Kiyoshi Ota/Reuters
Kiyoshi Ota/Reuters

Apertem os cintos, os trabalhadores estão sumindo

O envelhecimento da população mundial põe em xeque o modelo de crescimento movido a endividamento

The Economist

22 Julho 2016 | 05h00

O mundo está prestes a passar por algo que não acontece desde que a Peste Negra varreu a Europa, no século 14: a população de muitos países vai encolher. Em 25 deles, isso já está acontecendo e, segundo projeções da ONU, o número de nações com taxas negativas de crescimento vegetativo pode chegar a 100 até o último quartel deste século.

O impacto econômico certamente será enorme, mas os especialistas não estão de acordo sobre sua natureza. Quando o surto da Peste Negra chegou ao fim, a escassez de mão de obra produziu uma elevação duradoura dos salários reais. Se o fenômeno se repetir, será o fim de um longo período de crescimento letárgico da remuneração dos trabalhadores, algo que vem alimentando uma onda de descontentamento político no mundo desenvolvido.

Um novo estudo sobre as perspectivas demográficas, elaborado pelo banco alemão Berenberg, enfoca uma variável importante: a razão de dependência demográfica (RDD). Trata-se da relação entre o número de crianças e idosos e o de indivíduos em idade economicamente ativa (de 15 a 64 anos). Quanto mais alta a RDD, maior é o fardo com que a força de trabalho tem de arcar. Nas maiores economias do mundo, com exceção dos EUA, a força de trabalho deve diminuir significativamente de tamanho.

Em muitos países desenvolvidos, a RDD se elevou depois da 2.ª Guerra (por conta da geração do “baby boom”), caiu entre o fim dos anos 60 e a década de 70, quando essa geração chegou ao mercado de trabalho, e nos últimos tempos voltou a se elevar. Isso permite comparar o desempenho econômico nos períodos em que a RDD está em alta com aqueles em que ela está em baixa. O universo da análise do Berenberg é composto por dez países ricos: EUA, Austrália, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Japão, Espanha, Suécia e Suíça.

O mercado de imóveis residenciais parece ser o melhor ponto de partida para a investigação. Espera-se que, com uma força de trabalho em expansão, os preços dos imóveis subam, pois os assalariados tendem a sair em busca de mais espaço para suas famílias. De fato, os responsáveis pelo estudo verificam que, de 1960 em diante, nos anos em que a RDD permaneceu em declínio (isto é, quando havia um número relativamente maior de trabalhadores), o valor real dos imóveis residenciais teve elevação mediana de 2,7% ao ano. Por outro lado, nos anos em que a trajetória da RDD foi ascendente, os preços reais dos imóveis recuaram 0,2% ao ano.

Como seria de esperar, também nos anos em que a RDD se manteve em queda o PIB per capita real cresceu em ritmo mais acelerado (2,6%) do que nos anos em que a RDD estava em alta (1,9%). Com mais braços para pegar no pesado, o crescimento econômico é maior. A inflação também tende a ser mais elevada (4,1%) nos anos em que a RDD recua e mais baixa (2,7%) quando ela cresce.

Isso chama a atenção para um problema. Nas últimas décadas tem havido no mundo desenvolvido forte elevação na relação dívida/PIB, tanto por parte do setor privado, como do setor público. Em geral, as pessoas se endividam por dois motivos: para manter seu padrão de consumo ou para comprar um ativo (no caso das pessoas físicas, normalmente a casa própria). Isso envolve a crença, da parte de quem toma o empréstimo (e de quem o concede), de que o valor da renda e dos ativos não sofrerá desvalorização significativa no futuro, de modo que a dívida possa ser saldada.

Num cenário de crescimento econômico modorrento, baixa inflação e estagnação dos preços dos imóveis residenciais, é muito mais difícil liquidar uma dívida. De fato, é mais ou menos isso que vem acontecendo desde a crise financeira de 2008: as dívidas mudaram um pouco de mãos (do setor privado para o público), mas a relação dívida/PIB total não caiu.

Os motores da economia só continuaram rodando graças à forte queda nas taxas de juros, que permitiu que a maioria dos tomadores continuasse pagando o serviço de suas dívidas. E os dados demográficos indicam que a era de juros baixos veio para ficar. O estudo do Berenberg mostra que, dos anos 60 em diante, os juros reais tendem a subir quando a RDD está em queda e a cair quando ela está em alta.

Os juros baixos são, em parte, uma política que os bancos centrais adotam de forma deliberada para estimular a economia, incentivando as pessoas e as empresas a se endividar. Mas, à medida que os assalariados envelhecem, sua disposição para contrair dívidas diminui. E, se o envelhecimento da força de trabalho tiver como consequência a desaceleração do crescimento econômico, as empresas também não vão querer tomar empréstimos para investir. Com efeito, os analistas do Berenberg verificam que, de 1960 para cá, nos anos em que a RDD estava em queda, o endividamento do setor privado cresceu em ritmo quase três vezes mais acelerado, como proporção do PIB, do que nos anos em que ela estava em alta.

A grande questão é saber se crescimento econômico e aumento no nível de endividamento caminham de mãos dadas, ou se o primeiro pode acontecer sem o segundo. Se não puder, o mundo tem pela frente um desafio e tanto. Com um número cada vez menor de pessoas em idade de pegar no batente, serão necessários grandes incrementos de produtividade, ou forte elevação dos indivíduos de idade mais avançada no mercado de trabalho, para que a economia continue a crescer. Por ora, a produtividade não dá sinais animadores e a taxa de emprego entre os idosos permanece baixa.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.