é do ramo. Ele sabe que ideias atraem menos os parlamentares do que verbas, afagos e cargos. São práticas antigas que empurram o Brasil para a modernidade.

Em terceiro lugar, o correr do tempo também aguça o senso de urgência. Não é difícil de perceber que o Brasil caminha para o precipício. Da posse da presidente Dilma até fevereiro deste ano, a dívida pública cresceu 116%, enquanto a arrecadação federal aumentou 52%. Não é preciso ser um luminar para perceber que uma hora vai dar errado.

Por último, é sempre possível contar com o instinto de sobrevivência dos políticos. Eles sabem que alguma coisa – qualquer coisa – deve ser tentada. Para Temer, esta é a oportunidade de não virar Sarney e, quem sabe, aparecer bonito nos livros de História. A intuição dos parlamentares, por sua vez, os leva a pensar que sem reformas o País pode ser tragado de volta para a recessão, o que torna a reeleição difícil. São interesses mesquinhos que os fazem agir em favor de mudanças. Aos trancos, sem convicção, o Brasil tropeça para a frente.

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