Apenas 20% dos executivos consideram programa sobre cliente e fornecedor eficiente

Conhecido como 'Know Your Customer' e adotado há anos pelo setor financeiro, programa agora passa a ser usado por empresas de outros setores, que estão de olho na Lei Anticorrupção

Jéssica Alves e Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2016 | 21h22

SÃO PAULO - Somente 20% dos executivos brasileiros consideram o programa Know Your Customer (conheça seu cliente e fornecedor, na versão em português) como uma política eficiente. O dado faz parte de levantamento da Thomsom Reuters com cerca de 300 empresários - a maior parte deles (67%) adota a prática nas suas empresas. 

O objetivo do programa é fazer com que as companhias tenham um conhecimento aprofundado sobre a imagem e as práticas de seus clientes e fornecedores, com foco na imagem e reputação, e não somente um registro de dados. Esses procedimentos, já comuns no setor financeiro, passaram a ser adotados por outros setores após a Lei Anticorrupção, que sacramenta o laço entre empresa, clientes e terceiros. Pela nova legislação, se algum fornecedor estiver envolvido em situação ilícita, a empresa também poderá responder. 

As principais críticas dos executivos ao programa são em relação à falta de um padrão para a documentação, o custo de manter as informações atualizadas e a falta de avaliação da sua eficiência. 

Para José Leonélio, gerente da área de Gestão de Risco e Compliance da Thomsom Reuters, a eficiência do programa de KYC é medida a longo prazo e, apesar da conjuntura econômica atual, o investimento no programa pode evitar gastos financeiros e danos à reputação no futuro. "Se a atividade está reduzida, o programa deve se adequar. O controle não pode matar o negócio. Mas é fundamental que o KYC não seja estanque e sim dinâmico, para não ser um mero cadastro esquecido", explica. 

A pesquisa realizada durante o Congresso Internacional de Compliance & Regulatory Summit, encontro promovido pela Thomson Reuters em parceria com a LEC, mostra que 47% concordam (sendo 9% plenamente e outros 38% parcialmente) que a falta de um padrão comum para a documentação de KYC é um dos maiores desafios. 

"A norma regulatória 2554, de 1998, já previa que as instituições financeiras deveriam ter controles internos periodicamente atualizados, como os programas de integridade. Agora, estamos num momento em que empresas que até então não se deparavam com a necessidade de controles internos podem se inspirar no sistema financeiro, numa tradição que já vem há mais de 15 anos", conta Gerson Luis Romantini, chefe da Divisão de Supervisão de Conduta do Banco Central do Brasil.

Leonelio explica que, basicamente, o KYC deve conter uma pesquisa de reputação dos clientes e terceiros que seja atualizada constantemente. "As empresas devem se perguntar se a atividade exercida pelo terceiro combina com a da empresa, como o terceiro se relaciona com os investidores e deve fazer uma análise da imagem dele. E todas essas questões devem ser monitoradas".

O responsável pelo Núcleo de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e do Financiamento do Terrorismo (PLDFT) da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Marcus Vinicius de Carvalho, concorda que o risco de imagem muitas vezes pode ser muito maior que o risco legal. "Pensando nisso, deve-se mapear as situações de risco. Quando se fala em abordagem baseada em riscos, há muito mitos, mas é muito importante", aponta.

No Brasil, 58% concordam plenamente e outros 33% concordam parcialmente que os riscos à reputação são prováveis influenciadores para mudanças nos processos de KYC de suas empresas. Para os empresários brasileiros, mudanças na regulamentação e na legislação tem sido o grande desafio para que adotem e mantenham atualizados os programas de KYC e CDD (Costumer Due Diligence). 

Global

A falta de recursos pessoais e a quantidade de mudanças regulatórias são as maiores preocupações, dentre as quase 800 instituições financeiras que responderam à pesquisa global da Thomson Reuters sobre o impacto das mudanças nos regulamentos da KYC.  A pesquisa também mostra que 64% identificaram riscos à reputação como prováveis influenciadores para mudanças em seus processos de KYC.

A complexidade e os custos de KYC estão crescendo e causando impacto negativo nos negócios, aponta o levantamento. Enquanto os custos médios das instituições financeiras para cumprir suas obrigações são de US$ 60 milhões, algumas delas estão gastando até US$ 500 milhões na área de conformidade com KYC e de Customer Due Diligence (CDD).

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