André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Apertando o cinto

Com a economia desaquecida e a inflação em alta, o Banco Central aumenta os juros

O Estado de S.Paulo

01 Maio 2015 | 02h04

Não há por que invejar as autoridades monetárias brasileiras. A economia do País está atolada. Com a confiança dos empresários desabando, o desemprego em alta e os salários reais caindo - 3% em março, na comparação ano a ano, a queda mais acentuada em mais de uma década -, a demanda continua fraca. As vendas dos supermercados recuaram 2,6% no mês passado, em comparação com fevereiro. O Produto Interno Bruto (PIB) deve sofrer contração de pelo menos 1% este ano. No entanto, com os preços subindo ao ritmo mais acelerado desde 2003, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, que se reuniu na quarta-feira, não teve alternativa senão aumentar os juros em mais 0,5 ponto porcentual. Agora, a taxa está em 13,25%.

Se o Brasil tiver sorte, essa nova elevação talvez garanta às suas autoridades monetárias um pouco mais de margem de manobra quando voltarem a se reunir em junho. Uma das fontes de pressão inflacionária começa a amainar: o real se valorizou mais de 10% em relação ao dólar, depois de ter atingido seu nível mais baixo em 12 anos, há seis semanas. Isso, observa Alberto Ramos, do banco de investimentos Goldman Sachs, é antes de mais nada um reflexo da expectativa de que o Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) manterá suas taxas em patamares mínimos por mais algum tempo, tendo em vista o desempenho decepcionante da economia americana nos últimos meses. Mas também indica que o mercado acredita que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguirá transformar o déficit primário (excluindo pagamentos de juros) de 0,6%, registrado em 2014, num superávit de 1,2% este ano.

Essa crença sofreu um abalo ontem, quando dados oficiais mostraram que em março o governo brasileiro conseguiu economizar ridículos R$ 239 milhões (US$ 79 milhões) para pagar seus credores. Os analistas esperavam um valor próximo a R$ 5 bilhões. Ao mesmo tempo, o déficit total do setor público chegou a 7,8% do PIB, inflado por um prejuízo, no mesmo mês, de R$ 34,5 bilhões com o programa de swaps cambiais do BC. A desaceleração econômica também parece estar afetando negativamente a arrecadação tributária.

Diferentemente do que o futuro próximo promete para as autoridades do BC, a vida de Levy está ficando mais difícil. E uma mudança recente no cálculo do PIB complicou ainda mais as coisas. A nova metodologia, introduzida no início do ano, tem por objetivo adaptar o Brasil aos padrões internacionais (tratando os desembolsos com pesquisa e desenvolvimento, por exemplo, como investimentos, e não como custo). Isso proporcionou um empurrãozinho aritmético ao PIB brasileiro: em 2014, o tamanho da economia ficou em R$ 5,84 trilhões, um número quase 6% maior do que o obtido pela metodologia anterior. O endividamento público bruto, como razão do PIB, caiu um pouco, passando de 64% para 62%, graças ao denominador maior. No entanto, a mesma lógica significa que, a fim de cumprir sua promessa de superávit fiscal, agora Levy precisará raspar mais R$ 3,8 bilhões do fundo do tacho das contas públicas.

Com uma reforma previdenciária (modesta) paralisada no Congresso, a tesoura certamente recairá sobre os investimentos: no primeiro trimestre de 2015, quase 40% foram podados das obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), na comparação com o mesmo período do ano passado. Esses cortes de despesas discricionárias são mais fáceis de administrar. Também são, no longo prazo, os mais prejudiciais à saúde da economia brasileira.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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