Apesar do PIB fraco, BC terá de continuar a elevar os juros

Inflação está na raiz do baixo crescimento porque corrói o poder de compra do consumidor e reflete o aumento dos gastos do governo; BC precisa responder com aperto monetário

Fábio Alves, da Agência Estado,

29 de maio de 2013 | 16h11

 SÃO PAULO - A culpa pela surpresa negativa do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, que teve expansão de 0,6% sobre o trimestre anterior, é da inflação, que corroeu o poder de compra das famílias brasileiras. E a inflação, além das expectativas de que os preços na economia seguirão em trajetória ascendente, mina a confiança dos empresários em investir.

 

Se a inflação está na raiz do crescimento econômico abaixo do esperado, por que então o Banco Central atuaria com cautela e não aceleraria o ritmo de aperto monetário para 0,50 ponto porcentual na reunião de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom)?

 

Nas palavras da coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, o menor ritmo de crescimento no consumo das famílias refletiu a volta da cobrança do IPI sobre carros e eletrodomésticos, o impacto da inflação sobre a massa salarial e o crédito mais seletivo. O consumo das famílias cresceu apenas 0,1% no primeiro trimestre sobre o trimestre anterior.

 

Nesta equação de como o BC deve conduzir sua política monetária na conjuntura atual é preciso levar em conta a contribuição da política fiscal do governo. "A inflação é um problema exacerbado pela política fiscal expansionista, em combinação com os bancos públicos ainda expandindo crédito alegremente: o BC está sozinho nessa", comentou um importante economista brasileiro.

 

O argumento desse economista é de que o PIB do primeiro trimestre reflete o que se construiu no passado recente - expandiram-se o gasto e o crédito público com política monetária muito frouxa. "Como resultado, a inflação correu solta, corroendo a confiança e a renda real, desestimulando o consumo e aumentando os estoques", disse.

"A pior parte é que há grande incerteza acerca de se a parte boa do PIB (a volta do investimento) é permanente. Neste ambiente, é difícil ver como seguir deixando a inflação correr solta possa aliviar o problema."

 

Para o entrevistado, se a política fiscal estivesse colaborando, o BC poderia fazer um aumento da taxa Selic de 0,25 ponto porcentual tranquilamente e assim dar sua contribuição. "Com a política fiscal que temos, só resta ao BC apertar mais, de forma a não ser acusado de conivência com a deterioração econômica adicional à frente."

Consumo das famílias

 

Ao analisar os números do PIB divulgados hoje, outro experiente economista observou que a questão agora é quanto da desaceleração do consumo das famílias é estrutural (limites de endividamento, menor crescimento da força de trabalho, etc.) e quanto é cíclica, exatamente em função da corrosão da renda real pela alta da inflação.

 

"Nesse sentido, é importante lembrar que, para as famílias de menor renda (que têm uma propensão marginal a consumir maior que a classe média e alta), a inflação tem sido mais alta, em função da elevação dos preços dos alimentos", disse. Segundo ele, adotando-se o INPC como referência para a classe de menor renda e o IPCA para a classe média, nos últimos 12 meses, o primeiro índice teve alta de 7,2% e o segundo de 6,5% - o item alimentos pesa 30% no INPC e 22% no IPCA. "Logo, se o raciocínio for válido, subir os juros aumentaria o poder de compra dos salários e, consequentemente, estimularia o consumo", acrescentou.

 

Esse economista admite que o número de hoje do PIB inegavelmente pode ajudar a defesa daqueles que apostam numa alta da Selic de 0,25 ponto. "Mas seria um erro - mais um - do Copom. Uma alta de 0,50 ponto afetaria muito mais as expectativas assim como conteria mais o processo de desvalorização do real", explicou.

 

De todo modo, não há como negar que o resultado baixo do PIB do primeiro trimestre aumentará a pressão política sobre o Copom para não subir os juros num ritmo mais acelerado do que iniciou o atual ciclo de aperto monetário.

Daí, os contratos futuros de juros terem incorporado uma probabilidade maior de alta de apenas 0,25 ponto após a divulgação do indicador pelo IBGE. Todavia, a crença de muitos interlocutores desta coluna é de que, se o BC tiver sangue frio e fizer o necessário para controlar a inflação e as expectativas inflacionárias, os preços e, por tabela, até o crescimento da economia estarão numa trajetória melhor em 2014, ano de eleições presidenciais.Ou como observou a esta coluna uma fonte: "Quanto mais o BC fizer hoje em termos de aperto monetário, menos precisará fazer no futuro."

 

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