Aperto e emissões demais

As primeiras análises sobre o conteúdo do pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na abertura da 67.ª Assembleia-Geral da ONU mostraram que as críticas feitas por ela aos dirigentes dos países avançados, pelas suas respostas insatisfatórias à crise, não foram acompanhadas de nenhuma proposta de solução. Ou seja, Dilma não teria com que contribuir para uma saída da encalacrada global.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2012 | 03h08

Mas há nesse discurso mais do que falta de sugestões para uma saída; há alguma inconsistência. A presidente critica as "políticas fiscais ortodoxas" e adverte que a "austeridade, quando exagerada e isolada do crescimento, derrota a si mesma".

Em seguida, condena as políticas monetárias expansionistas que desalinham o câmbio, ou seja, as emissões de moeda feitas pelos grandes bancos centrais, que não levam a lugar algum e, de quebra, geram efeitos colaterais graves aos emergentes, como o Brasil - porque os inundam de moeda estrangeira e tiram competitividade do seu setor produtivo.

Em outras palavras, para a presidente Dilma, tanto estão erradas as respostas de natureza fiscal (austeras demais) quanto as respostas monetárias (expansionistas demais). Sem ser mais específica, a presidente pede "ajustes fiscais apropriados e estímulos ao investimento e à demanda" que interrompam a recessão e assegurem o crescimento.

Ora, essas políticas de incentivo à produção e ao emprego, como apontadas por Dilma, implicariam renúncia tributária (quebra de arrecadação) e elevação das despesas públicas. Tanto uma como outra causariam aumento das dívidas nacionais ou prolongamento dos prazos para seu resgate. O problema está em que grande número de países não encontra mais financiamentos a juros aceitáveis no mercado para esses rombos. Pedir programas de austeridade mais flexíveis de modo a evitar tanto sacrifício por parte do consumidor e tanta paradeira na atividade econômica também exigiria aumentar o endividamento e, por causa disso, os interessados em financiá-lo.

Não é outro fator senão o alto custo do ajuste fiscal que está obrigando os grandes bancos centrais a atuarem no limite da irresponsabilidade e a se dedicarem a despejos ilimitados de moeda.

Quando lamenta que "as principais lideranças do mundo desenvolvido ainda não encontraram o caminho", a presidente Dilma indica que o principal obstáculo não é sequer técnico, mas político - no que tem razão.

O pronunciamento de terça-feira teve um subentendido: faltam condições políticas que permitam a montagem de um conjunto de ações que possibilitem a flexibilização fiscal adequada. No momento, é o Partido Republicano nos Estados Unidos que veta uma forte expansão da dívida pública (emissão de títulos do Tesouro); e são principalmente os alemães (mas não só eles) que não aceitam um cronograma menos rígido de resgate dos enormes passivos soberanos.

No entanto, é irrealista descartar da equação política tanto a capacidade de bloqueio dos republicanos dos Estados Unidos quanto a intransigência dos alemães. Qualquer solução terá de levar em conta o apoio ou a oposição deles. E, no mais, se for para flexibilizar políticas de austeridade, somente um programa de alta credibilidade será capaz de garantir financiamento para a expansão de passivos que ela exigiria.

Mas qual seria ele?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.