Apesar de preços em queda, safra deverá crescer

Especialistas avaliam que maior volume na produção pode segurar a inflação de alimentos e garantir a rentabilidade do produtor

Márcia de Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h05

Mesmo com a forte retração dos preços de soja, milho e algodão registrada nas últimas semanas, a próxima safra brasileira de grãos, que será plantada em setembro e colhida em março do ano que vem, deve crescer e atingir 198,5 milhões de toneladas, segundo projeções da consultoria GO Associados. Esse maior volume de produção pode segurar a inflação de alimentos e garantir rentabilidade ao agricultor, apesar do cenário adverso neste momento, prevê o diretor de pesquisa da consultoria, Fabio Silveira.

Com semente, fertilizante e defensivos em casa, comprados quando os preços das commodities estavam em alta e mais favoráveis ao bolso do produtor, a expectativa é que a área plantada de soja cresça cerca de 3%, atingindo 31 milhões de hectares na safra 2014/2015, de acordo com a previsão da consultoria Informa Economics FNP. No caso do algodão, a expectativa é de avanço de 11,6%, para 1,250 milhão de hectares. Para o milho e feijão, porém, o cenário é de retração e, para o arroz, de manutenção da área, segundo a Associação Brasileira de Sementes e Mudas.

Em meados deste mês, o relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sinalizou uma safra americana recorde de soja, de 103 milhões de toneladas, e um maior volume de estoques mundiais de grãos. Isso foi uma ducha de água fria nos preços das commodities, que já vinham com tendência de baixa por causa do corte de estímulos monetários feito pelo BC americano. Nos últimos 30 dias, a cotação da soja caiu 7,45%; do milho, 6,88%; e do algodão, 4,94%, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada.

"Os produtores estão apreensivos, mas não vão reduzir a área com soja", diz Antonio Chavaglia, presidente da Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano, que reúne 6,2 mil agricultores. Ele acredita que o que pode ocorrer em resposta ao preço baixo é a não abertura de novas áreas para a produção do grão.

Essa também é a avaliação de Ricardo Tomczyk, presidente da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso, o principal Estado produtor do grão no País. "Deve diminuir a abertura de novas áreas.". Em Mato Grosso, por exemplo, é esperada expansão de 5% da área plantada, mesmo com o preço mais baixo.

Em Maringá, noroeste do Paraná, outra importante região produtora, a expectativa é de manutenção da área de 650 mil hectares com soja, segundo o vice-presidente da Cocamar, José Cícero Aderaldo. Ele diz que os insumos foram comprados em junho, quando a relação de troca era mais favorável.

Essa antecipação de compra aparece na entrega de fertilizante, que cresceu 6,9% no primeiro semestre ante igual período de 2013, segundo David Roquetti, presidente da Associação Nacional para Difusão de Adubos.

Bombril. Silveira, da GO Associados, compara a agricultura ao Bombril, marca de palha de aço com "mil e uma utilidades", numa referência aos impactos positivos da safra. "A produção agrícola da safra 2014/2015 deve segurar a inflação e também ampliar a renda do produtor." O economista argumenta que se trata de contribuição "rara", porque normalmente quando o preço cai, a produção é afetada. Mas, nesse caso, como os agricultores já tinham comprado os insumos com uma relação de troca favorável, a tendência é de manutenção ou acréscimo de área e o aumento de volume deve compensar a queda no preço.

Outro fator que pode jogar a favor dos produtores é o câmbio. Silveira lembra que na época da venda da safra, em março de 2015, a expectativa é de uma taxa de câmbio mais alta, com dólar a R$ 2,40. Isso significa que o produtor pode obter mais reais pela soja, cotada em dólar no mercado internacional.

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'Estou com os dois pés no freio', diz agricultor

Jorge Pedro Frare, produtor do Paraná, não tem planos de investir em máquinas e equipamentos

O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h05

A reviravolta nos preços internacionais dos grãos registrada nas últimas semanas fez o produtor paranaense Jorge Pedro Frare, de 63 anos, que planta soja e milho em 100 hectares no município de Doutor Camargo, a 30 quilômetros de Maringá, redobrar a cautela e ficar apreensivo. "A gente está com os dois pés no freio", disse ele. Em julho de 2013, a saca de soja estava cotada na sua região a R$ 67 e, na semana passada, custava R$ 55. No caso do milho, o valor do produto encolheu 36% em um ano: de R$ 28 para R$ 18 a saca do grão. 

Colocar o pé no freio para o agricultor significa não fazer investimentos em máquinas e equipamentos. "Não tenho coragem de comprar uma máquina. É melhor ficar com um trator mais simples do que comprar um mais moderno e ter dificuldade para pagar", avalia. Hoje, ele tem três tratores, dois caminhões e duas colhedoras.

Frangos. No ano passado, o produtor desembolsou R$ 100 mil à vista para trocar o caminhão velho por um mais novo e comprar vários implementos. Agora, a tática será diferente: "Se a gente puder, como se diz na roça, vender uns frangos, ir pagando as contas e segurar parte da safra para vendê-la com preço mais alto, será melhor".

Frare está começando a colher a safrinha de milho, que foi excelente por causa do clima favorável. Ele calcula que vai conseguir mais de 100 sacas por hectare. Depois do milho, a intenção é semear os 100 hectares com soja em fins de setembro. A área não será reduzida, apesar do preço menor, porque os insumos (fertilizante, semente e defensivo) estão comprados. "Os gastos com tecnologia serão mantidos."

O agricultor sabe que o melhor remédio para compensar preço baixo é ampliar o volume produzido e, para isso, não pode economizar em fertilizante e defensivo. "No caso do milho, o preço de R$ 18 a saca só cobre o custo de produção porque a safra está boa", observa.

O produtor sabe que a queda do preço das duas commodities que ele planta, milho e soja, está atrelada à safra recorde esperada para os Estados Unidos, segundo apontou o último relatório do Departamento de Agricultura daquele país. Apesar disso, Frare acredita que muitos fatores estão em jogo até que realmente essa previsão se concretize, e aponta o clima como fator decisivo para a boa colheita americana. Até setembro, quando ocorre a colheita nos EUA, tem muita coisa apara acontecer, pondera o produtor.

Ele compara o momento atual para a safra americana com o resultado da Copa do Mundo. "No começo da Copa, o Brasil era tido como campeão e acabou não sendo. Tem ainda muita coisa pela frente."

Antecipação. Outra estratégia usada pelo agricultor para atenuar a queda na rentabilidade por causa dos preços menores é não antecipar a venda do produto. "No ano passado, vendi 30% da safra de soja antecipadamente", lembra ele. Já neste ano, por causa do preço menor, Frare decidiu esperar, na expectativa de que alguma alta de preço ocorra por causa do clima ou da desvalorização do real em relação ao dólar.

No caso do milho, o produtor também optou por segurar o produto. "Não vendi nada antecipadamente." A intenção é ir comercializando o grão aos poucos para quitar a fatura dos insumos, que segundo ele, está muito alta hoje.

Capitalizados por causa dos bons resultados das últimas safras, Frare e outros produtores preferem manter estoques. "Acho melhor ter uma safra em estoque do que ter uma safra de dívida porque a dívida pode virar uma bola de neve."/ M.C.

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