Marcos Correa/PR
Marcos Correa/PR

Mercado ainda teme apostar em ações da Petrobrás, apesar de discurso conciliador de novo presidente

Ao menos três instituições financeiras sinalizaram que preferem 'esperar para ver' como será a administração de Silva e Luna antes de recomendar os papéis da petroleira

Beth Moreira, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 15h00

Considerado amigável pelo mercado, o discurso do novo presidente da Petrobrás, o general Joaquim Silva e Luna, em sua cerimônia de posse não convenceu analistas, bancos e corretoras sobre o futuro da estatal, principalmente no que diz respeito à política de preços dos combustíveis, que levou à queda de seu antecessor, Roberto Castello Branco, e à venda de ativos. Ao menos três casas de investimentos sinalizaram que preferem "esperar para ver" como será a nova administração antes de voltar a apostar nas ações da petroleira. Mesmo assim, os papéis saltaram mais de 5% ontem na Bolsa brasileira (B3) em reação às falas do novo CEO.

Na segunda, 19, Silva e Luna afirmou que a empresa não deve abrir mão do alinhamento entre os preços dos combustíveis nas refinarias e o do petróleo no mercado internacional, mas que a volatilidade será menor. "Vamos buscar reduzir a volatilidade (mudanças bruscas dos preços nas refinarias, em curtos prazos), sem desrespeitar a paridade internacional", disse ele em sua cerimônia de posse.

Para analistas, a fala de 10 minutos mostrou uma tentativa de conciliar diferentes interesses. O coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Rodrigo Leão, viu no discurso uma sinalização de que o general vai trabalhar alinhado ao governo federal, ao conselho de administração da companhia e também à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

No mercado financeiro, a recepção foi morna. O BTG Pactual, por exemplo, manteve recomendação neutra para os papéis da Petrobrás mesmo após o discurso. Para o banco, uma boa reputação é difícil de ganhar e fácil de perder, o que exigirá ações adicionais da nova administração para mostrar que eventuais alterações no preço dos combustíveis pela empresa e a política de alocação de capital não levarão a uma perda de valor para os acionistas.

Os analistas Thiago Duarte e Pedro Soares lembraram que reduziram a recomendação das ações, no final de fevereiro, pela falta de clareza sobre o futuro da Petrobrás, e que estariam prontos para mudar de visão caso as circunstâncias melhorassem, o que ainda não se confirmou. "Dado o quanto o preço das ações caiu desde então, não estamos exatamente surpresos com a força da recuperação das ações ontem. Mas achamos que ainda é cedo para acreditar em muito mais do que apenas isso", afirmaram.

A corretora Genial também se mostrou cética quanto ao discurso de Silva e Luna. Em breve comentário a clientes, afirmou que "é ver para crer" e lembrou que a volatilidade recente das ações da estatal veio após a substituição de Castello Branco - ferrenho defensor da paridade internacional dos preços -, pelo presidente Jair Bolsonaro, que ficou contrariado com os seguidos reajustes no início do ano. "Difícil acreditar que a substituição no cargo tenha acontecido para que as coisas permanecessem como sempre foram."

A grande questão, de acordo com a casa, é que a Petrobrás precisa da paridade de preços devido à necessidade de importação de um tipo de petróleo de qualidade distinta ao que é produzido no País. "Não seguir a paridade incorre em prejuízos para a empresa", apontou a Genial.

De olho no curto prazo

O Bradesco BBI, por sua vez, considerou que os passos do executivo à frente da companhia devem ser cuidadosamente observados. "Com base em seu discurso, acreditamos que a política de preços da Petrobrás acompanhará a paridade, mas com mudanças menos frequentes ao longo do ano", escreveu o analista Vicente Falanga.

O banco espera o anúncio oficial de uma nova política de preços em breve. "Continuaremos a observar outros comentários feitos pelo novo CEO a respeito de questões como vendas de ativos, preços de produtos e dividendos", destacou a casa.

O Bradesco BBI manteve a recomendação 'underperform' (perspectiva de desempenho abaixo da média do mercado) para os papéis da Petrobrás, com preço-alvo de R$ 24, o que representa um potencial de queda de 3,54% ante o valor do fechamento de segunda-feira.

Já o BTG acredita que a empresa, junto com o governo, tenta definir algum tipo de mecanismo de estabilização que suavizaria o repasse dos reajustes aos consumidores, mas que isso é um desafio diante das contas públicas do País. "A situação fiscal apertada do Brasil nos níveis federal e estadual local nos faz pensar como isso seria efetivamente viável e em tempo hábil", pontuou o banco.

Com base no fechamento de segunda-feira, o BTG calculou que os preços domésticos da gasolina e do diesel estão com 14% e 4,5% de desconto sobre preços internacionais, o que significa que a nova administração será colocada à prova muito rapidamente caso o Brent e a câmbio não se movam favoravelmente no curto prazo.

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