Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Aparentes paradoxos

No mesmo mês de março em que a agência Standard & Poor's rebaixou a nota de avaliação de risco da economia brasileira, indicadores relevantes do mercado financeiro tiveram desempenho positivo. O índice Bovespa apresentou crescimento de 7% no acumulado do mês e o real valorizou-se 3% ante o dólar. O que poderia ser considerado como um movimento normal seria um grande impacto negativo para os preços dos ativos (queda das ações, desvalorização do real, etc.). O aparente paradoxo entre o esperado e o que ocorreu decorre tanto de fatores gerais quanto específicos.

Antonio Corrêa de Lacerda*, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2014 | 02h05

A primeira observação importante é que os ativos no mercado financeiro tendem a antecipar os fatos e os movimentos da economia. O rebaixamento da classificação do risco brasileiro já era esperado e, portanto, já estava "precificado". Como sempre tende a ocorrer exageros nas cotações, tanto para alta quanto para baixa, como ocorreu nos últimos meses com os preços de muitas ações, algumas delas para níveis abaixo do seu valor patrimonial. Na divulgação do fato em si, os preços voltaram a valorizar-se.

Outro aspecto importante é que, apesar de o rebaixamento indicar, na visão da agência, que o risco de aplicar no Brasil se tornou maior, ainda manteve a classificação como Grau de Investimento e não Grau Especulativo. Isso sim, se viesse a ocorrer, implicaria impactos mais abrangentes, pois, por restrição estatutária, muitos fundos internacionais estão impedidos de aportar capitais nessas economias.

Há, ainda, outros aspectos que influenciam os preços dos ativos no mercado. A taxa básica de juros (Selic) foi elevada pela 9.ª vez consecutiva e subiu de 10,75% para 11% ao ano. As taxas de juros oferecidas aos compradores dos títulos da dívida pública brasileira passam de 13% ao ano, o que significa um juro real (descontada a inflação projetada) de incríveis 7% ao ano. Não há outro país com as condições brasileiras que pague uma remuneração tão atrativa. Muito do capital externo ingressante tem caráter meramente especulativo, para aproveitar a polpuda remuneração oferecida nos títulos públicos, ampliada pelas operações de arbitragem câmbio-juros.

O movimento recente de elevação de juros e valorização do real, embora possa animar quem especula com ativos financeiros, tem seus efeitos adversos para a "economia real". Essa combinação provoca um desestímulo à atividade e a0s investimentos produtivos, com o barateamento das importações e encarecimento das exportações. O crédito e o financiamento encarecem, dificultando as operações de produtores e consumidores. Ocorre, ainda, o encarecimento do custo de financiamento da dívida pública, pressionando o déficit das contas públicas.

Os indicadores macroeconômicos são pouco estimulantes: o crescimento do PIB dos últimos três anos é de apenas 2% na média interanual, a inflação, no mesmo período, é resistente em 6% ao ano, mesmo com a contenção dos preços administrados, como de combustíveis e de energia - uma medida deliberada do próprio governo, que reduz artificialmente a pressão inflacionária de curto prazo, mas não a impede no médio e no longo prazos, além de provocar outros efeitos deletérios, como a perda de credibilidade.

Também por este lado há paradoxos, pois o nível de emprego é recorde, pela queda do crescimento populacional e outros fatores. Os dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged) revelam a criação líquida acumulada de mais de 7 milhões de empregos, desde 2010. O crescimento econômico, embora baixo, segue gerando empregos, em especial no setor de serviços, mas o ritmo já vem caindo e no setor industrial o saldo é negativo.

Nada indica que o movimento observado no curto prazo no mercado financeiro se traduza em algo perene e em maior valor agregado. Pelo contrário, no momento em que houver a percepção de que os preços dos ativos já tenham atingindo o seu ponto de venda para a realização de lucros, o mercado vai virar e o "humor" vai permanecer volátil, ao gosto da especulação.

*Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor da PUC-SP e sócio diretor da ACLACERDA- Consultores Associados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.