Apesar das turbulências do mercado, ações de bancos avançam 22% em 2014

Balanços positivos impulsionam índice do segmento bem acima da alta de 6,41% da Bolsa; setores industrial e de commodities acumulam perdas

Yolanda Fordelone, Gustavo Santos Ferreira, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2014 | 02h03

O setor bancário ignora o fraco desempenho geral da ações listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) neste ano e tem a maior alta entre os índices setoriais que formam o Ibovespa. O Índice Financeiro, que inclui papéis de bancos e seguradoras, avançou 21,82% em 2014 até sexta-feira. Enquanto isso, a Bolsa acumula alta de 6,41% no período, ritmo de avanço pouco superior ao do CDI (4,5%), que baliza as aplicações de renda fixa.

A evolução do segmento pode ser explicada em partes pelo resultado dos balanços positivos das instituições financeiras no primeiro trimestre. Em relação aos primeiros três meses do ano passado, os lucros dos dois maiores bancos privados brasileiros, Itaú e Bradesco, registraram ganhos de 27% e 18%, respectivamente.

São resultados bem superiores aos observados durante o ano passado. "Todos tiveram perspectiva de redução dos ativos em carteira, mas também houve queda nas despesas com devedores duvidosos", explica o economista-chefe da TOV, Pedro Paulo Silveira. O Banco do Brasil também registrou alta, mas menos expressiva: 4,7%.

O Santander foge da explicação geral. Já disparou mais de 30% neste ano, apesar da baixa de 14,9% no lucro do primeiro trimestre. Nesse caso, influi positivamente a informação de que seu controlador espanhol pretende adquirir cerca de 25% do capital da unidade brasileira, em oferta voluntária feita inclusive aos acionistas minoritários da empresa. Foi oferecido prêmio de 20% sobre o preço de fechamento das ações no dia 28 de abril.

Mas o Santander já subiu o que tinha de subir, avalia o analista da Rico, Roberto Indech. "A tendência é de estabilidade até a assembleia geral de acionistas, em outubro". Para Itaú e Bradesco, a perspectiva é boa, sobretudo pela gestão eficiente dos bancos, diz o especialista.

De acordo com os cálculos da AE Consenso de Ações, serviço da Agência Estado que coleta perspectivas para as empresas listadas na Bovespa, o preço-alvo para as ações units do Santander em 2014 é de R$ 16,74; para as preferenciais do Itaú Unibanco, R$ 39,41; e para as preferenciais do Bradesco, R$ 37,64. "A tendência é continuar gerando valor acima da média do mercado para quem tem essas ações na carteira", entende Silveira.

Planos econômicos. Se entre os bancos privados o ano é bom e a expectativa é de mais valorização, para os públicos o cenário não parece tão favorável. A discussão sobre a correção da caderneta de poupança durante os planos econômicos dos anos 80 e 90 tem impacto mais forte sobre as instituições públicas.

Poupadores reivindicam na Justiça correção maior para a poupança. No fim de maio, o Supremo Tribunal Federal (STF) adiou mais uma vez a decisão sobre o processo. Está em pauta se a correção aplicada no passado ocorreu dentro da legalidade. Caso percam, o passivo para os bancos pode chegar a R$ 180 bilhões, calculam analistas.

Se a decisão favorecer os poupadores, a maior parte do passivo, cerca de 50%, ficará com a Caixa Econômica Federal e com o Banco do Brasil, diz Indech. "Bradesco e Itaú devem arcar com 10% cada."

As ações do Banco do Brasil, das listadas no Índice Financeiro, são as que menos subiram no ano. Acumulam avanço de 12% até o último fechamento do mercado. Na Rico, recomenda-se a manutenção do papel em carteira. Para quem não tem e pensa em contar com as ações, o momento pode ser muito arriscado no curto prazo.

Indústria e Materiais Básicos em mau momento. Enquanto instituições financeiras se destacam positivamente, os setores Industrial e de Materiais Básicos são responsáveis pelas maiores baixas do Ibovespa. O primeiro índice recuou 7,69% neste ano; o segundo, nada menos que 24,72%. 

A companhia de maior peso do segmento industrial, a Ambev (20%), amarga 6,29% de queda no ano. O desgosto dos investidores está na alta dos impostos das bebidas, adiada para depois da Copa. E para quem acompanha minimamente o noticiário econômico, não é difícil entender o pessimismo em relação à indústria do Brasil. Ela vai mal e tem crescimento produtivo previsto pelo mercado financeiro, de acordo com o Banco Central, de meros 0,96% neste ano. 

Em relação ao índice setorial de Materiais Básicos, o professor Clemens Nunes, da Fundação Getulio Vargas, atribui o desempenho fraco às incertezas da China. A economia é a grande compradora de commodities do Brasil, mas está em desaceleração e mudando o foco do investimento para o consumo interno. “A tendência é de redução no apetite por aço e minério de ferro do Brasil”, diz o professor. 

As grandes dominâncias desse índice são de Vale e Gerdau, cada uma com 20% de peso. As ações mais negociadas da primeira caíram 18,87% neste ano. As da segunda, 25,15%.

Eleições. Assim como em 2002, ano em que Luiz Inácio Lula da Silva se elegeu à Presidência, o mercado tem sofrido forte influência política. À época, a perspectiva de vitória do então candidato do Partido dos Trabalhadores afugentava investidores. Agora, a cada queda da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas de intenções de voto, a Bolsa sobe.

A decepção no mercado é generalizada por causa das intervenções do governo nos negócios - diz Eduardo Rezende, diretor da Jardim Botânico Investimento. Os empresários entendem que a capacidade de crescimento econômico depende da questão política. "E, ao contrário de Lula, Dilma não parece tão amigável", afirma.

Nesta fase de alta volatilidade, potencialmente dissipada em 2015, Rezende sugere calma. Mesmo com abalos, a melhor aposta para médio e longo prazos está nas empresas mais sólidas.

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